Entrevista: Joaquim Martins Igreja, coordenador do livro “Escola Secundária Afonso de Albuquerque - 50 anos na Mata Municipal”


Joaquim Martins Igreja, Professor do Ensino Secundário na Escola Secundária Afonso de Albuquerque, é natural da Castanheira, concelho da Guarda, tem 62 anos.Estudou na Escola Primária da Castanheira, Seminários do Fundão e da Guarda, Colégio de São José, Faculdade de Letras de Lisboa.Viajar é um impulso de todos os anos (se não sai da Guarda nas férias, abafa). Faz corrida (sem ambições de competição), lê muito e gosta de ver espectáculos de teatro e música.
A GUARDA: Como surgiu a ideia da publicação do livro “Escola Secundária Afonso de Albuquerque - 50 anos na Mata Municipal”, sobre os 50 anos do actual edifício, em que a escola está hoje instalada?
Joaquim Igreja: A propósito do cinquentenário da actual localização da Escola Secundária Afonso de Albuquerque (1969/70 – 2019/20), surgiu-nos a ideia de reavivar as memórias destes 50 anos, recordando as diversas fases pelas quais passou o edifício e também analisando esta escola como instituição de ensino público. Como coordenador do Blogue EXPRESSÃO, assumi a tarefa de coordenador da edição, concebendo o livro e promovendo os contactos necessários de modo a que o livro se tornasse significativo e a edição viável. A GUARDA: Quais os principais objectivos do livro?
Joaquim Igreja: Pretende-se por um lado “fazer memória”, dando a conhecer ou fixando no papel datas, caras, nomes e eventos, mas a edição também tem um objectivo “emotivo”, o de dar ao público um livro para guardar com afecto. E essa vontade de “ter” o livro, creio que estará mais presente em quem cá andou há já alguns anos, já que a memória sabe já um pouco a nostalgia. Finalmente, um terceiro objectivo: celebrar o tempo e os resultados obtidos nestes 50 anos, com razões para isso, já que a “produção” desta escola não deixa nada Dito isto, o público-alvo é variado: alunos actuais, antigos alunos, encarregados de educação, pessoal da escola, docente e não docente, a comunidade em geral.  A GUARDA: É um livro de memórias ou também de novos desafios para o futuro?
Joaquim Igreja: É mais de memória e de celebração que de prospectiva, embora não faltem textos que equacionem o futuro. Os desafios da actual situação, com a crise do livro e a emergência das tecnologias e a sua quase “imposição” avassaladora na situação de COVID-19, aparecem focados em alguns textos, bem como a adopção de boas práticas por via do intercâmbio internacional (através do Programa ERASMUS+). A Escola em geral, e também a Escola Secundária Afonso de Albuquerque, está em contínuo movimento. Mas confesso que o livro apela mais a olhar para os passados 50 anos do que para os próximos 50 anos. 
A GUARDA: O que é que o levou a pedir a colaboração, com testemunhos e reflexões, a antigos alunos, professores e funcionários?
Joaquim Igreja: As cerca de 60 colaborações são muito variadas, tendo em conta a estruturação do livro. No campo das reflexões, há alguns colaboradores que nos ajudam a contextualizar o local da construção da escola e o tempo histórico de 1969/70 (Manuel Luís dos Santos, Madalena Pires da Fonseca e Dulce Helena Borges, por exemplo); outros que analisam a escola, a transição do liceu e do reitorado para novas fases, as dificuldades que enfrentou e os projectos que soube levantar (António Salvado Morgado, José Luís Lima Garcia ou António Joaquim Soares); outros ainda lançam mais olhares para o futuro (Carlos Bombas e José António Carvalho).Pedimos também muitos testemunhos da passagem pelos bancos desta escola, dando destaque aos profissionais que chegaram a lugares de relevo público mas também aos criadores que conquistaram o seu lugar no mundo artístico, mostrando obras dos mesmos. Creio que essa parte do livro vai até surpreender muitos leitores. 
