Manuel Saraiva – Grande impulsionador do projecto de revitalização de um freixo centenário
que existe na aldeia de Vale da Ribeira, no concelho de Celorico da Beira


Manuel Saraiva é natural de Lisboa. Faz parte da Associação de Melhoramentos Cultural, Desportiva e Recreativa do Vale da Ribeira, na freguesia de Mesquitela, concelho de Celorico da Beira.
Estudou em Lisboa (ensino básico, secundário e universitário).
Nos tempos livres gosta de resolver problemas de matemática, ler, jardinar e alimentar a actividade de solidariedade social.

A GUARDA: A Associação do Vale da Ribeira tem em mãos um projecto de revitalização de um freixo centenário existente na aldeia. Qual a importância desta árvore para as pessoas de Vale da Ribeira?

Manuel Saraiva: Este freixo (o Freixoeiro): é testemunho de uma lenda: ter incorporado no seu tronco a imagem de uma santa (ele “absorveu-a/encobriu-a”, à medida que ia crescendo e engrossando). Este facto explica o porquê de as procissões religiosas, ao percorrerem a aldeia, terem de parar junto ao freixo e de aí se rezar uma oração; “assistiu” às invasões francesas (nas suas imediações estiveram acantonadas forças da III invasão, comandadas pelo General Massena, que terão pilhado e incendiado a capela visigótica de Nossa Senhora da Anunciada, localizada à saída/entrada da aldeia); terá mais de quatrocentos anos (os avós dos avós dos mais velhos da aldeia – agora com cerca de cem anos – sempre disseram que o conheceram como uma árvore adulta); tem um tronco cujo perímetro, ao nível da altura da cintura humana, mede cerca de 6 metros, sendo, muito provavelmente, uma das árvores mais volumosas de Portugal dentro da sua espécie. É um colosso!; “ouviu” muita água a cair da fonte centenária da aldeia, localizada à sua frente; “assistiu” a bailaricos e namoricos; “escutou” muitas conversas (centenas delas ao calor do fogo de Natal); “participou” em muitas decisões populares – as de organizar as regas das propriedades junto à ribeira, na altura da falta de água; a da tomada de decisão sobre quando começar a semear as batatas, a ceifar o pão, a vindimar, a malhar,…; a de mobilizar o povo para o combate a incêndios; a de preparar a defesa popular aquando da existência de uma quadrilha de ladrões que por lá atuava, nos princípios do século XX; a de organizar o arranjo dos caminhos; a de preparar o arranjo da ponte, quando ela ainda tinha um tabuleiro em tábuas, algumas das quais já soltas e podres; “observou” muitos jogos (cartas; malha; péla; jogo do galo), alguma leitura de jornais e conversas sobre o dia-a-dia.
É ali, no seu largo e à sua sombra, que está o coração da aldeia.
Este freixo (o Freixoeiro) é uma referência, um monumento vivo e a grande identidade da aldeia, constituindo um património de elevado valor ecológico, histórico, emocional e, mesmo, religioso.

A GUARDA: Quais os passos que foram dados tendo em vista a protecção deste freixo centenário?

Manuel Saraiva: Em Outubro de 2019, a partir de um desejo popular, assumido pela Associação de Melhoramentos Cultural, Desportiva e Recreativa do Vale da Ribeira, a Câmara de Celorico da Beira ficou sensibilizada para avançar com um pedido de Classificação do Freixoeiro como Árvore de Interesse Público, ao Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), após alguma limpeza efetuada à árvore pelos serviços técnicos e florestais camarários. A resposta do ICNF foi positiva, mas antes seria necessário tratar dos problemas de saúde que a árvore apresentava. Tem sido isso que temos estado a fazer.

