Entrevista: Francisco Moreira - atleta do Grupo BTT de Manteigas


A GUARDA: Quem é Francisco Moreira e o que o distingue como atleta?

Francisco Moreira: O Francisco é um atleta com muita perseverança e dedicado. Realizei um percurso desportivo apoiado na capacidade de trabalhar, com objectivos determinados. Os primeiros passos, como atleta federado, foram dados no futebol, tendo sido capitão da equipa da Associação Desportiva de Manteigas, desde as escolinhas até aos juniores e, no ski, fui campeão nacional na modalidade e representei a selecção nacional em diversas provas no estrangeiro. Mas a paixão acabou por se revelar com o ciclismo tendo corrido em várias equipas profissionais, Rádio Popular Boavista, Kelly Simoldes e ABTF Feirense, depois de ter começado pelos escalões de formação na Associação Desportiva de Belmonte e ACRRoriz, graças ao professor Antonio Matias. Sou um atleta 100% profissional e nunca desisto dos objectivos por que luto e, mesmo na, adversidade, continuo sempre a acreditar. Sou um atleta que já passou por todo o tipo de experiências muito positivas mas, também, negativas, já estive muitas vezes no fundo do poço mas consegui sempre ir buscar forças onde, por vezes, não existiam e ter capacidade para me reerguer e voltar à tona da água.

A GUARDA: Correu como ciclista profissional nas melhores equipas do pelotão nacional de estrada mas agora decidiu abraçar o BTT. O que motivou esta mudança?

Francisco Moreira: Não escondo que o meu objectivo como ciclista sempre foi estar nos grandes palcos, correr em provas no estrangeiro com os melhores do mundo. Infelizmente, em Portugal, é difícil dar o salto, devido a reputação do ciclismo português, com o doping: e ou és um “fora de serie” que sais de Portugal muito jovem ou nunca mais consegues. E sendo eu um ciclista do interior, que apenas partilha e convive com os outros ciclistas nas corridas, senti, muitas vezes que fui posto de parte. E chega a um momento em que nos damos conta que o ciclismo de estrada não deixa de ser um voltar de página muito igual. Face às vicissitudes de não ter um contrato profissional para o próximo ano, comecei a pensar num projecto que me motivasse e mantivesse as minhas ambições, talvez um pouco fora da complexidade do ciclismo de estrada. Foi aí que surgiu a ideia de apostar na variante de BTT e de poder correr fora de Portugal, com os melhores do mundo.

A GUARDA: A opção pelo Grupo BTT de Manteigas tem algum significado especial?

Francisco Moreira: Claro que sim, não posso esconder. Desde sempre vi os meus pais e os meus tios a andar de bicicleta e a fazerem parte dos fundadores do Grupo BTT de Manteigas. Continuar o projecto deles é, sem dúvida, um orgulho para além de mostrar ao país, e ao mundo, a minha terra, os meus valores, a terra que amo e que está sempre no meu coração.

A GUARDA: Quais são os seus principais apoios para competir nesta modalidade?

Francisco Moreira: Os apoios são sempre a parte mais complicada deste projecto. É um trabalho de uma busca constante, o bater porta a porta… Para este primeiro ano de projecto podem não ser muitos mas são todos de qualidade, projectos de sucesso do interior do país e sem duvida amigos, amigos que me estão a dar a mão e me estão a ajudar. De momento conto com 17 patrocinadores: a Câmara Municipal de Manteigas e as suas quatro juntas de freguesia, a Starmodular, AJCCorreia Construções, Montiel, Garbike, Centro de Massagem Desportiva, Ergovisão, Simple, Varanda da Estrela, O Olival, Manteigas by Earth, Casas do Sameiro e a Catlike. Também conto com um treinador pessoal, que é, sem dúvida, peça chave e está sempre disponível, o Raul Cerdan; é ele que trata de colocar a “máquina” a funcionar. Deixo aqui o convite a todas as empresas que quiserem fazer parte deste projecto, são sempre bem vindas.

A GUARDA: E os objectivos na competição em BTT?

Francisco Moreira: Os objectivos para este ano são os de ir “corrida a corrida”. Para mim é tudo muito novo. Pretendo ganhar experiência, aprender com os melhores. Já comecei a ter resultados positivos conseguindo um Top 18 nesta última corrida UCI onde participei, o que para os primeiros 3 meses é muito positivo, tendo em conta os valores mundiais da modalidade. Para além de um calendário internacional definido, pretendo participar em algumas provas da taça de Portugal de maratonas BTT. Entro em todas as corridas para ganhar, nem fazia sentido se assim não fosse mas, também, para honrar os patrocinadores e Manteigas da melhor maneira. Não escondo que, no final do ano, a participar na famosa Brasil Ride já gostaria de fazer uma “gracinha”… Não se fazem promessas de vitória porque o nível competitivo é o maior junto da elite mundial da modalidade e ainda não estou ao nível dos melhores, mas estou a trabalhar muito para lá chegar e estar a um bom nível.

A GUARDA: Como olha para a prática do BTT na região?

Francisco Moreira: Felizmente, com o passar dos anos, tem havido cada vez mais pessoas a praticar. Se há uns anos o Grupo BTT de Manteigas foi pioneiro nos passeios de BTT, e eram apelidos de “malucos”, agora, já toda a gente anda de bicicleta e para isso contribuíram pessoas da Guarda e do distrito como o Alex Guilhoto, o David Rebelo, que fizeram a Garbike mas, também, sem dúvida, o João e David Rodrigues e eu próprio. Somos atletas do distrito da Guarda que podemos fazer as pessoas acreditar que conseguem se tentarem. A prática da modalidade é muito saudável. Da minha parte, no que posso, tento sempre ajudar os mais jovens motivando-os para andarem de bicicleta. Também a Associação de Ciclismo da Beira Interior tem feito um trabalho excelente em proporcionar um calendário regional para que as pessoas da nossa beira possam competir. Não podia esquecer também o Tiago Ferreira, que é de Viseu, bem perto de nós, que me tem apoiado muito neste projecto. É sem dúvida especial ter um campeão do mundo a dar me a mão e ainda por cima da nossa região. É uma motivação extra e só tenho a agradecer-lhe.

A GUARDA: Considera que a região da Serra da Estrela tem boas condições para a prática do BTT?

Francisco Moreira: Essa questão nem pode ser colocada em causa… A Serra da Estrela é, sem dúvida, a capital do BTT. Possuímos trilhos espectaculares, para todas as vertentes do BTT, as nossas paisagens nas quatro estações do ano, a nossa história, a nossa gastronomia, deixam qualquer pessoa apaixonada pela nossa região e, se as subidas assustam e fazem doer as pernas, a paisagem que está no fim da cada subida, faz esquecer toda a dor de pernas e o esforço para recebermos tal recompensa e observar o que a serra tem de melhor para nos dar, a mãe natureza no seu estado mais puro.