Entrevista: Bárbara Cruz - Presidente da Associação “Vida aos Montes – Associação Educativa e Cultural de Apoio ao Desenvolvimento Integral do Ser”


Bárbara Cruz, Presidente da Associação “Vida aos Montes – Associação Educativa e Cultural de Apoio ao Desenvolvimento Integral do Ser”, nasceu em Coimbra, onde viveu até aos cinco anos. A partir dessa altura passou a residir Guarda, cidade onde tem as raízes e os antepassados, e de onde não pretende sair.
A GUARDA: No dia 26 de Setembro de 2022, foi constituída a associação “Vida aos Montes – Associação Educativa e Cultural de Apoio ao Desenvolvimento Integral do Ser”. Como e para que foi criada esta Associação?

Bárbara Cruz: A Associação tem como principal objectivo criar, e apoiar a criação, de projectos educativos no distrito da Guarda, que desenvolvam metodologias de ensino inovadoras, e diferenciadoras do actual sistema de educação em Portugal. Pretende também promover e dinamizar acções educativas, culturais e de solidariedade social para as comunidades e grupos socialmente desfavorecidos. Ações que promovam o desenvolvimento integral e holístico do ser humano, bem como o fortalecimento e aproximação de colectivos, comunidades e grupos, em consonância com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, e tendo como princípios orientadores a liberdade para viver e crescer, em paz e respeito pela Terra, as pessoas e os animais, e a preservação e regeneração do ambiente, comunidades, costumes e tradições.
Esta iniciativa partiu de um conjunto de pais da região, que, tendo como principal desejo comum, proporcionar uma experiência educativa distinta do sistema de ensino convencional aos seus filhos, se reuniram nos últimos anos, com o fim de se entreajudarem para que este desejo se materializasse.
O principal objectivo para a constituição desta associação foi, inicialmente, a criação de um jardim de infância com pedagogia Waldorf e Escola da Floresta, nas redondezas da cidade da Guarda, e outra próxima de Linhares da Beira, que são os locais onde se encontram a maior parte dos pais e educadores interessados. Posteriormente a missão da associação ampliou-se, e pretendemos não só concretizar este objectivo, mas também dar suporte a outros projectos educativos de vanguarda que queiram nascer no distrito da Guarda.
Pretendemos também chegar às populações mais carenciadas e com necessidades especiais, através da organização de actividades educativas, tendo como base, o contacto com a Natureza a as pedagogias mencionadas em cima, em colaboração com instituições da região.
No futuro pretendemos também avançar com a criação de uma escola de ensino básico, no entanto, ainda não dispomos de recursos humanos para tal.
A GUARDA: Onde funciona a sede da Associação e como é que pode ser contactada?

Bárbara Cruz: A sede da Associação encontra-se no centro da Guarda, na Praça Luís de Camões (Praça Velha), nº 8. Neste momento ainda estamos a trabalhar no website da associação, bem como, outros meios de comunicação social para termos mais visibilidade, e onde as pessoas poderão acompanhar as actividades que se vão realizando, bem como, informação para os pais que pretendam inscrever os seus filhos nas escolas. Para já, a associação pode ser contactada através do email Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar., e do 968527841;

A GUARDA: Quem é que pode fazer parte desta Associação?

Bárbara Cruz: Podem fazer parte pais, profissionais da área da educação e cultura, e todos aqueles que se sintam atraídos pela área educativa, e que desejem uma educação de qualidade e holística para as nossas crianças.

A GUARDA: Como surgiu o nome ‘Vida aos Montes’?

Bárbara Cruz: O nome Vida aos Montes surgiu porque literalmente queremos devolver a vida aos montes, que outrora estavam cheios de crianças, e descentralizar as actividades da cidade. Aproveitámos o duplo significado da palavra “montes”, pois a nossa região é uma zona de montanha, e é nos “montes” que queremos desenvolver os projectos educativos, e coloquialmente “aos montes”, ou seja, montes cheios de vida.
A GUARDA: Quais as iniciativas que a Associação pretende desenvolver, nos próximos tempos?
Bárbara Cruz: Neste momento, o corpo associativo já está a trabalhar para a criação de um jardim-de-infância com pedagogia Waldorf nas proximidades da Guarda. E outro na zona de Linhares da Beira, este último com foco na pedagogia Escola da Floresta. Já estão também a acontecer semanalmente playgroups em Linhares da Beira e em Fornos de Algodres, onde as crianças se encontram regularmente para brincar na natureza.
Na altura natalícia iremos também organizar um evento de angariação de fundos, com diversas actividades, para ajudar a alavancar e divulgar os projectos educativos.
A GUARDA: É privilegiado o contacto com a natureza?

Bárbara Cruz: As pedagogias a que fazemos menção tem como base de estudo e aprendizagem o contacto privilegiado com a Natureza, mas não só. A pedagogia Waldorf tem como princípio uma visão antropológica, ou seja, a criança desenvolve-se num conjunto de dimensões que regem todo o universo, em que as práticas educativas integram o aluno de forma plena com o seu desenvolvimento corporal, cognitivo e emocional a partir de um estudo profundo da Antroposofia, uma ciência filosófica e mística fundada pelo austríaco Rudolf Steiner.
A Escola da Floresta é inspirada no modelo de educação ao ar livre desenvolvido em países escandinavos desde 1950. Tem uma abordagem pedagógica que visa o desenvolvimento integral da criança, proporcionando um espaço de experimentação prática para as crianças aprofundarem capacidades e aptidões, como a confiança, a criatividade, a gestão do risco e a autonomia.

A GUARDA: Perante os incêndios do último Verão, na zona da Serra da Estrela, o que é que esta Associação pretende fazer em termos de educação ambiental?

Bárbara Cruz: Muitos dos pais que constituem a associação residem na Serra da Estrela, e viram as suas quintas arder nos incêndios deste verão. Por isso, se antes desta tragédia, a criação desta associação já fazia sentido, depois dos incêndios foi quase que uma obrigação, e deu-nos uma força de vontade ainda maior.
A educação ambiental é uma pedra basilar nas pedagogias que pretendemos criar e apoiar. Não é uma disciplina individual, mas uma constante na aprendizagem das crianças. E integra-se na vida diária através de vivências práticas e reais com a natureza. As crianças já nascem com o instinto de respeitar e cuidar da terra em que habitam, a nós só nos compete não quebrar essa ligação.
A vida na Estrela só pode perdurar se cada um de nós se comprometer a ser responsável por ela, começando por transmitir às nossas crianças o seu valor natural e humano. A associação Vida aos Montes pretende ser um canal de transmissão desses valores, não só através dos projectos educativos, mas também através de acções ambientais colectivas que pretendemos organizar no futuro.