Entrevista: Entrevista: Marie Vicente-Lecointre, Presidente da Associação Dona Beatriz

Marie Vicente-Lecointre é Presidente da Dona Beatriz, uma Associação que nasceu em França mas que pretende avançar com projectos nos Camarões e em Portugal. Tem a dupla naturalidade portuguesa e francesa. Considera que não fala bem português porque faz apenas um ano que mora em Portugal, mas espera aprender a falar melhor muito rapidamente.Fez todos os estudos em França. Tem um mestrado em gestão estratégica na HEC Paris (Escola de Estudos Superiores de Negócios em Paris).Nos tempos livres gosta de percorrer os caminhos pedonais que circundam a vila do Paúl, rodeados por pinhais e eucaliptos, onde existe um ambiente calmo e particularmente tranquilo.A GUARDA: Quando apareceu e quais os objetivos Associação Dona Beatriz?
Marie Vicente: Criada em 2018, a Associação Dona Beatriz, cuja principal vocação é o combate ao analfabetismo, inspira-se no empenho dos seus fundadores no apoio às diferentes populações carenciadas, independentemente da idade, sexo, origem e crenças religiosas.Numa sociedade em constantes mudanças, gerando constantemente novas necessidades de ajuda e acompanhamento, a Associação Dona Beatriz adapta-se aos lugares e circunstâncias, mantendo-se centrada nos valores iniciais dos seus Fundadores: O Respeito, a Solidariedade e a Tolerância.O objectivo prioritário para a vila do Paúl, concelho da Covilhã, e aldeias vizinhas é a criação de um espaço socioeducativo para: Ajudar idosos analfabetos nas formalidades administrativas diárias; Apoiar adultos ociosos na aquisição das habilidades necessárias para torná-los mais facilmente empregáveis; Oferecer cursos de idiomas (português, francês ou inglês) presenciais ou online; Ensinar pessoas que pouco ou nada sabem de computadores; Orientar adultos na construção e implantação de um projecto profissional.A GUARDA: Em pleno século XXI ainda podemos falar em analfabetismo?
Marie Vicente: De acordo com os últimos dados publicados pelo Instituto de Estatística da Unesco, apesar do aumento constante das taxas de alfabetização há meio século, ainda existem 773 milhões de adultos analfabetos em todo o mundo, que são a maioria das mulheres. Então, sim, podemos e, acima de tudo, devemos ainda falar de analfabetismo na madrugada de 2022.E claro, estamos aqui apenas a discutir os números oficiais do analfabetismo, mas não devemos esquecer que também existem diferentes formas e níveis de analfabetismo e que a maioria das pessoas que sofrem deste problema invisível não falam porque têm vergonha.A GUARDA: Porquê a escolha do nome Dona Beatriz? 
Marie Vicente: Em homenagem a minha mãe, e também a todos aqueles como os meus pais que nunca tiveram a oportunidade de ir à escola e que, no entanto, foram verdadeiros modelos de vida para os seus filhos.
A GUARDA: A Associação Dona Beatriz tem sede em França. O que é que liga esta Fundação a Portugal? 
Marie Vicente: Os meus pais e as minhas raízes são portuguesas. Sou filha de imigrantes portugueses e vim para França com 4 anos. Quando fiz 16 anos, os meus pais decidiram voltar a morar no Paúl para desfrutar da velhice no campo. Naquela época, optei por ficar em França com uma de minhas irmãs mais velhas. Aos 22 anos mudei-me para Paris onde construí a minha vida e a minha carreira profissional.Em 2017, inscrevi-me na HEC Paris, prestigiada escola de negócios, no âmbito de obter um Mestrado Especializado em Gestão Estratégica, com a ambição de trabalhar numa tese que incidirá nos principais desafios das empresas de amanhã, e que então serviria de trampolim para me candidatar a cargos de responsabilidade em gestão e desenvolvimento estratégico.Mas em Março de 2018 minha mãe faleceu repentinamente, e para mim foi o início de uma profunda reflexão tanto sobre as minhas origens quanto sobre as minhas reais prioridades de vida.Em Setembro de 2018, foi criada a associação que leva o nome da minha mãe. Rodeados por uma pequena equipa de 7 pessoas, partimos do nada, mas com uma grande vontade de ajudar pessoas iletradas e analfabetas que, como os meus pais, nunca tiveram oportunidade de ir à escola, mas que mesmo assim foram verdadeiros modelos de vida para os seus filhos.Estando em Paris, as nossas primeiras acções foram primeiro com o enfoque na região de Paris, com o longo trabalho de preparação para a implementação do projecto do espaço socioeducativo na vila do Paúl.Em 2020, por coincidência, o meu cônjuge recebe uma proposta da sua empresa: trabalhar como expatriado em Portugal porque abriram uma filial em Lisboa. Chegamos assim a Lisboa em Agosto de 2020 no meio da pandemia COVID e com muitas incertezas, e tenho necessariamente um pensamento para os meus pais que, há várias décadas, também deixaram tudo para trás, mas em condições muito diferentes da nossa. Foi então que soube que nada me impediria de montar e espaço socioeducativo na pequena localidade do Paúl, na terra dos meus antepassados.Hoje, um ano depois, as instalações estão quase concluídas e em breve poderão acolher os habitantes da vila do Paúl e aldeias vizinhas. Ainda faltam fundos para financiar as últimas obras, mas estou confiante no futuro ...
