Entrevista: Luís Soares, Presidente da Associação Cultural, Recreativa de Vila Mendo


Luís Filipe Gonçalves Soares é o presidente da Associação Cultural, Recreativa de Vila Mendo. Fundada em Setembro de 2000, esta associação está a comemorar 20 anos de actividade.
A GUARDA: A Associação Cultural, Recreativa de Vila Mendo realizou a “Festa do Chichorro” no dia 25 de Janeiro. O que é e o que promove esta Festa?
Luís Soares: Especificamente, é uma actividade dedicada ao Chichorro que é uma parte do porco denominada de redanho; podemos dizer que é uma espécie de torresmo sem coiro e com gordura (natural). Esta era uma iguaria sempre presente nas matanças em Vila Mendo, resolvemos dar ênfase a este produto, associando-o à nossa terra. Por outro lado pretendemos também recriar um pouco as dinâmicas comunitárias de antanho- onde o porco tinha um papel central e primordial na economia local, familiar e até nas teias de relações que se estabeleciam na comunidade; as matanças serviam até para exteriorizar o estatuto de abastança das pessoas- fazendo as chouriças as morcelas; cozendo o pão no forno comunitário, dando assim, também, a conhecer as tradições às novas gerações; fomentando o convívio e estreitando relações, algo que nos é caro. No fundo, é uma festa das pessoas, para as pessoas e com as pessoas. Simples na forma, mas rica no significado e essência.A GUARDA: Podemos dizer que esta Festa é uma marca de Vila Mendo?
Luís Soares: Neste momento, Chichorro é Vila Mendo e Vila Mendo é Chichorro. É uma marca, sim, que queremos melhorar, mas não adulterar. Somos adeptos da simplicidade com conteúdo, valorizando as comunidades e as suas gentes (de Vila Mendo, da Freguesia de Vila Fernando e da Guarda como tal).A GUARDA: Quando e com que objectivos nasceu a Associação Cultural, Recreativa de Vila Mendo?
Luís Soares: Nasceu em 2000 (20 anos, portanto) com “um único” objectivo: congregar as pessoas para dinamizar e promover Vila Mendo (a Guarda por inerência), os seus costumes e tradições. Sendo uma associação juvenil, tentamos olhar para os jovens dando-lhes referências, de modo a que cresçam balizados nos valores humanistas.
A GUARDA: Como é que a sede da Associação se tornou lugar de encontro das pessoas da aldeia?
A GUARDA: A sede é, do ponto de vista simbólico, o melhor local que poderia existir: a antiga Escola primária (espaço de formação) encerrada em 2005- ali, inúmeras e singulares gerações, medraram, agigantaram-se; construíram e cumpriram sonhos- hoje , na Associação, sonhamos… também. Pensamos uma Vila Mendo… maior, uma Vila mendo de sonhos a cumprir. É neste pressuposto que as pessoas ali se encontram para debater ideias e aspirações, para conversar e tagarelar, por vezes, falando deste e daquela, para simplesmente beber um copo… A sede é espaço de amizade e os amigos procuram os amigos…
A GUARDA: Quais as principais actividades que são desenvolvidas pela Associação ao longo do ano?
Luís Soares: Cronologicamente: Festa do Chichorro; Tabernas do Entrudo (Guarda), Encontro Motard; (A)gosto em Vila Mendo (caminhadas, exposição fotográfica, ateliers de expressões, cinema, futebol 7…) apoio à Festa de Santo André, Vila Mendo On Tour (viagem 2 dias por Portugal), Encontro Micológico, Cozer do Pão, Jantar de Natal. Temos 2 cadernos de Memórias editados: “Vila Mendo nos anos 60/70” em 2013 e “Gentes da nossa Terra” em 2016 onde abarcámos também a Freguesia de Vila Fernando, bem como o Adão e o Marmeleiro. Temos em vista e já estão a ser estruturados 3 outros, a serem editados entre este ano e o próximo. Temos também previsto, e está a ser trabalhado, um espectáculo no campo das artes performativas sobre o qual não vamos revelar muito, ainda. Enfim, vários projectos a desenvolver com calma, pois temos de conjugar a vida profissional, familiar e outros compromissos com a vida própria da Associação.
