Entrevista: Gonçalo Fonseca vencedor do prémio de fotojornalismo LOBA - Leika

Oskar Barnack Award Entrevista: Oskar Barnack Award “Desde pequeno que conheço a Guarda e sempre me espantei com a beleza desta zona, apesar do abandono que se vive hoje em dia, em muitos sítios”
Gonçalo Fonseca, vencedor do prémio de fotojornalismo LOBA - Leika Oskar Barnack Award, é natural de Lisboa, mas tem uma forte ligação à terra do pai, a aldeia de Peroficós, no concelho do Sabugal. Estudou na Universidade Católica de Lisboa (Licenciatura em Jornalismo) e na Universidade Autónoma de Barcelona (Pós-Graduação em Fotojornalismo).Nos tempos livres gosta de passear pela natureza e cuidar de plantas e, sempre que a vida permite, visitar o Peroficós. 
A GUARDA: Como recebeu a notícia da atribuição do Prémio LOBA - Leika Oskar Barnack Award?
Gonçalo Fonseca: Recebi a notícia com alguma incredulidade e muita felicidade. Este ano, pela primeira vez, o prémio teve um formato mais restrito, em que 70 peritos em fotografia numeraram 70 jovens talentos para o prémio. Trabalho profissionalmente há cerca de 3 anos. Destes 70 fotógrafos e fotógrafas estão alguns dos mais promissores fotojornalistas de todo o mundo, muitos com carreiras altamente desenvolvidas e com mais anos de trabalho do que eu. Que um trabalho feito por conta própria e sem qualquer tipo de apoio, tenha sido premiado é uma sensação fabulosa. A GUARDA: O que é que o motivou a concorrer a este prémio de fotojornalismo com o projecto ‘New Lisbon’?
Gonçalo Fonseca: Fui nomeado por uma curadora espanhola, a Silvia Omedes, que desde o princípio da minha carreira me tem vindo a ajudar e guiar. Era claro para os dois que este projecto desenvolvido em Portugal tinha potencial para chegar longe, mas nunca imaginamos receber este galardão. Acabou por ser marcante porque são histórias muito intensas, que estamos habituados a ver noutros países do mundo, e não na Europa, onde achamos que somos demasiado desenvolvidos para haver este tipo de miséria e injustiça. Submeti esta série porque achei que precisava de ser conhecida e que era um assunto, a crise da habitação em Lisboa, que não tem a atenção merecida.A GUARDA: O facto de ser o primeiro português a receber este prémio mereceu reconhecimento do Presidente da República. Qual a importância deste gesto para a sua carreira?
Gonçalo Fonseca: É um prémio com 40 anos de história e um dos mais importantes no mundo da fotografia. A série “Nova Lisboa” vai agora ser mostrada na China, Coreia do Sul, Singapura, Alemanha e muitos outros países. É fundamental porque me dá muita visibilidade não só a nível internacional, mas nacional também.  Quando fui receber o prémio em Wetzlar, Alemanha, vi o meu nome junto de alguns dos melhores fotógrafos de sempre. Acima de tudo, é um voto de confiança e  confere-me muita força para poder continuar este caminho, a contar as histórias que acredito serem importantes. A GUARDA: Esta não foi a primeira vez que viu os seus projectos premiados. Quais os prémios com que já foi distinguido?
Gonçalo Fonseca: Em 2020 recebi também o prémio Estação Imagem – Vida Quotidiana (Portugal). Em 2019 recebi o prémio Jovem Talento no Educando La Mirada (Espanha) e o Photographic Allard Prize for International Integrity (Canadá).
A GUARDA: Como apareceu a sua paixão pela fotografia?
Gonçalo Fonseca: A fotografia entrou na minha vida de uma forma um bocado inesperada aos 16 anos. Quando vi uma máquina analógica pela primeira vez, apaixonei-me pela sua forma mecânica e como o mundo ficava diferente quando olhava pelo visor. Soube nesse momento que tinha de ter um destes objectos mágicos que transformavam a realidade.
A GUARDA: O que é que o liga ao concelho do Sabugal?
Gonçalo Fonseca: Liga-me o meu pai, o Alberto Monteiro Fonseca, do Peroficós, Sabugal, que sempre foi o meu herói e uma inspiração tremenda para ser um homem lutador e comprometido com o próximo. Herdei dele, entre outras coisas, uma sensibilidade especial, e um amor por estas terras da Raia e por esta pequena aldeia. Ele faleceu em 2017, quando comecei a dar os primeiros passos na minha carreira, mas tenho a certeza que estará hoje muito orgulhoso de ter honrado o nome Fonseca além fronteiras.
A GUARDA: Para quando um trabalho documental sobre esta região cada vez mais despovoada e abandonada?
Gonçalo Fonseca: Desde pequeno que conheço a Guarda e sempre me espantei com a beleza desta zona, apesar do abandono que se vive, hoje em dia, em muitos sítios. Espero poder em breve conhecer melhor o distrito e perceber quais as mudanças que aconteceram com a Pandemia. Haverá um regresso à terra? Como vivem os nossos idosos neste tempo de isolamento brutal? São muitas as perguntas e é igualmente grande a vontade de obter respostas.