Entrevista: Emília Barbeira, Professora de Português, no Agrupamento de Escolas da Sé – Guarda

Emília Barbeira é Professora de Português, no Agrupamento de Escolas da Sé – Guarda. É natural do Marmeleiro, concelho da Guarda. Estudou no Marmeleiro, na Guarda e mais tarde na Universidade Católica Portuguesa (Licenciatura em Português, Latim e Grego). Tem promovido alguns projectos no âmbito da disciplina de Português, no Agrupamento de Escolas da Sé – Guarda. Com os alunos decidiu escrever ao Cardeal José Saraiva Martins, natural dos Gagos, bem como ao Papa Francisco. Nos tempos livres gosta de viajar, ler, escrever, bordar e dedicar tempo à jardinagem. A GUARDA: Como é que surgiu a ideia de uma turma da Escola da Sé, na Guarda, escrever ao Cardeal Sarava Martins? 
Emília Barbeira: Para se perceber o porquê da carta ao Cardeal Sarava Martins tenho de recuar a 2010, altura em que, também, eu recebi uma carta especial da pintora Evelina Coelho. Neste ano, leccionava a disciplina de Área de Projecto aos alunos do 9ºA e lancei-lhe o seguinte desafio: descrever uma obra de Evelina Coelho, a pintora com maior projecção internacional. De seguida, achei por bem convidar a protagonista, Evelina Coelho, o que aconteceu a 14 de Janeiro de 2010, para que, por um lado, os discentes a pudessem conhecer e, por outro, ela pudesse ouvir o que os jovens tinham para lhe dizer sobre as suas obras. Evelina Coelho aceitou, de imediato, ao convite, porque os grandes são humildes, ficando sensibilizada com as observações dos alunos em relação à sua pintura. Evelina Coelho também conseguiu cativar os discentes com o seu discurso e com algumas fotografias das suas galinhas, pois elas assistiam aos momentos da sua criação artística. Para além da simpatia para com os alunos, também eu fui surpreendida com uma carta, elogiando o trabalho que realizei. Fiquei imensamente grata, mesmo emocionada, pois, como fez questão de me dizer, foi pedir a uma amiga para lha escrever. Afinal, lá em casa eram mais pincéis do que teclas, no seu dizer! Além disso, ainda fez questão de entregar pessoalmente a dita carta à Diretora da Escola. Assim, tenho de perguntar: quantas pessoas se dariam a este trabalho sem obter nada em troca?! Muito poucas, diria eu, por isso, um OBRIGADO póstumo, ainda que público, é muito pouco! Dez anos mais tarde, no ano lectivo 2020/21, achei que devia ir mais longe com os meus alunos para a homenagear, facto que foi comunicado ao filho de Evelina, o João Martins.O desafio, agora, era outro: escrever um conto intitulado ‘Anjos da Guarda’, que teria como protagonista Evelina Coelho, mas quis aproveitar, igualmente, a escrita do texto para enaltecer outros Anjos já desaparecidos ou aqueles que, felizmente, ainda se mantêm entre nós. A acção do conto passa-se no paraíso, onde todos os Anjos se encontram regularmente para debater os mais variados assuntos, que ocorrem na sua urbe e que lhes é tão querida, a Guarda. De facto, o concurso de poesia intitulado ‘O outro lado de mim’, que foi promovido no Agrupamento de Escolas da Sé, não passou despercebido aos Anjos da Guarda, que fizeram logo questão de incentivar os discentes para a escrita. Assim, os meus alunos foram desafiados a escrever não só sobre “o lado deles” como também sobre as vidas dos ilustres da cidade. Foi neste contexto que surgiu o poema dedicado ao Cardeal Saraiva Martins, uma vez que, na turma do 12ºB, a Rita Gonçalves era sobrinha neta do Cardeal. Ela era, por isso, a pessoa indicada para o fazer, pois detinha conhecimentos que nenhum de nós possuía. A Rita acedeu, de imediato, à proposta. Aliás, todos os alunos do 12º B e não só mostravam, sempre, grande disponibilidade para os devaneios da professora! Aqui fica, por isso, meninos, o meu profundo agradecimento público. Sejam felizes e bem-sucedidos na vossa nova missão a fim de conquistarem, também, o estatuto de Anjos da Guarda! A GUARDA: O que é que disseram ou pediram nessa carta e quem a assinou?
