Entrevista: Maria da Conceição Luzia Marcos Raposo, Presidente da Fundação Família Luzia Esteves Pinheiro


Maria da Conceição Luzia Marcos Raposo, Presidente da Fundação Família Luzia Esteves Pinheiro, é filha de pais portugueses, mas natural de França. Estudou na Faculdade Ciências Sociais e Humanas da Faculdade Nova de Lisboa, Escola Transpessoal - Desenvolvimento Pessoal e Profissional e Zengar Institute Inc. (Canadá).
Nos tempos livres gosta de ler, do contacto com a natureza, de espectáculos musicais e de cinema.

A GUARDA: A Fundação Família Luzia Esteves Pinheiro acaba de lançar o prémio Literário Padre José Júlio Pinheiro. É uma forma de manter viva a memória deste ilustre malhadense bem como da própria aldeia de Malhada Sorda?

Maria da Conceição: Este prémio pretende ir ao encontro de toda a evolução da Malhada, a parte cultural da Malhada, as inerências dos movimentos populacionais da Malhada, porque o Padre José Júlio também foi um emigrante. O nosso objectivo, agora, é poder juntar de uma forma diferente, especial, mas através da cultura, que o Padre José Júlio era um homem da cultura, a nossa diáspora, um pouco o nosso mundo. Porque toda a gente vai ter acesso à informação deste Prémio. O nosso objectivo é a partir daqui, aquilo que este senhor, o Padre José Júlio nos deixou, podermos então abrir tipo uma flor a desabrochar.

A GUARDA: Uma Prémio desta natureza numa terá do interior despovoado é um grande desafio?
Maria da Conceição: Precisamente por ser uma terra do interior e ser esquecida, o interior é extremamente esquecido, é que nós queremos fazer coisas pela Malhada, queremos fazer coisas por Almeida. Nós queremos por outra vez a Malhada no mapa, temos colaborado com a Junta de Freguesia, temos colaborado com a Câmara Municipal de Almeida, somos um trio que colaboramos em conjunto e muito próximos uns dos outros. Nunca há um não de ninguém, há sempre um sim de toda a gente. Logicamente, não podemos agradar a gregos e a troianos.
A GUARDA: A quem se destina este Prémio Literário Padre José Júlio Pinheiro?
Maria da Conceição: O Prémio Literário Padre José Júlio Pinheiro é para toda a gente que queira participar. Vamos também ter um Prémio de Revelação Juvenil.
Este Prémio é para toda a gente que possa apresentar um trabalho em português ou em francês. Toda a gente que queira participar pode fazê-lo. O nosso objectivo é fazermos a apresentação dos resultados em Agosto que é quando temos cá a nossa comunidade que está no estrangeiro, sobretudo a francesa. Que vem cá passar férias. Estamos a programar tudo para que isso aconteça.
A GUARDA: Em termos de prazos como é que está organizado este Prémio?

Maria da Conceição: Os trabalhos vão poder ser entregues entre o dia 1 de Maio e o dia 31 de Julho, para depois se conhecerem os resultados em meados de Agosto. Ainda não temos essa data definida mas queremos que seja em meados de Agosto. Este Prémio tem periodicidade anual e pretende incentivar a criatividade artística e a produção literária em poesia ou prosa, contribuindo para a defesa e enriquecimento da língua portuguesa assim como para homenagear o seu patrono, o Padre José Júlio Pinheiro.

A GUARDA: Mas a Fundação Família Luzia Esteves Pinheiro tem outros objectivos culturais não só na Malhada Sorda mas também no concelho de Almeida?

Maria da Conceição: Todo o acervo documental da Fundação foi para a Biblioteca de Almeida. Eles são os nossos fiéis guardiões do acervo da Fundação que queremos disponibilizar dentro da própria rede que está a constituída por eles, a que eles pertencem. A Biblioteca tem uma característica muito, muito especial e é lá que estão os 22 mil volumes do acervo da Fundação. Temos obras muito interessantes, como a primeira edição dos Sermões do padre António Vieira, do final do século XVII. Para consultar alguns livros é necessária uma requisição, por serem mais sensíveis, mas todos estão disponíveis.
A Guarda: E em relação à intervenção no património edificado, o que motivou a Fundação para avançar com a recuperação da Igreja de Malhada Sorda?

Maria da Conceição: Era um sonho das minhas primas (irmãs do Padre José Júlio Pinheiro). Pouparam a vida toda para poder recuperar a Igreja. No início elas tinham pensado só na recuperação da talha dourada, no entanto percebemos que tínhamos possibilidades de fazer esta intervenção de fundo.

A GUARDA: Uma intervenção de fundo que abarca toda a Igreja de Malhada Sorda?

Maria da Conceição: Sim em toda a Igreja. E já temos surpresas muito agradáveis. Foi encontrado um fresco de S. Bartolomeu. Há pinturas murais que estiveram escondidas durante séculos e que agora estão visíveis. Com o evoluir das obras, a pintura de S. Bartolomeu deixará de estar visível devido à recolocação do retábulo. Por outro lado os frescos com a criação e nascimento de Adão e Eva vão estar depois visitáveis. Será criada uma estrutura, uma iluminação para poderem ser visitáveis.

A GUARDA: Há quanto tempo estão a decorrer as obras de recuperação da Igreja paroquial?

Maria da Conceição: Nós tirámos a arte sacra há mais de ano e meio e pensamos reabrir para a Festa de Corpo de Deus, de 2025 (19 de Junho de 2025). Pensamos ter a Igreja pronta nessa data.
Neste momento a talha dos retábulos está toda em ateliê, da N-Restauros, em Vila Nova de Gaia. Já está toda trabalhada. Tudo o que foi para ateliês já está tudo pronto. Agora há muito trabalho a ser feito aqui, na Igreja Paroquial, ou seja todo o trabalho de recuperação estrutural para serem recolocadas todas as peças que saíram. Por exemplo, todos os caixotões do primeiro arco, logo a seguir ao arco triunfal foram todos recuperados com todas as regras obrigatórias dentro destes processos.

A GUARDA: Mas a Fundação tem outros projectos para o futuro?
Maria da Conceição: Nós já estamos com mais alguns sonhos. Estamos muito atentos ao património religioso desta terra. Juntamente com a Junta de Freguesia pretendemos olhar para o turismo religioso de Malhada Sorda que pode ser valorizado. Desde a pré-história temos aqui registos, mesmo em termos de religiosidade. Não nos vamos só focar na parte católica, vamo-nos focar no percurso que esta região tem, logicamente culminando na parte católica actual.