A GUARDA: O livro aponta variados exemplos de individualidades que se formaram nos bancos desta escola desde 1969/70, em diversas áreas. Quais os nomes que gostaria de destacar?
Joaquim Igreja: Os “nomes” aparecem naturalmente quando vemos individualidades diversas em lugares de relevo nas mais diversas áreas do poder ou das actividades profissionais, artísticas ou científicas. Neste momento, só no pós-69, temos antigos alunos no governo (Ana Abrunhosa), na administração central (dois directores-gerais, das Artes e do Ensino Superior, respectivamente Américo Rodrigues e João Queiroz), na presidência de instituições de ensino superior (Joaquim Brigas, no IPG), etc. Temos também um cientista de renome internacional (Rui Costa), já tivemos um Chefe de Estado Maior das Forças Armadas (Pina Monteiro) e um Secretário de Estado da Cultura (Jorge Barreto Xavier). O actual presidente da Câmara Municipal da Guarda (Carlos Chaves Monteiro) foi também nosso aluno. Mas também artistas plásticos de vulto como Baltazar Torres, Júlio Cunha e José Teixeira, entre outros, colaboram neste livro, dando ainda a conhecer as suas obras. A GUARDA: Quais as principais dificuldades que encontrou, na coordenação deste trabalho?
Joaquim Igreja: Foi um livro que, antes de me dar dificuldades, me deu sobretudo prazer, pelo facto de me sentir útil à escola e de estar a fazer memória para muita gente que não tem a mínima ideia dos anos antes deste século. Por outro lado, o acompanhamento jornalístico da vida da escola que faço há 30 anos deu-me o conhecimento dos meandros e dos conflitos que se escondem detrás da vida “pacata” de uma escola. Sendo a escola um mundo complexo, vive de interesses, de lutas, de conflitos de hegemonia, de continuidades e cortes: conhecendo este mundo, o gosto de “passar” este mundo para o exterior é natural.A partir de certo momento, o trabalho passou a ter a colaboração do António Manuel Saraiva, pessoa já conhecedora do mundo da edição e que muito contribuiu para o visual tão atraente do livro, ajudando também no encontrar de caminhos para a viabilização do projecto e de soluções pragmáticas para a arrumação de materiais tão variados do livro.Por outro lado, a edição de um livro deste tipo, que apela à colaboração de muita gente, nunca é fácil, já que muitas vezes a distância e o universo vasto das pessoas ligadas a uma escola não permite respostas de toda a gente de igual maneira. Assim, algumas colaborações ficaram para trás, outras não nos ocorreram, outras simplesmente não tiveram resposta interessada. O livro também não era elástico e não queríamos que passasse das 200 páginas.
A GUARDA: Considera que a Escola Secundária Afonso de Albuquerque continua a ser uma escola de referência a nível local, regional e nacional?
Joaquim Igreja: Há um texto muito interessante no livro, de Maria Madalena Pires da Fonseca, que analisa o valor de referência do Liceu da Guarda até aos anos 80 e à generalização do ensino. A própria cidade da Guarda funcionava em 1969 como uma urbe onde chegava aquilo que não chegava às pequenas sedes de concelho, tornando-se assim procurada e afirmando-se como cidade média e referência regional. O Liceu da Guarda era uma dessas instituições procuradas pelos alunos de todo o distrito e muitos aqui encontraram o seu caminho profissional e de vida.Os tempos mudaram e o ensino secundário “liceal” estendeu-se às pequenas escolas. No entanto, podemos dizer que a Escola Secundária Afonso de Albuquerque manteve a sua qualidade, embora às vezes, devido à actual democratização do ensino, não se note tanto a construção de elites que se destaquem face às outras escolas. Um dos capítulos mais interessantes do livro é, no entanto, o que mostra a profusão de projectos com sucesso que arrancaram desde os anos 80 e se afirmaram no exterior, fazendo participar activamente os alunos e entusiasmando-os por carreiras muito interessantes.