Entrevista: Virgílio Mendes Ardérius, director da Fundação Frei Pedro e do Centro de Formação Assistência e Desenvolvimento


Virgílio Mendes Ardérius, director da Fundação Frei Pedro e do Centro de Formação Assistência e Desenvolvimento, é natural de Unhais da Serra, concelho da Covilhã mas, desde 1966, fez da Guarda a sua cidade. Estudou nos Seminários diocesanos, a Faculdade de Letras do Porto (licenciatura em Filosofia), a Universidade Pontifícia de Salamanca (Curso na Faculdade de Pedagogia) e a Universidade da Beira Interior (pós-graduação em Ciências da Comunicação). Esteve á frente das paróquias de S. Vicente e da Sé, na Guarda, durante quase 25 anos. 
A Guarda: Quem é Virgílio Mendes Ardérius.
Virgílio Ardérius: A primeira pergunta é a mais difícil de responder, “Quem é Virgílio Mendes Ardérius”. Por alguma razão os pensadores da antiga Grécia, diziam, “conhece-te a ti mesmo”.Apesar disso, vou responder com dados concretos, dizia minha mãe que nasci em dia de Santiago Apóstolo, embora o registo fosse feito só no dia 30 de Julho de 1932, na freguesia de Unhais da Serra, concelho da Covilhã.Tenho marcas genéticas e culturais da família onde nasci e cresci, mais três irmãos e uma irmã, todos mais velhos e sempre bons amigos.Devo muito à paróquia, onde fui baptizado, pelo Pároco Pe. Alfredo Santos Marques e confirmado pelo Bispo Auxiliar da Guarda D. João Oliveira Matos, e em 1957, celebrei a Missa Nova.Ali fiz a quarta classe com dois professores muito sabedores, que me ensinaram a “ler, escrever, contar e pensar”.No ano lectivo de 1945/46 entrei no Seminário do Fundão, onde ainda senti uma disciplina rigorosa de que se queixou Vergílio Ferreira na “Manhã Submersa”.No ano lectivo de 1950/51, transitei para o Seminário Maior da Guarda, onde ao longo de sete anos, três em filosofia e quatro em teologia e fui ordenado presbítero no dia 6 de Abril de 1957, e preparado para a vida pastoral com muita expectativa e determinação.E o Bispo de então, D. Domingos da Silva Gonçalves naquele ano enviou-me para as Paroquias de Seia e São Martinho e várias anexas, para substituir o reitor José Quelhas Bigotte que em Outubro partiu para Roma, preparar e defender a tese de Doutoramento em Direito Canónico.Foi um ano maravilhoso onde ganhei experiência para resto da vida.Em Outubro de 1958, de Seia, fui enviado para a Vila de Teixoso, onde o trabalho pastoral continuou e deixou marcas positivas, durante oito anos.E no dia 9 de Outubro de 1966 a convite do Bispo D. Policarpo da Costa Vaz, vim tomar posse das Paróquias de S. Vicente e da Sé, na Guarda, após o Concílio Vaticano II, que apontou novos caminhos para renovar a Igreja e a Pastoral.Não foi fácil, mas com dedicação e persistência, foi possível ao longo de vinte quatro anos e cinquenta e dois dias, deixar a Comunidade Eclesial, penso, bastante melhor, com a participação dos leigos e das religiosas e de forma especial, através do bom funcionamento do Conselho de Pastoral Paroquial.
A Guarda: O que é que o levou a criar a Fundação Frei Pedro e o Centro de Formação Assistência e Desenvolvimento?
Virgílio Ardérius: Depois de estar a paroquiar trinta e três anos, em lugares diferentes, fiquei a conhecer melhor a sociedade e de forma especial as pessoas carenciadas.Daí surgiu a ideia de criar uma Instituição Particular de Solidariedade, como já tinha feito em 1985, enquanto pároco da Sé, o Centro Social Paroquial.Com essa finalidade, no dia 13 de Dezembro de 1988 foi criado por escritura pública o Centro de Formação Assistência e Desenvolvimento tendo como objectivo a formação integral do ser humano, pelo desenvolvimento, promoção da saúde e acção social, qualificação e ensino profissional, defesa do ambiente e comunicação multimédia.Ao longo destes anos foi implementando várias respostas sociais, para crianças e adolescentes, adultos e idosos. Neste momento tem 72 funcionários, sendo cerca de vinte licenciados.Em relação à Fundação Frei Pedro, o processo foi mais complexo.No ano de 1975 vivia-se em Portugal um clima político incerto a que se chamou um “verão quente”, com manifestações, demasiado à esquerda, dizia-se, e pensei que seria bem e fui matricular-me na Faculdade de Letras do Porto, em filosofia, concluindo a licenciatura em 1979. Em simultâneo concorri ao ensino público e fui colocado na Escola Preparatória do Sabugal, onde fui dois anos e no ano seguinte colocado na Escola de Santa Clara, na Guarda.No ano de 1978/79, fui convidado para leccionar pedagogia e psicologia, na Escola do Magistério da Guarda.Em 1980, apesar de continuar com a Paróquia e as aulas, com mais alguns colegas do Porto, fizemos a matrícula na Faculdade de Pedagogia, na Universidade Pontifícia de Salamanca, para onde andámos a caminhar durante cinco anos, para obtermos o diploma do Curso.Foi nestes encontros que nasceu a ideia de criar na Guarda o Ensino Superior Particular.Foi com essa finalidade que foi criada a Fundação Frei Pedro, por escritura pública no dia 24 de Fevereiro de 1989, cujo objecto foi considerado de interesse social, abrangendo outros iniciativas, a primeira foi a criação do Instituto Superior de Administração Comunicação e Empresa (ISACE), reconhecido pelo Ministro da Educação, pela Portaria nº897/90 de 25 de Setembro, com efeito retroactivo, ao ano lectivo de 1989/90. Dos dez cursos aprovados, iniciámos com os cursos de Jornalismo, Relações Públicas, Ciências Administrativas e Gestão de Pequenas e Médias Empresas.Aqui tiveram início a Rádio F e o Semanário Terras da Beira.Para melhor fundamentar o pedido da Carteira Profissional de Jornalista, efectuei uma pós-graduação em Ciências da Comunicação na Universidade da Beira Interior. 