A GUARDA: Quem é que faz ou pode fazer parte da Associação Dona Beatriz?Marie Vicente: Todas as pessoas que quiserem juntar-se a nós. Para fazer parte da nossa Associação é muito fácil, basta entrar em contacto connosco e aderir à associação. Precisamos de todas as habilidades. O nosso contacto é: contato@ donabeatriz.org
A GUARDA: Quais as principais iniciativas que já foram organizadas pela Associação Dona Beatriz?
Marie Vicente: Em França, Dona Beatriz trabalha agora principalmente com crianças em dificuldade, oferecendo actividades educativas “Leituras oferecidas – Lectures ofertes” e “Coup de pouce language - Mão amiga linguagem” no âmbito do Programa “Réussite Educative – Sucesso Educativo”. Estas actividades educativas contribuem para a luta contra o abandono escolar, e têm como objectivo a compreensão da língua francesa e a iniciação ao prazer da leitura.Livros dados às crianças desfavorecidas da vila de Les Ulis. Porque é mais do que essencial tornar a leitura acessível a todos a partir de uma idade muito jovem, a associação Dona Beatriz organizou vários eventos de doação de livros para os alunos de jardins-de-infância, bem como para as crianças que seguem o Programa “Réussite Educative - Sucesso Educativo” da vila de Les Ulis, com o objectivo de desenvolver o prazer da leitura em todas as famílias. Nos Camarões, em Africa, as questões são muito diferentes. No âmbito de uma parceria com a empresa UpOwa, que trabalha em áreas desertificadas em Camarões, Dona Beatriz comprometeu-se a doar luz para que as crianças das aldeias de Nkol Ohandja e Avoh possam ter acesso à electricidade, e para que elas possam, depois da escola, fazer os seus trabalhos de casa à noite. Estas duas aldeias têm cerca de 50 famílias situadas no departamento de Lekie na região Centro de Camarões.Dona Beatriz financia os primeiros kits solares para permitir às crianças desfavorecidas irem à escola e fazerem os seus trabalhos de casa após o anoitecer. O nosso objectivo é equipar toda a aldeia de Nkol Ohandja até ao final de 2022.Em Portugal, a finalização das instalações do espaço socioeducativo na pequena vila de Paúl e que brevemente poderá acolher quem desejar frequentar o espaço.Em Abril, fizemos uma apresentação da associação Dona Beatriz perante todos os alunos e professores da escola internacional de Lisboa “United Lisbon International School”. O objectivo desta apresentação foi principalmente para essas crianças, uma constatação de que elas são privilegiadas e que, infelizmente, ainda existem no mundo, muitas crianças que não têm oportunidade de ir à escola.A GUARDA: Actualmente, quais os projectos em que está envolvida a Associação?
Marie Vicente: Em Franca, a associação está também a trabalhar na implementação de um acordo de parceria com o Ministério da Educação Francês, o que permitirá à Dona Beatriz de trabalhar directamente nas escolas.Estamos actualmente a trabalhar na abertura de uma filial em La Roche sur Yon. O  objectivo é apoiar os trabalhadores temporários do sector agro-alimentar que não sabem como utilizar um computador. Em Portugal, a inauguração do espaço socioeducativo que acontecerá brevemente na pequena vila de Paúl (Beira Baixa) que estará acessível a quem desejar.
A GUARDA: Que iniciativas pretende realizar a Associação, nos próximos tempos?
Marie Vicente: Em Portugal queremos abrir outras filiais Dona Beatriz em Portugal.O principal objectivo dessas filiais será ajudar as pessoas que sofrem com o analfabetismo electrónico.No início de 2022, começaremos a contactar os presidentes de juntas da freguesia de aldeias ou pequenas vilas que tenham interesse em ceder um serviço para que seus cidadãos possam aprender a usar os computadores. Todas as aldeias ou pequenas vilas serão elegíveis logo que disponibilizem um espaço à associação Dona Beatriz. Dona Beatriz, por sua vez, compromete-se a dotar o espaço com computadores e a “recrutar” voluntários que possam ajudar e treinar pessoas que desejam aprender a usar o computador. Pretendemos avançar com a 2ª fase do projecto de médio/longo prazo na aldeia de Paúl: O projecto de instalações socioeducativas faz parte de uma reflexão global sobre um projecto de economia circular e solidária que, a longo prazo, visa revitalizar a vila de Paúl e os seus arredores.Nos Camarões, muito em breve, em Novembro, lançaremos uma grande campanha de crowdfunding (na qual a associação investiu) a fim de recuperar fundos suficientes para equipar toda a pequena aldeia de Nkol Ohandja com kits solares até o final de 2022. Este projecto também é particularmente importante para a associação Dona Beatriz porque permitirá que as crianças vão à escola e façam os trabalhos de casa depois de escurecer.