Carolina Vaz, fundadora/administradora do grupo ‘Dou-te se vieres buscar – Guarda’“O objectivo principal do grupo é doar/reciclar/reutilizar o que temos em casa e já não usamos, uma vez que pode ser útil para outras pessoas”


Carolina Vaz é natural do Brasil, mas já reside em Portugal há 23 anos. Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde pela Universidade da Beira Interior, nunca exerceu e neste momento encontra-se desempregada, mas até ao presente, tem trabalhado no atendimento ao público. Mãe orgulhosa de dois meninos, um de 5 anos e outro de 5 meses, ocupa os seus tempos livres em actividades com e para eles.
A GUARDA: O que é e como surgiu grupo ‘Dou-te se vieres buscar – Guarda’?
Carolina Vaz: Inicialmente e tendo tido conhecimento do projecto Caixa Solidária, fiz uma pequena pesquisa e verifiquei que na cidade da Guarda não havia nenhuma, a mais perto estava localizada em Gonçalo. Desta forma, a ideia inicial seria colocar uma caixa solidária na Guarda-Gare, local onde resido. Assim, um dia antes da criação do grupo ‘Dou-te se Vieres Buscar – Guarda’, enviei um email para a Junta de Freguesia ao qual me responderam prontamente e fiquei de marcar uma reunião com osenhor Presidente. Entretanto e como era fim-de-semana comecei a pensar e pesquisar como poderia ajudar já a população da Guarda e encontrei os grupos ‘Dou-te se Vieres Buscar’, nomeadamente na zona de Lisboa e Porto. Achei a ideia superinteressante e, assim, no dia 25 de Abril criei o grupo no Facebook. Dos já existentes retirei apenas o nome, tudo o resto é minha auto-recriação, principalmente o lema do grupo: Doar é um gesto de amor. Entretanto tive conhecimento que um elemento do grupo já tinha colocado uma caixa solidária na Guarda-Gare, a primeira da nossa cidade, a que se juntaram outras, e, nesse sentido o contacto com a Junta para esse efeito deixou de ter sentido e dediquei-me de corpo e alma à divulgação e gestão do grupo. A GUARDA: Quais os principais objectivos do grupo?
Carolina Vaz: O objectivo principal do grupo é doar/reciclar/reutilizar o que temos em casa e já não usamos, uma vez que pode ser útil para outras pessoas, nomeadamente numa altura como a que vivemos em que, devido ao Covid-19, muitas famílias viram o seu rendimento reduzido ou perderam os seus empregos. Muitas lojas também estavam fechadas na altura da criação pelo que a necessidade estava criada. O grupo funciona de forma muito simples, os membros publicam aquilo que têm para doar e quem está interessado naquele artigo entra em contacto e combinam entre eles a entrega do mesmo. Entretanto surgiu o pedido para ajudar uma família a nível alimentar, sendo que depressa uma família passou a 9 famílias que ajudo com regularidade. Ajudo também alguns membros com roupas, nomeadamente enxovais para bebés, sendo que já consegui ajudar 11 futuras mamãs e os seus filhotes.A GUARDA: Como é que a comunidade está a acolher esta ideia de partilha?Carolina Vaz: A verdade é que a comunidade está a aderir em massa a esta causa. Através de muito investimento pessoal em três dias o grupo tinha já 3000 membros. Numa semana mais de 5000 e até à data deste artigo mais de 7500 membros. O grupo conta já com pouco mais de um mês de existência e já muitos artigos foram doados, muitos alimentos distribuídos e muitas famílias ajudadas. E tudo isto só é possível porque a população da Guarda se uniu por uma causa. 
A GUARDA: Quem é que faz a gestão do grupo bem como a recolha e distribuição dos alimentos e roupas?
Carolina Vaz: A gestão do grupo assim como toda a recolha e distribuição de alimentos são feitas inteiramente por mim. Responsabilizo-me por ir recolher, separar e distribuir os mesmos. No que respeita às roupas, recolho e entrego apenas aquelas pelas quais me responsabilizo pois, tendo em conta o objectivo desta missão, tento preferencialmente que essa interacção seja feita entre os membros, de forma a não nos desviarmos da visão do grupo nem me sobrecarregar. Numa primeira fase e, dado o “boom” inicial, tive que recorrer ao meu marido e a uma amiga que me deram uma grande ajuda, mas neste momento faço tudo por minha conta pois eles têm os seus projectos pessoais e profissionais.
A GUARDA: De forma geral, o que é que tem chegado à sua casa para depois poder dar aos outros e quem é que tem colaborado?
Carolina Vaz: Tenho ido recolher para posterior doação principalmente roupas de bebé e recém-nascido, artigos de puericultura e bens alimentares. Tenho já uma lista bem composta de elementos (que carinhosamente chamo de Anjos sem Asas) que me ajudam de forma frequente com alimentos, o que só tenho a agradecer. Tenho um carrinho na Roady (Intermarché da Guarda), cedido pela minha querida amiga D. Fernanda, gerente da loja em questão, onde qualquer pessoa poderá deixar o seu contributo alimentar para ajudar as famílias que mais precisam. Venho por este meio também solicitar a solidariedade de todos, façam o vosso contributo pois só com a vossa ajuda poderei dar seguimento a esta parte tão importante do projecto. 
A GUARDA: O grupo assume-se como sendo “um grupo para todos”. Como é que este princípio é posto em prática?
Carolina Vaz: A ideia de afirmar o grupo como “um grupo para todos” prende-se com o facto de o mesmo não ter sido criado apenas para ajudar quem mais precisa, sendo um grupo de partilha e reciclagem que pretende reduzir espaço em casa ajudando os outros. Como costumo dizer não é um grupo nem para ricos nem para pobres e se virmos bem todos precisamos de alguma coisa. Já recebi e já doei assim como a maior parte dos membros do grupo e o que recebi ajudou-me a poder canalizar o meu dinheiro para outras coisas urgentes que não podem esperar.
A GUARDA: Quais as principais dificuldades com que se tem debatido na gestão do grupo?
Carolina Vaz: A maior dificuldade é exactamente o que refiro na questão anterior. Tem sido muito difícil fazer as pessoas entenderem que este grupo não é só para ajudar quem mais precisa. Até porque quem mais precisa entra em contacto comigo sem se expor e, dentro das minhas possibilidades é ajudado ou encaminhado para quem poderá ajudar de forma mais permanente/efectiva. Outra dificuldade que sinto e que me deixa bastante triste é não ter capacidade de dar resposta a todos os casos que me vão chegando, principalmente de carência alimentar. 
A GUARDA: O grupo é para continuar depois do Covid-19?
Carolina Vaz: O grupo já deveria existir antes do Covid-19 e continuará certamente. Não irão deixar de haver artigos para doar como não deixarão de existir pessoas que poderão dar uma nova utilização às coisas. Relativamente à distribuição alimentar, a mesma continuará enquanto a ajuda me chegar e enquanto as famílias que ajudo necessitarem. Tendo em conta que, felizmente, a vida começa aos poucos a retomar à sua normalidade, tenho fé que estas famílias voltem a poder auto-sustentar-se. Para finalizar gostaria apenas de voltar a agradecer, pois nunca é demais, a todos os anjinhos que me ajudam diariamente e tornam tudo isto possível, pois são eles e elas que tornam o lema Doar é um gesto de amor verdadeiro e irrefutável. Obrigada por seguirem o grupo e ajudarem na sua dinâmica e dinamização.