Há tanto para contar da minha terra.

Por que será que só nos lembramos de certas coisas que já passaram há tantos anos? É porque os anos também passam por nós, e é por isso que recordar é viver. Agora, de repente, lembrei-me como era a recolha do lixo em Manteigas há, pelo menos, 50 anos. Meio século. Os meus contemporâneos devem lembrar-se melhor. Este pensamento é dirigido aos mais jovens que, certamente, nunca ouviram falar da Rozalina e do Ti Ferro Velho. Há mais de 50 anos, a Câmara Municipal de Manteigas fez um acordo com um senhor, que era o Ti Ferro Velho, e que na altura tinha uma mula para se ocupar da recolha do lixo nas principais vias de Manteigas. Fez-se uma carroça em zinco, com duas pequenas portas laterais, e era a mula Rozalina que puxava a dita carroça. Tinha uma pequena campainha à frente, que tocava quando passava pelas ruas. Era assim que as pessoas, quando ouviam a campainha, vinham despejar o pouco lixo que se fazia na altura. Olha… já lá vem a Rozalina. «Vai rápido despejar o lixo», dizia-se. E era assim que funcionava. O Ti Ferro Velho à frente, com um pequeno chicote, a mula a puxar a carroça, e um companheiro atrás para ajudar a despejar o lixo. A Rozalina, de tantas viagens fazer, já conhecia o percurso de cor e salteado. E como conhecia melhor o dono, não era preciso dizerem-lhe nada. Ela parava em todas as tascas de Manteigas por onde o Ti Ferro Velho passava. Depois de completa a volta e feita a recolha do lixo, a Rozalina e o Ti Ferro Velho iam despeja-lo à lixeira, a Leandres, que, na altura, era ainda a «céu aberto». Hoje isso já não existe. Sinais dos tempos…  
Eu fui a Baiuca matar o bicho vi o Ferro Velho apanhar o lixo.Ó Ferro, és melhor do que o aço, ó Ferro, dá cá um bagaço.Tampões de Prata e também sanitas de ouro o Ferro Velho já tem.Novo cagadouro e é ali que a porca dá o berro, e é ali que se encontra o Ferro Velho.Aí Rozalina rua abaixo rua acima vai metendo gasolina ate atestar a dorna.E chega o dia que a Rozalina Maria se bate a fotografia para arranjar a reforma.
Eu, comum cidadão de Manteigas, venho por este meio prestar a minha singela homenagem a um grande homem, o Ti Ferro Velho, que foi responsável pela limpeza da vila durante tantos anos.Os versos, esses, agradeço-os ao meu falecido sogro, Sebastião Policarpo, que foi quem me ensinou.
Álvaro Rosa