Emília Barbeira: Na carta, que foi enviada para Roma a 14 de Junho, não pedimos nada em especial. Apenas que o Cardeal lesse a página 25 do conto, caso não pudesse fazer a leitura do texto na totalidade, onde surgia Evelina Coelho a parafrasear uma célebre frase sua (“A velhice não existe. É, sim, juventude acumulada”). Além disso, convidávamo-lo a ler o poema que a sobrinha Rita lhe oferecia. A carta foi assinada por todos os discentes que constituíam a turma e por mim.
A GUARDA: O Cardeal Saraiva Martins respondeu à carta?
Emília Barbeira: Não respondeu, mas em meados de Agosto, encontrando-se de férias no nosso país, telefonou-me a agradecer a carta que os alunos e a professora lhe tinham enviado.
A GUARDA: Na mesma ocasião, também escreveram ao Papa Francisco. O que é que os levou a fazê-lo? 
Emília Barbeira: Dada a relação de amizade que existe entre estas duas figuras da igreja, delineei criar um acrónimo com o nome do papa: Jorge Bergólio e enviar-lho na mesma carta do Cardeal Saraiva Martins. O que me levou a fazê-lo foi mostrar a Sua Santidade que, para além de pastor da igreja, é um humanista sensível e dedicado às causas públicas.
A GUARDA: Estavam à espera que o Papa respondesse?Emília Barbeira: Claro que não. Além   disso, o Cardeal Saraiva Martins, em Agosto, já tinha agradecido o gesto, em nome do Papa Francisco.
A GUARDA: Como é que a escola e os alunos reagiram à resposta do Papa?
Emília Barbeira: A comunidade escolar reagiu com grande surpresa e também com alegria, uma vez que quase ninguém sabia do nosso atrevimento! No entanto, Sua Santidade tem o dom de emocionar e surpreender tudo e todos! Na realidade, é um exemplo a seguir. A sua humildade é incomensurável e indizível.
A GUARDA: Este ano também já iniciou outro projecto intitulado “Um poema, um abraço”. Em que consiste o projecto e a quem se destina? 
Emília Barbeira: Sim, este ano lectivo 2021/22, decidi criar outro projecto para as minhas turmas de 9º e 11º anos. Depois de uma pandemia, que nos privou a todos de dar e receber afectos, achei que um poema dedicado a uma pessoa das nossas relações ou a uma figura nacional, podia constituir um momento especial de ternura.  Dizer “goste de ti” ou “amo-te” deve ser uma obrigação e uma meta diária a atingir por cada um de nós. Afinal, como diz Eugénio de Andrade, “É urgente o amor…”
A GUARDA: Que iniciativas já desenvolveram, no âmbito deste projecto?
Emília Barbeira: Bem, o ano lectivo ainda é um bebé. Mesmo assim, já surpreendemos 4 pessoas, a saber: o grande empresário dos cafés Delta, Rui Nabeiro; o actual presidente da Guarda, Sérgio Costa; a professora bibliotecária do Agrupamento de Escolas da Sé, Sandra Santos, e a auxiliar da acção educativa do Agrupamento de Escolas da Sé, Madalena Costa.
A GUARDA: Estão programadas outras iniciativas?
Emília Barbeira: Sim. No entanto, a principal iniciativa deste projecto é continuar a surpreender todos aqueles que directa ou indirectamente contribuíram ou contribuem para o nosso crescimento pessoal e social. E depois talvez organizar uma tertúlia com alguns dos homenageados para partilharmos, em conjunto, as emoções daquele momento em que foram surpreendidos. Outro objectivo do projecto é levar os alunos a reflectir sobre a importância das emoções, quer na vida familiar, quer na vida social e ainda “obrigá-los” a escrever e a poetar, uma vez que o registo escrito é determinante para perpetuar a nossa memória individual ou colectiva. Afinal, como afirma Saramago numa das páginas do seu diário, “Todos somos escritores, mas uns registam outros, não”. Nós queremos registar!