Entrevista: Padre Francisco Mata, pároco de Manteigas, Sameiro, Vale de Amoreira e Valhelhas


O Padre Francisco Mata, pároco de Manteigas, Sameiro, Vale de Amoreira e Valhelhas, nasceu em Pau (França) no dia 12 de Novembro de 1969 e foi baptizado no dia 15 de Novembro do mesmo ano. Estudou na Universidade de Bordeaux e Pau. Foi Assessor do Gabinete do Presidente da Câmara de Pau; Director dos recursos humanos e dos serviços administrativos na S. B. E. M. H. em Pau; Perito Judicial junto da Comarca de Pau; Assessor no Gabinete do Governador Civil dos Pirinéus Atlânticos em Pau.  Em 19 de Abril de 1999, na Igreja de Morlaas, deu conta do chamamento de Deus e decidiu frequentar os Seminários de Bayonne e Toulouse. Foi ordenado sacerdote em 19 de Junho de 2005. Foi Coadjutor, de 2005 a 2006, na Paróquia de S. Pedro e S. Paulo de Pau; Coadjutor na Paróquia de Santa Maria de Billere de 2006 a 2009 e Pároco de 2010 a 2019 inserida no Pólo Missionário constituído por três paróquias - Billere, Lons e Lescar, o primeiro do género na Diocese de Bayonne.Gosta de ler, caminhar, arte e antiguidades e andar de Btt.
A GUARDA: Como pároco de um território que ultrapassa os limites do concelho de Manteigas, como é que tem vivido este tempo de isolamento social, provocado pelo estado de emergência, devido ao covid-19?
Francisco Mata: Este tempo de isolamento social e de estado de emergência é uma nova experiência para mim. Sendo também cidadão respeito as orientações dadas pela Direcção Geral de Saúde e pelas Autoridades Civis. Este tempo, permitiu-me também ter uma experiência ao jeito dos “exercícios espirituais de St Inácio” em casa, como oração, com meditação da Palavra de Deus em relação à realidade actual. 
A GUARDA: De que maneira é que tem contactado com os seus paroquianos? 
Francisco Mata: Nesta situação, imposta, tento estar em contacto com os meus paroquianos através de comunicados, através da página de facebook - Comunidade Cristã do Bom Pastor, com uma meditação diária e a homilia dominical. Também toda a comunidade pode contactar-me por via telefónica para o meu contacto pessoal.  
A GUARDA: Como é que a comunidade encara a celebração de funerais nesta situação tão específica? 
Francisco Mata: A comunidade está a encarar os funerais como uma situação nova. Porque não há velórios, missa de corpo presente, não há cortejo fúnebre, nem o acompanhamento das irmandades. É uma situação dolorosa e difícil para os familiares e para a comunidade, porque por aqui os funerais são muito participados. Faço apenas uma breve celebração no cemitério com a família mais próxima do defunto, de acordo com as normas estabelecidas pelo município. Na missa privada que celebro todos os dias, rezo pelo falecido que foi sepultado nesse dia. Decidi também, exercer a caridade com as famílias enlutadas não levando nenhum valor pelo funeral. 
A GUARDA: Qual o envolvimento das paróquias de Manteigas com a autarquia na prevenção e combate a esta pandemia? 
Francisco Mata: Toda a Comunidade Cristã do Bom Pastor, desde a declaração do Estado de Emergência, colocou à disposição das Autoridades, todas as estruturas das paróquias, gratuitamente. No caso concreto de Manteigas, é no Centro Paroquial de São Pedro que está a ser feito o acolhimento das pessoas infectadas pelo Covid 19, onde podem fazer o isolamento. Neste momento, temos cinco pessoas atingidas por esta pandemia, quatro fazem a quarentena em suas casas, e uma nas instalações do nosso centro.
A GUARDA: Está em Manteigas há menos de um ano, vindo de uma realidade muito diferente, vivida em França. Como tem sido a adaptação aos usos e costumes desta zona da serra da Estrela? 