A GUARDA: As pessoas da aldeia costumam colaborar nas iniciativas organizadas pela Associação?
Luís Soares: As pessoas da aldeia, de forma geral, colaboram e estamos-lhes gratos por isso, por, tantas vezes, se sacrificarem e empenharem para cumprirmos os desideratos a que nos propomos. Bem-hajam. Temos uma equipa dirigente que, embrenhada nas teias da amizade, tem sabido ultrapassar dificuldades e divergências; obrigado. O dia em que as pessoas se não evolverem, a associação deixa de fazer sentido.
A GUARDA: Quais as principais dificuldades com que se debate a Associação Cultural, Recreativa de Vila Mendo?
Luís Sores: Dificuldades várias: motivação pessoal, motivação das pessoas ao longo de tantos anos, motivação da juventude (tarefa árdua…) para esta “coisa” de estar ao serviço de… que é o associativismo no seu âmago. Dificuldades, por vezes, orçamentais: as nossas receitas provêm do “café” que funciona intermitentemente e que depende da disponibilidade desinteressada de uma série de pessoas, do IPDJ (principal financiador), depois da Câmara da Guarda e por último da Junta de Freguesia de Vila Fernando; a outo nível, contamos com o apoio da FDAJG. Extrapolando, pensamos que as associações do concelho podiam e deviam ser mais apoiadas ainda, pois o trabalho que desenvolvem na defesa e promoção da cultura das nossas comunidades não se coaduna com a lógica do “ou há dinheiro para o buraco da estrada ou para a cultura…”. As associações são o cimento que une as pessoas e que projecta, em última instância, a identidade dessas mesmas comunidades e que possibilita que tenhamos fé num futuro risonho para o nosso interior. As políticas têm de ser portanto, ainda melhores (para quem faz acontecer). Nesta perspectiva, a candidatura da Guarda a Capital Europeia da Cultura pode e deve ajudar a este pressuposto. As Associações devem ser envolvidas e apostar forte naquilo que temos de melhor: a ruralidade enquanto marca identitária. Temos associações com história, memória, capacidade e saber de que o Aquilo Teatro ou o Centro Cultural da Guarda são exemplo, temos Instituições Sociais como a Casa da Sagrada Família da Guarda das Irmãs Dominicanas ou a Casa Saúde Bento Menni  com uma acção meritória (que desculpem todas as outras que tão bem trabalham), ou uma sociedade civil (e religiosa) pejada de gente capaz de acrescentar valor; saiba-se congregá-los e saibamos nós corresponder afirmativamente.
A GUARDA: Numa sociedade cada vez mais dependente das novas tecnologias, considera que ainda há lugar para o associativismo?
Luís Soares: As novas tecnologias não são, por assim dizer, inimigos do associativismo. É imperioso que os dirigentes saibam utilizá-las em seu proveito para desta forma renovar o tecido associativo. É trabalhoso, é; desafiante, sem dúvida, mas se não utilizarmos as mesmas ferramentas e ir de encontro aos interesses da juventude (e não só), o futuro das associações pode estar comprometido. Aqui a Família e a Escola têm também um papel nevrálgico: desde cedo é preciso transmitir às crianças da importância do saber trabalhar em equipa, do saber trabalhar para objectivos que estão ao serviço do outro, da comunidade; é preciso integrá-los e motivá-los para este espírito comunitário que as associações tão bem personificam: estaremos a ajudá-los a ser adultos responsáveis, conscientes, críticos, com valores e limites com os consequentes benefícios para a si próprios e para a sociedade: “só” por isto, têm de ser protegidas e acarinhadas, sem paternalismos. Vila Mendo tenta fazer isto.