Uma vida a fazer cestos


“Sempre trabalhámos como cesteiros e, actualmente, já não há mais ninguém a fazer cestos, infelizmente”, explica Joaquim Venâncio, o último cesteiro de Famalicão da Serra. Juntamente com a mulher, Irene Venâncio, mantém viva uma arte sem seguidores que “ninguém quer aprender”.
Longe vai o tempo em que, nesta aldeia do concelho da Guarda, havia uma dezena de cesteiros e todos com muito trabalho. Joaquim Venâncio ainda se recorda dos nomes dos cesteiros, grande parte deles pertencentes à família. Os negociantes vinham de várias partes do País comprar “toda a obra que se fazia”. Mesmo agora, com a invasão do plástico, não tem mãos a medir e não dá vencimento aos pedidos que aparecem. “O plástico tirou muita venda dos cestos mas continuamos a vender tudo o que fazemos”, explica.
Apesar de ser “um trabalho duro e sujo, sempre deu para viver”, referiu Joaquim Venâncio ao Jornal A GUARDA. Com as poupanças da arte comprou a casa, que depois arranjou, e ainda “mais dois bocadinhos de terra”. E acrescentou: “Não foi fácil. Tiramo-lo do corpo. Fazíamos dois dias num. Começávamos a trabalhar às cinco da manhã e só terminávamos às onze da noite”.
Irene Venâncio recorda algumas arrelias sadias com o marido devido ao excesso de trabalho. “Vínhamos para aqui muitas as vezes a trabalhar à noite e a mim dava-me o sono, por isso barafustava com o meu homem”, referiu. Com o intuito de ajudar, começou a passar a madeira às escondidas e rapidamente se tornou indispensável no ofício. “Quando viu a madeira passada por mim, o meu homem nem queria acreditar. Disse-me que podia continuar que tinha muito jeito”. E acrescentou: “Eu só passo madeira e já é uma boa ajuda”.
O processo de preparação da madeira, toda de castanho, é complexo e trabalhoso. Primeiro faz-se o corte, agora apenas nos soutos das encostas da serra de Famalicão e Gonçalo mas, quando havia muitos cesteiros, também no Vale do Mondego. A seguir a madeira é esquentada, enterrada, queimada, descascada e rachada. A partir daí vai ao banco onde é passada e fica pronta para fazer os cestos.
Das mãos de Joaquim Venâncio saem todos os cestos que são feitos na oficina e, se tiver madeira passada, faz uma média de 6/7 cestos por dia.
Noutros tempos, no mês de Setembro, na altura das vindimas, não faziam nenhum cesto para os negociantes, trabalhavam exclusivamente para Famalicão. “As pessoas pediam-nos para consertarmos os cestos velhos e para fazermos cestos novos para usarem nas vindimas”, referiu.
Da oficina de Joaquim Venâncio continuam a sair cestos grandes, médios e pequenos, mas principalmente miniaturas, que são os mais procurados. “Ainda fazemos cestos de pisar que antes serviam para as castanhas e agora são usados para guardar a lenha em casa, mas fazemos mais miniaturas”, explicou.
Joaquim e Irene Venâncio continuam uma arte que os acompanhou ao longo de quase cinquenta anos de matrimónio e que os ajudou a fazer a vida e a criar os filhos. Sem ninguém que queira aprender a arte, dizem ser “os últimos cesteiros de Famalicão”.