Entrevista: Bruno Carvalho – Presidente do Clube de Voo Livre Vertical


Bruno Carvalho, Presidente do Clube de Voo Livre Vertical, é natural de Cascais e estudou no Instituto Superior Técnico.
Nos tempos livres gosta de praticar Parapente.
A GUARDA: O que é e como nasceu o Clube Vertical?

Bruno Carvalho: O Clube Vertical é uma associação desportiva dedicada ao voo livre, que se define como o voo sem qualquer motorização, utilizando apenas as forças da natureza, como as brisas ou correntes de ar ascendente criadas pela actividade térmica. São modalidades de voo livre a Asa Delta e o Parapente.
A história do Clube de Voo Livre Vertical começa em 1989 quando Gil Gonçalves, e um pequeno grupo de amigos se deslocam a Madrid para tirar o curso de parapente. No início de 1990, Gil Gonçalves ensinou a voar um outro grupo de amigos, entre os quais se encontravam Vítor Baía, Luís Serafim e Heitor Araújo, tendo-se juntado também Paulo Moura uns tempos mais tarde. Formava-se assim o núcleo inicial do clube.
O Clube de Voo Livre Vertical foi fundado no dia 7 de Março de 1991. Nesse ano inicia-se também a formação de novos pilotos, através da criação da escola de parapente.
Os primeiros locais de voo do Clube eram na zona de Coimbra, Redinha e Rabaçal. A partir de 1992 a acção do Clube centralizou-se em Linhares da Beira, transformando a aldeia histórica na “Catedral do Parapente” nacional com o primeiro Open Internacional de Parapente, que deu visibilidade à modalidade e um grande impulso ao crescimento do voo livre em Portugal.
Em 2003, com o aconselhamento técnico do Vitor Baia e na presidência do Miguel Ferrand d’Almeida, o Clube começou também a explorar outras descolagens na Serra da Estrela, nomeadamente no vale do Zêzere, concelho de Manteigas.

A GUARDA: Quem pode fazer parte desta Associação de parapente?

Bruno Carvalho: Qualquer pessoa que se identifique com os ideais do Clube! São sócios efectivos os praticantes de voo livre, mas recebemos simpatizantes, que não são pilotos, com o mesmo entusiasmo. Sendo um dos primeiros clubes dedicados ao voo livre em Portugal e operando uma das primeiras escolas de parapente do país, o Clube atraiu pessoas interessadas na modalidade que vieram de várias regiões, extravasando a sua área de influência muito para além do distrito da Guarda.
A massa associativa do Clube tem um carácter nacional, sendo constituída maioritariamente pelos alunos formados pela própria escola, mas contando também com a adesão de outros pilotos que se identificam com o espírito do Clube.
O Clube conta com sócios de várias nacionalidades, residentes em Portugal, e também com sócios que estão fora de Portugal, mantendo laços com a comunidade emigrante e promovendo o intercâmbio de ideias.
A GUARDA: Quais as principais actividades que esta Associação promove ao longo do ano?
Bruno Carvalho: Além da actividade regular da escola, tentamos estar presentes numa descolagem sempre que está bom para voar. As diferentes descolagens que temos à nossa disposição permitem-nos voar com várias direcções do vento, maximizando por isso o número de voos na região, prestando suporte aos nossos associados e enquadrando os pilotos externos que nos visitam, nacionais e estrangeiros.
Ao longo do ano temos alguns eventos em que pretendemos promover a actividade junto da população geral, dinamizando fins de semana de voo de lazer.
Normalmente organizamos pelo menos uma prova de caracter competitivo, sendo o Festival de Linhares da Beira talvez o mais emblemático, uma prova internacional que costuma receber mais de uma centena de pilotos. O Clube acolheu, ao longo da sua história, vários eventos nacionais e internacionais, como campeonatos dos países nórdicos, campeonatos britânicos e Taças do Mundo.
Há já uns anos que organizamos uma prova que dura toda a época desportiva, com prémios monetários significativos, que premeia os melhores voos realizados a região da Serra da Estrela – o “Voar na Serra da Estrela”.
O Clube tem nos seus estatutos a defesa e preservação da Natureza e promovemos, normalmente com parceiros, acções de sensibilização, limpeza de caminhos e acessos às descolagens, e de reflorestação, algo que se tornou ainda mais necessário desde o grande incêndio de 2022.

A GUARDA: Está para breve a iniciativa ‘Manteigas a Voar’. O que é e em que consiste?

