Entrevista: Pedro Pinto, Grupo de Emergência – Guarda


Pedro Pinto é natural de Castro Daire, mas reside na Guarda. Licenciado em Engenharia Informática pelo Instituto Politécnico da Guarda (IPG), obteve o grau de Mestre em Computação Móvel na Instituição. É administrador de sistemas no Centro de Informática do IPG, docente de várias unidades curriculares na área da tecnologia. É responsável pela Academia Cisco do IPG. É também Administrador do site sobre Tecnologia, Pplware.com.Nos tempos livres gosta de correr (é presidente dos Guarda Runners).
A GUARDA: O que é e como surgiu Grupo de Emergência - Guarda?
Pedro Pinto: Há cerca de um ano fui moderador de um evento da Google sobre Cidadania Activa. O evento serviu de inspiração para reflectir sobre este conceito de “Voluntariado digital” e formas de estar na vida. Aproveitando a temática, dei uma palestra no Teatro Municipal da Guarda num evento da Comunilog (ainda não se falava sobre a COVID-19) e senti que talvez fosse importante, e até urgente, para a cidade/distrito da Guarda criar uma comunidade a este nível.Durante uma corrida, com casos de COVID-19 já registados em Portugal, questionei-me sobre o que poderia fazer para ajudar a minha comunidade. A resposta, naquele momento, surgiu rapidamente… NADA!  Sou informático, não sou médico, nem enfermeiro, nem outro tipo de profissional de saúde. E senti-me um inútil perante a situação. De volta ao tema, uns quilómetros mais à frente, lancei o desafio a mim mesmo de criar um grupo de “Voluntários Digitais”. O objectivo passaria por ajudar a minha comunidade no que fosse preciso... especialmente ao nível digital/solidário!  O grupo iria também servir como um canal de comunicação rápido, credível e em massa.E foi assim… criei o Grupo de Emergência da Guarda (GEG) na rede social Facebook a 14 de Março e, em menos de 24.00 horas, o grupo privado já tinha mais de 5 mil seguidores. Senti naquele momento que tinha uma enorme missão e responsabilidade pela frente. Actualmente o grupo tem perto de 30 mil seguidores (de todo o mundo), onde colaboram os amigos Vanessa Rei, Rui Badana e Carlos Martins.
 A GUARDA: O Grupo de Emergência da Guarda conseguiu uma maior proximidade com todos da comunidade. A que se deve a adesão de tantas pessoas a este Grupo?
Pedro Pinto: O momento é crítico e a boa informação tem sido uma das melhores armas no combate a um inimigo desconhecido. O grupo foi criado com o intuito de oferecer a informação mais fidedigna (num combate claro às fake news), mas também publicar a informação dos organismos oficiais de uma forma clara e simples de entender por todos. Outra das características é a publicação atempada (quase em tempo real) para os seguidores perceberem onde é que estamos, afinal, no meio desta pandemia e o que precisam de saber no momento.A adesão de tantas pessoas deve-se certamente à confiança e rapidez da informação publicada no grupo, mas também pelo facto de se identificarem com o mesmo. Na verdade, apesar de ser um grupo digital, a proximidade entre todos é especial.A GUARDA: Quais as principais iniciativas promovidas pelo Grupo para captar a atenção de tantas pessoas?
