Maria Silva venceu concursos em Fernão Joanes e Videmonte


Maria Almeida da Silva venceu vários concursos que premiavam as “ovelhas mais bonitas”. Foi em Fernão Joanes, na Festa da Senhora do Soito, e em Videmonte (concelho da Guarda) que os animais chamaram a atenção pela forma como iam enfeitados. As borlas nos cornos, as fitas no focinho e os colares ao pescoço sobressaiam no meio das outras ovelhas que também participavam nos concursos.
Natural de Fernão Joanes, onde sempre viveu e quer morrer, Maria Silva nunca andou na escola, não sabe ler nem escrever, mas aprendeu a fazer o nome com os filhos. “Não sei ler. A minha mãe era pobre e não fui para a escola”, explica. Depois de ajudar em casa, ainda era criança quando começou a trabalhar para outras pessoas.
Só começou a tratar das ovelhas depois do casamento com António Vendeiro, aos 23 anos. “O meu homem é que já tinha 7 ovelhas quando nos casámos”, explicou ao Jornal A GUARDA. E acrescentou: “A partir daí é que arranjámos o rebanho grande. Poupámos muito e trabalhámos muito para arranjar as ovelhas”.
A poucos dias da Festa da Transumância que vai decorrer em Fernão Joanes, a 27 e 28 de Setembro, recorda as idas dos pastores para os “campos da Idanha”. “O meu homem ia para a Idanha com as ovelhas, no Inverno, porque aqui não havia comida para elas”, disse Maria Silva. “Havia cá muitas ovelhas e não havia comida para todas”, adiantou.
Na ausência do marido era ela que cuidava da casa, e se ocupava com a educação das duas filhas e do filho. Quando os filhos foram para a escola foram eles que lhe ensinaram “a fazer o nome”.
Recorda que para além das ovelhas, lá em casa, também se dedicavam à agricultura. “Sempre tivemos uma boa horta com batatas, cebolas, feijão e o que era preciso para gasto de casa”, explicou. No início do Outono era a “apanha das castanhinhas” que ocupava a família. “Apanhava as castanhas de meias e de terças” para fazer algum dinheiro. As castanhas mais grossas eram vendidas, logo depois da apanha, “a um negociante que cá estava, o T´Zé Pita”. Maria Silva recorda que “também secava as castanhas para fazer o caldo, o paparote”.
Os rebanhos regressavam a Fernão Joanes depois de passar o tempo frio, sempre a tempo da Festa da Senhora do Soito, que ainda se celebra no segundo Domingo de Maio. “Nós tínhamos de ir à Festa da Senhora do Soito”, explica. Nesse tempo “corríamos as ruas com as ovelhas, íamos para as Eiras e comíamos as merendas”. Antes da Festa “lavávamos as ovelhas, endireitávamos-lhe os cornos numa panela de ferro com água a ferver e só depois é que as enfeitávamos”.
Maria Silva recorda que quando ganhou o ‘cobertor de papa’, no concurso de Fernão Joanes, teve de se esmerar. “Mandei o meu homem à Guarda comprar pano vermelho, para fazer os colares e 7 novelos de lã, um de cada cor, para as borlas”, explicou. Quanto aos botões para enfeitar os colares “vieram da França”, enviados pela filha.
No concurso de Videmonte recebeu como prémio, das “ovelhas mais bonitas”, dois cobertores “às riscas”.
Com 90 anos de idade, deixou de fazer os colares e deu os que tinha ao filho, na esperança de que um dia ele possa ter ovelhas, e emprestou outros à neta que estuda na Covilhã, na universidade, “para servirem numa festa”.
Não esconde o gosto que tem pelas coisas antigas mas reconhece que é difícil manter algumas tradições. Para Maria Silva “os pastores estão a ficar todos velhos e cada vez têm menos ovelhas”.