Entrevista: Maria Natércia Dias, autora do livro ‘O Lago dos Tchapooneiros’


Maria Natércia Dias, autora do livro ‘O Lago dos Tchapooneiros’, publicado pela editora ‘Cordel d’Prata’, é natural de Valcôvo, freguesia de Panoias de Cima, no concelho da Guarda. Fez a licenciatura em História, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Leccionou durante 36 anos as disciplinas de Estudos sociais, História e Geografia de Portugal e língua Portuguesa. Fez um Curso de Jornalismo do CENJOR. Colaborou e dinamizou o jornal escolar ‘O Castelo’.
A GUARDA: Quem é Maria Natércia Dias e o que a levou a escrever este livro para crianças?
Maria Natércia Dias: Sou uma professora aposentada. Trabalhei no ensino durante 36 anos, 31 dos quais na Escola de Santa Clara. Nasci no Valcôvo, localidade anexa à freguesia de Panoias de Cima. Estudei no Liceu Nacional da Guarda e conclui a minha formação académica em História na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Após a aposentação, regressei à minha aldeia. Tenho convivido com o despovoamento progressivo e dedico-me a cuidar da vida vegetal que me rodeia, quer a que os meus pais me deixaram, quer a que fui plantando e semeando. Quando o Inverno rigoroso ou o calor abrasador me prendem em casa, escrevo e, às vezes, faço um pouco de artesanato. No tempo em que se podia viajar, também conheci outras paragens.Escrevi este livro, porque preciso de escrever, de estar com a imaginação ligada. Tal como a personagem principal desta história, quero estar ocupada. Comecei com uma história infantil, porque me foi dado o privilégio de estar a ver um neto crescendo.
A GUARDA: Apesar de ser um livro para os mais pequenos também é uma lição de vida para jovens e adultos? 
Maria Natércia Dias: Quando escrevi “o Lago dos Tchapooneiros” queria passar mensagens para eventuais leitores. Pensei, sobretudo nas crianças. Quero acreditar que muitos adultos já possuem e praticam atitudes e seguem valores aí referenciados e que passo a mencionar: reciclagem, preferência por recursos naturais e locais, limpar, desassorear cursos de água, trabalhar em grupo e ter sempre projectos. Sobre as águas, só há relativamente pouco tempo, fiquei a saber que há plantas que fazem os serviços das limpezas. Investiguei. Penso que são informações que os pequenos podem passar a alguns crescidos. Houve leitores que me confessaram que ainda hoje gostam de ler livros para crianças. Há adultos muito urbanos que poderão vir a sentir-se gratificados se contribuírem para a recuperação de espaços onde estão as suas raízes. E, tal como ainda estão as coisas que nos preocupam e limitam, poderiam vir a ter uma boa forma de desconfinar.
A GUARDA: Porquê a rã como protagonista desta história? Maria Natércia Dias: As rãs dão concertos em Maio/Junho. Nessas noites soma-se uma bênção de frescura com uma alegre quebra da monotonia de uma vida rural e muito solitária. Os cruacs que nos chegam, mostram-nos que não estamos sozinhos, fazem muito bem, curam o stress. Acontecia também que quando ia para o lago da família com o meu neto, atirávamos pedras à água. Estas faziam círculos e um ruído que traduzíamos pela onomatopeia “Tchapoon”. Às vezes não fazíamos muito barulho e conseguíamos ver as rãs todas estendidas na água, tão relaxadinhas que apetecia provocar, atirar mais pedras. Quando estavam à beira do lago, assim que nos viam, mergulhavam. Também elas faziam “tchapoon”. Era motivador escrever sobre essas vivaças tchapoonecas.

A GUARDA: Podemos dizer que o ‘O Lago dos Tchapooneiros’ é um livro que remete os leitores para as questões ambientais e para o campo?
Maria Natércia Dias: Sim, todo o cenário é campestre e o assoreamento de cursos de água é mais uma marca do abandono dos lugares onde crescemos e que estamos a perder. Dado que os campos não estão cultivados, foi-se o préstimo dos cursos de água. Mas um lago pode ser a piscina, o equipamento que não temos e pode fazer o bom ar da Guarda cheirar a litoral. Também este lençol de água a que eu chamei lago, possui um ecossistema que urge resguardar. Uma comunidade deve proteger todos os seus bens, especialmente aqueles que lhe foram legados e que podem atrair, por serem genuínos. Puros. Trata-se de água que brota de nascentes subterrâneas e também escorre monte abaixo. Riqueza que aguarda há demasiado tempo. A GUARDA: A quem dedica o livro?  Maria Natércia Dias: Ao meu neto, pois a história nasce da cumplicidade que estabelecemos, da obrigatoriedade de sermos tchapooneiros e também da inflexibilidade dele quando me dizia: “Avó, cansada, não!”. Ou me obrigava a descortinar pedras nas redondezas. Era um gosto vê-lo, quando eram maiores e faziam um tchapoonzão.

A GUARDA: Como professora escreveu vários textos integrados em projectos educativos que desenvolveu e dinamizou. Quais os projectos educativos que mais a cativaram?Maria Natércia Dias: Todos me agradaram quando os concretizei, todos se integraram em contextos pertinentes. Os que considero mais motivadores foram os que exigiram muita colaboração e envolvimento da comunidade escolar, especialmente os que tinham representações de história ao vivo. Citarei a comemoração dos oitocentos anos da concessão do foral à Guarda, a Expo Brasil integrada nas comemorações dos quinhentos anos do seu achamento, a Escola de Avós, os Sabores do Tempo, as Cenas Guardenses.  A nível de Língua Portuguesa, foram vários concursos e a Semana dos Media. Conseguimos que ardinas devidamente caracterizados, fossem vender o jornal escolar “O Castelo” e fizessem ouvir os seus pregões.
A GUARDA: O que é que a motivou a fazer o curso de Jornalismo do CENJOR?Maria Natércia Dias: A necessidade de saber mais sobre todo o processo de feitura de um jornal. Só conhecia os periódicos como leitora. Usei alguma intuição, mas considerava não ser suficiente. Surgiu a oportunidade de formadores do CENJOR, com a orientação do jornalista Orlando Raimundo, darem um curso na Guarda. Aproveitei imediatamente. Três colegas da minha escola também o frequentaram. Apliquei os conhecimentos no jornal “O Castelo”.A GUARDA: Vai continuar a escrever para as crianças?Maria Natércia Dias: Se a vida me permitir, certamente que o farei. Tenho algumas histórias infantis e infantojuvenis gravadas num ficheiro do meu computador. Se não as publicar, ficarão para o meu neto ler. Podem ser uma forma de permanecer nas suas memórias.