Bruno Carvalho: O “Manteigas a Voar” é uma das iniciativas de promoção do parapente junto da população geral, em que todos são convidados a vir voar connosco, literalmente!
O grande objectivo é dar a conhecer a modalidade, com voos didácticos, em bilugar, e outras actividades de escola. Começou por ser uma tentativa de atrair novos alunos locais, residentes nos concelhos do distrito da Guarda, mas depressa se tornou numa actividade que atrai pessoas de fora, demonstrando que o voo livre é um dos vectores de atracção turística para a Serra da Estrela e justificando o investimento que o concelho de Manteigas realiza, com o apoio logístico que disponibiliza ao Clube Vertical.
Quem quiser vir voar no vale do Zêzere, as inscrições estão abertas, para dias 2, 3 e 4 de Março, no nosso sítio da internet: www.clubevertical.org.
Este ano iremos realizar dois eventos destes em Manteigas (Março e Outubro) e outros dois em Linhares da Beira (Maio e Setembro), teremos informações sobre os mesmos no nosso sítio da Internet e nas redes sociais.

A GUARDA: Como define o papel do Clube Vertical enquanto promotor de desenvolvimento do parapente na região da Serra da Estrela?
Bruno Carvalho: O Clube de Voo Livre Vertical é, como já referi, um dos clubes mais antigos, desta modalidade, no país, tendo sido o primeiro Clube a voar na região da Serra da Estrela.
O conhecimento técnico desenvolvido pelo núcleo fundador, e sobretudo com a orientação do Vitor Baía durante três décadas, permitiu demonstrar que se pode voar em toda a Serra da Estrela. Hoje o Clube dinamiza descolagens em vários concelhos do distrito da Guarda, como Celorico da Beira, Manteigas, Covilhã e Seia.
A promoção do parapente é o que nos move, mas consideramos que para sermos efectivos temos de promover a região como um todo, explorando as sinergias que se criam na região. Queremos que os pilotos venham acompanhados e que quem não voe tenha acesso a outras actividades, culturais ou desportivas. Temos uma consciência social, com responsabilidade para com a região que nos acolhe, a promoção do parapente é por isso enquadrada na oferta que a Serra da Estrela apresenta a quem a visita.
A Serra da Estrela é O destino por excelência para o voo livre em Portugal, o Clube sente, por isso, uma responsabilidade acrescida, fazendo um esforço para garantir que a modalidade se pode exprimir em todas as suas valências, seja em lazer ou competição.
Consideramos que a Serra da Estrela é a nossa casa, não um concelho em particular, como pilotos temos uma vista privilegiada da Serra da Estrela e no ar não descortinamos fronteiras.

A GUARDA: Podemos dizer que o Clube Vertical está associado à organização e dinamização do parapente em Portugal?

Bruno Carvalho: Desde sempre que o Clube Vertical esteve associado à organização e dinamização do parapente em Portugal, tendo sido, em 1996, um dos sócios fundadores da Federação Portuguesa de Voo Livre (FPVL), entidade que tutela a modalidade em Portugal.
A capacidade técnica e de organização de eventos competitivos trouxe para a Serra da Estrela competições nacionais e internacionais e o Clube colaborou com várias entidades na organização de eventos noutros locais de voo, como Castelo de Vide, Torre do Moncorvo, ou Montalegre.

A GUARDA: Quais os principais parceiros do Clube Vertical?
Bruno Carvalho: Somos um Clube pequeno e felizmente contamos com os apoios das autarquias onde enquadramos a actividade, nomeadamente as Câmaras Municipais de Manteigas e Celorico da Beira. Também temos beneficiado muito do suporte local, das Juntas de Freguesia de Sameiro, Vale de Amoreira, Linhares da Beira e Vila do Carvalho, sobretudo na manutenção dos acessos às descolagens. Sem esses apoios institucionais a actividade do Clube seria muito mais difícil.
Claro que a nossa actividade nos obriga a manter relações de trabalho com outras entidades como o ICNF, a GNR de Montanha, ou a FPVL entre outras.
Estamos a fazer um esforço para alargar a lista de parceiros, institucionais e privados, a nossa actividade abrange todos os concelhos da Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela (CIBSE), e temos colaborado pontualmente com o Turismo do Centro.
Temos uma parceria informal com o Clube de Montanhismo da Guarda, cujos membros nos ajudam bastante na logística dos nossos eventos, com o seu excelente conhecimento da Serra da Estrela. Temos também uma parceria com o Aeroclube da Covilhã e devo ainda referir que temos um protocolo de geminação com o Clube Asas de São Miguel, nos Açores, com quem partilhamos a paixão pelo voo livre.