Pedro Pinto: Tal como o novo coronavírus, o grupo também tem passado por momentos marcantes. No início, num período de muito medo, incertezas do futuro e quase total desconhecimento do inimigo, a solidariedade e ajuda foram o foco de todos.Com o lançamento de vários desafios e até pedidos de várias IPSS, juntas de freguesia, câmaras municipais, forças de segurança e bombeiros, no grupo conseguiu-se (em tempo recorde) colmatar as necessidades.Os apelos eram lançados no grupo e rapidamente toda a comunidade dava resposta e arranjava-se solução! Há muitas histórias… comoventes... que nos fazem refletir sobre o melhor da vida! Foi uma fase que marcará para sempre todo o distrito da Guarda, pois a união de todos mostrou claramente que estávamos juntos por uma causa (sem interesses) e fortes para combater este vírus. Todos foram e continuam a ser também verdadeiros heróis nesta batalha. A solidariedade envolveu “makers”, costureiras do distrito e muitos outros que rapidamente se disponibilizaram para ajudar/colaborar! Todos devemos guardar estes momentos, de forma muito especial, como sendo os “mais humanos” em prol de uma comunidade.Em pleno Estado de Emergência, houve a necessidade de disponibilizar à comunidade toda a informação sobre contactos e horários de farmácias e serviços essenciais em funcionamento. No grupo são ainda disponibilizadas diariamente análises aos boletins epidemiológicos da DGS e ULS Guarda, clarificação de termos e pontos de situação, explicação das medidas excecionais do Governo português, fotografias e serviços do distrito da Guarda, mensagens de apoio em vídeo de várias personalidades e ultimamente têm sido realizadas algumas “lives/diretos” com os esclarecimentos de vários membros da equipa da linha frente à COVID-19 na ULS Guarda, assim como alguns empreendedores da Guarda.No início de Maio decorreu também uma angariação de fundos para as Aldeias de Crianças SOS, que muito nos devemos orgulhar do resultado.
A GUARDA: Quais as principais dificuldades e obstáculos que encontrou, à medida que o Grupo foi crescendo?
Pedro Pinto: Honestamente, até ao momento, não senti qualquer dificuldade ou obstáculos, a não ser a responsabilidade natural de um grupo a este nível. O grupo é uma enorme fonte de motivação, inspiração e orgulho, no qual todos têm contribuído de forma exemplar e responsável. Este é um grupo de todos para todos… e é essencialmente um grupo pela Guarda!A GUARDA: Continua a ser preciso combater a desinformação e criar comunidades fortes e unidas?
Pedro Pinto: Sem dúvida! A boa e má informação circulam a uma velocidade estonteante e são muitos os que são levados a acreditar na desinformação. Como referido, o grupo terá sempre a prioridade de informar bem e atempadamente, o que neste cenário que vivemos é fundamental. É preciso “medir” cada palavra que se escreve para não ter diferentes interpretações, é preciso consultar e questionar fontes credíveis e é importante colocarmo-nos do lado do leitor para perceber qual será a sua possível interpretação (faço regularmente este trabalho no meu outro projecto que é o Pplware, um dos sites de referência em Portugal sobre tecnologia). Não é fácil, pois há informação de todos os lados, com as mais diferentes intenções e escrita das mais variadas maneiras. É preciso filtrar, perceber o que é importante e só assim teremos a confiança de quem nos lê/acompanha. A título de curiosidade, mesmo existindo milhares de fake news a circular, os relatórios do Facebook mostram que, das muitas publicações realizadas até ao momento no Grupo de Emergência da Guarda, nenhuma foi considerada falsa pelos sistemas de análise da própria rede social. A GUARDA: Já foi criado o grupo de voluntários de ajuda digital, das mais diferentes áreas, para apoio à população?
Pedro Pinto: Sim, no início fizemos logo esse levantamento e procedemos à criação de estruturas de apoio. Felizmente, além do grupo de psicólogos de suporte ao próprio Grupo de Emergência da Guarda, os restantes grupos não têm tido necessidade de intervir enquanto grupo. No entanto, têm surgido outras iniciativas paralelas (ex. Caixas Solidárias) que deverão ser um orgulho para a nossa comunidade e para as quais podemos sempre contribuir.A GUARDA: Qual vai ser o futuro do Grupo depois de ser ultrapassado o problema desta pandemia?Pedro Pinto: Sendo um Grupo de Emergência este irá continuar activo estando sempre disponível quando a comunidade precisar. Tendo em conta o impacto do grupo (em todos os cantos do mundo onde existem seguidores), poderá este também ajudar na retoma da economia local e no turismo ao reforçar a divulgação ao mundo de toda a beleza inspiradora do distrito; na educação ao divulgar formações e cursos leccionados no Politécnico da Guarda, nas Escolas Profissionais e públicas que funcionam na região, de empresas da região e também como promoção dos mais diversos tipos de acções!Um enorme obrigado a todos os que acompanham este grupo.