A Guarda: A Rádio F assinalou, no final de Junho, 31 anos de emissões. Como olha para o futuro das rádios locais?
Virgílio Ardérius: A Rádio F surgiu na sequência da abertura de candidaturas para rádios locais em 1989 e a Fundação Frei Pedro concorreu e foi-lhe atribuído o Alvará para o exercício da actividade radiofónica, pela Direção-Geral da Comunicação Social, datado de 23 de Dezembro de 1989. A partir dessa data foi uma maratona para adquirir o terreno para montar a antena, e colocar os emissores. Para essa finalidade a Câmara Municipal vendeu-nos o terreno necessário na zona do Castelo, preparam-se os estúdios e formou-se uma equipa de jornalistas e animadores ao longo de vários meses, sendo inaugurada em 23 de junho de 1990, em clima de festa. A cidade e a região acolheram a nova rádio e apoiavam com abundância de publicidade que cobria as despesas de uma equipa de profissionais.Os tempos mudam e hoje tem apenas dois jornalistas polivalentes e que conseguem efectuar uma informação alargada.Felizmente há um grupo de colaboradores que com as suas crónicas e debates lhe imprimem pluralismo e qualidade.Pergunta-me qual o futuro das rádios locais. Digo, que é muito incerto e se não tiverem uma instituição com alguma capacidade financeira, são vendidas ao desbarato a grandes Grupos ou fecham as portas.
A Guarda: E dos jornais em papel?
Virgílio Ardérius: A situação é ainda pior, porque as despesas com as tipografias, as despesas com os correios, as taxas pagas ao Estado, designadamente à ERC complicam a situação.Todavia a Internet e as redes sociais não chegam para construirmos uma verdadeira democracia, com cidadãos bem elucidados e participativos. O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, já alertou o Governo para essa realidade, mas ainda não teve acolhimento.A Sociedade em que vivemos tem uma palavra a dizer.
A Guarda: Tem consciência de que ajudou a alterar e a melhorar o panorama informativo na Guarda e na região?
Virgílio Ardérius: Tornou-se evidente a melhoria do panorama informativo na Guarda e na região com a integração de jornalistas com outra preparação e vários portadores do Curso Superior de Jornalismo.A nível da tecnologia e dos equipamentos surgiram outras possibilidades para um trabalho, mais eficiente e de qualidade.Por exemplo o semanário Terras da Beira foi o primeiro na região a ser veiculado pela Internet.
A Guarda: Também é conhecida a sua relação com as energias renováveis e com a agricultura. O que é que o levou a enveredar por estas áreas? 
Virgílio Ardérius: Há muitos anos que despertei para a importância das energias renováveis.Curiosamente na única vez que fui a Israel em 1978, chamou-me atenção e depois a curiosidade, ver nos terraços das casas bidons cilindricos com algo acoplado, vindo depois a saber que eram as primeiras centrais térmicas para aquecer a água, aparecendo pouco mais tarde os painéis fotovoltaicos para produzir eletricidade, com todas as consequências positivas para defender o ambiente e evitar as alterações climáticas. Com essa finalidade lancei várias iniciativas e comprei a Quinta das Fórnias para a montagem de um parque eólico, de que há um pré-projecto e um protocolo com uma grande empresa, a aguardar financiamento ou quem queira entrar num projecto com dimensão.Foram recuperadas as instalações e a capela para um Centro de Desporto Cultura e Lazer, onde já se promoveram varias actividades.
A Guarda: Podemos afirmar que Virgílio Mendes Ardérius é uma personalidade destacada da Guarda em várias áreas de intervenção?
Virgílio Ardérius: As pessoas são livres de pensar de mim o que quiserem. “Personalidade destacada da Guarda”, nunca pensei nisso. Só, porventura, quando celebrava no altar da sé, colocado no transepto majestoso da Catedral.
A Guarda: Tem algum projecto que ainda gostasse de concretizar?
Virgílio Ardérius: Projectos há muitos e não vou parar, enquanto Deus quiser.