Francisco Mata: Há exactamente sete meses que sou pároco da Comunidade Cristã do Bom Pastor. Uma realidade nova para mim como “discípulo missionário”. Mas, é sempre a mesma Igreja, o mesmo Senhor. Nesta zona da Serra da Estrela, aliás, o Coração da Estrela, a Piedade Popular está muito presente, com as procissões, irmandades, congregações, entre tantas outras coisas. Esta realidade já não existe na França, salvo no interior do país basco da Diocese de Bayonne, no dia do Corpo de Deus.
A GUARDA: No trabalho que está a desenvolver nas paróquias o que é que mais o sensibilizou?
Francisco Mata: A minha missão actual e primeira preocupação na Comunidade Cristã do Bom Pastor criando comissões – Comissão da Pastoral Litúrgica; Comissão da Pastoral da Caridade e a Comissão de Gestão da Unidade Pastoral - renovando os diferentes conselhos como o Conselho Pastoral da Comunidade Cristã do Bom Pastor, ainda em estruturação, e a Comissão de Festas de maneira a que se tornem interactivos para fazermos frente à evolução da Sociedade em que estamos inseridos para termos vida comunitária. E também um só contabilista que faz agora a contabilidade de cada paróquia para existir uma gestão equilibrada e mutualizada.Aliás, são dimensões que quero implementar porque não podemos funcionar no século XXI em Igreja com estruturas do século XIX e XX e a colaboração complementar no ministério sacerdotal com os fiéis leigos formados é fundamental, assim como com o ministério diaconal.O que mais me sensibilizou foi a criação da Comissão da Pastoral da Caridade, com um referente em cada paróquia em articulação com a Conferência de São Vicente de Paulo e Loja Social, que já produziu fruto com o estado de emergência em colaboração com a autarquia. Implementei a Adoração Eucarística em cada Igreja na missa semanal, sendo reparadora às sextas-feiras, e dominical e também algumas novidades na liturgia. A nível pastoral acompanhar as pessoas no centro paroquial.
A GUARDA: Como olha para o actual estado da Igreja na Diocese e no País?
Francisco Mata: O Bispo de Bayonne, D. Pierre Moleres, agora emérito, que me ordenou, antes de eu vir para a Diocese da Guarda deu-me a sua bênção e disse-me o seguinte: “ Tenta viver o Concílio Vaticano II e estares perto do teu Povo, porque vais encontrar uma realidade muito diferente. Nossa Senhora de Fátima vai-te ajudar, fico contente por ti, por esta nova missão”. De facto, aqui há uma Concordata que nunca existiu na França com a Igreja o que é muito bom. Logo, por isso não podemos fazer comparações. É evidente que a Diocese da Guarda não se pode comparar com a Diocese de Bayonne. Por exemplo, aqui existem 360 paróquias, enquanto em Bayonne são só 69 paróquias desde o ano 2000. Ao nível da Igreja em Portugal, julgo que o Patriarcado de Lisboa pode ter um funcionamento mais próximo ao da Igreja em França.Mas, o importante é aquilo que o Santo Padre, pediu aos bispos portugueses, aquando da visita Ad Limina em 2015, “não pode deixar de nos preocupar a todos esta debandada da juventude” e “não há motivo algum para uma pessoa, seja ela quem for, se auto-excluir deste terno olhar de Deus”.Também penso que a minha nomeação pelo meu bispo Marc Aillet no conselho presbiteral como representante das realidades novas de evangelização deve-se ao facto de ter sido responsável de uma comunidade nova diocesana chamada “Rejouis-Toi” presente em 18 dioceses em França fundada pelo actual bispo de Creteil, D.Michel Santier, nos anos 1970, quando era sacerdote. Nesta comunidade cada um vive o seu baptismo na sua paróquia ao serviço do Evangelho na diocese local na complementaridade com o sacerdote. Portanto todas as vocações estão representadas. Temos que ter em conta, no nosso ministério, estas novas realidades complementares no Anúncio do Evangelho na periferia da Igreja.