A GUARDA: Como é que aparece o envolvimento da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro neste processo?
Manuel Saraiva: Esse envolvimento, em particular com a equipa do Professor Luís Martins, TreePlus, resulta da escolha da Associação de entre as várias equipas especializadas neste tipo de trabalho sugeridas pelo próprio ICNF. Para a nossa decisão pesou muito ter sido esta equipa quem requalificou o Freixo de “Freixo de Espada à Cinta”.
A intervenção na árvore tem assentado em aspectos como: Raspagem do excesso de líquenes (musgos) e trepadeiras do tronco e pernadas; Limpeza do interior das cavidades com remoção do lenho solto e degradado, com podridão cúbica ou podridão branca, sem danificar os tecidos saudáveis; Desobstrução de cavidades das pernadas, permitindo o arejamento e a drenagem para o interior do tronco; Arredondamento dos bordos das cavidades para uma melhor compartimentação a partir da zona cambial; Remoção da zona do colo do material lenhoso até à profundidade possível; Enchimento da área do colo com mistura de turfa fina e de granulometria mais grosseira; Tratamento das cavidades e cancros com calda bordalesa; Cortes cirúrgicos, deixando sempre ramos tira-seiva e em ramos de pequena secção, pois os cortes drásticos levam a uma rebentação adventícia (rebentos ladrões) que não são seguros e não evitam o desenvolvimento de podridões. Em última análise, esses tipos de cortes acabam por tornar a árvore mais insegura. Aliás, as cavidades e cancros que a árvore tem devem-se precisamente a esse tipo de podas (Palavras do Professor Luís Martins, em fevereiro de 2023). Para a equipa do Professor Luís Martins, apesar da idade, dos cortes de pernadas de grande secção e infeções do lenho, este exemplar conseguiu adaptar-se e resistir às diversas adversidades. A sua genética e resiliência são extraordinárias, sendo premente enveredar todos os esforços para preservar e melhorar a condição deste freixo (Relatório de abril de 2021).
Ao momento, Março de 2023, verifica-se, tal como previsto, um enraizamento para o interior do tronco.

A GUARDA: A Junta de Freguesia e a Câmara Municipal de Celorico da Beira também estão envolvidas?

Manuel Saraiva: Sim. A Junta de Freguesia mostrou-se sempre pronta para colaborar nesta tarefa, pois sente a importância que o freixo tem para a aldeia e para a freguesia, e tem colaborado na disponibilização de equipamento e pessoas para as intervenções e limpeza dos resíduos daí resultantes.
A Câmara Municipal tem sido um forte pilar neste empreendimento – tem disponibilizado pessoas, equipamentos e materiais para o tratamento da árvore, em concertação com a equipa do Professor Luís Martins e com a Associação do Vale da Ribeira; construiu o novo murete anterior; e tem tido um papel centralizador de ligação ao ICNF.

A GUARDA: Quais as principais iniciativas que desenvolve a Associação do Vale da Ribeira?

Manuel Saraiva: A Associação de Melhoramentos Cultural, Desportiva e Recreativa do Vale da Ribeira, fundada em 18 de Setembro de 1986, procura honrar o passado histórico do povo da aldeia – pessoas lutadoras pelo progresso da sua terra e do bem-estar dos moradores e naturais.
A par com a preservação do Freixoeiro, a Associação está de alma e coração na recuperação da Capela da Senhora da Anunciada.
Supõe-se que esta Capela tenha sido construída no local onde se travou uma batalha entre os cristãos e os mouros, em que estes foram derrotados… Não se sabe ao certo a data da sua fundação, ou do seu fundador, sabe-se, porém, que é um monumento antiquíssimo, talvez do tempo dos godos… (“Portugal Antigo e Moderno”, de Augusto Soares d`Azevedo Barbosa de Pinho Leal). A Capela de Nossa Senhora da Anunciada foi de reis e de nobres, sendo adquirida por um morador no ano de 1915 e doada ao povo em 2003 a fim de ser recuperada. Após uns anos de paragem nas obras de reconstrução da Capela, para a Associação está chegada a hora de se reiniciarem os trabalhos.

A GUARDA: É importante continuar a apostar em lugares que estão praticamente despovoados?

Manuel Saraiva: Sim. Penso, mesmo, que essa será a única forma da humanidade sobreviver, pois, tal aposta permite trazer o nosso passado para o presente e, assim, preparar melhor o futuro. Só assim é que o ser humano poderá tirar proveito da riqueza que a Natureza nos dá, traduzindo-se num melhor e maior equilíbrio pessoal e social.

 A GUARDA: No seu ponto de vista o que está a faltar para que as pessoas se fixem no interior, nomeadamente nas aldeias?

Manuel Saraiva: É o velho problema da ausência de empregos que ainda se faz sentir no interior, nomeadamente nas suas aldeias. Porém, hoje, com a rede rápida de estradas digitais e de meios de transporte, é possível, para alguns setores da população, trabalhar no interior e longe dos grandes centros urbanos (teletrabalho; deslocação por autoestrada ou comboio,…).
Talvez se houvesse mais incentivos fiscais para a criação de atividades económicas nas regiões do interior e vantagens para quem nelas viesse viver (alojamento, educação, saúde, trabalho), tal poderia funcionar como um chamariz.
Também a qualidade do trabalho que é desenvolvido no interior (seja ele do foro da agricultura, da educação, da cultura, da saúde, da indústria, do comércio, dos serviços, da política, da economia, das artes e letras, da ciência, do turismo, do desporto,…) é sempre uma fortíssima propaganda para a fixação das pessoas. Por isso, o interior deve continuar a apostar na melhoria da qualidade dos seus serviços e dos seus produtos.