Câmara da Guarda avança com mapa de todo o património imaterial do concelho


Aldeia Viçosa voltou a cumprir Testamento da Velha com castanhas, rebuçados e vinho, no dia a seguir ao Natal.
Como testemunha o Padre António Soares Meirelles, em 1698, no seu Livro de Usos e Costumes desta Igreja do Lugar de Porco, foram lavradas escrituras com o gesto desta Velha, em que esta estabelece um compromisso com a Igreja local: “Tem obrigação de dar (…) cinco meios de castanha e cinco alqueires de vinho pela alma de uma velha que deixou noventa e seis alqueires de centeio a esta Igreja impostos na Quinta do Lagar de Azeite para que com esta castanha e vinho se fizesse no mesmo dia um magusto e todos dele comessem e rezassem na Igreja um Padre Nosso pela sua alma.”
No final da Missa, em memória da benemérita, os sinos tocaram e o testamento foi encenado no largo principal da aldeia, mesmo em frente da Igreja Paroquial, na presença de naturais e forasteiros, alguns vindos de Espanha, França e Argentina.
Seguiu-se o cortejo das castanhas e do vinho, desde a Junta de Freguesia até junto da Torre da Igreja. Um a um, os sacos, com os 150 quilos de castanhas, foram puxados para o cimo da Torre Sineira, pelos jovens de Aldeia Viçosa. A multidão que se juntou à volta do Madeiro de Natal foi brindada por uma chuva de castanhas e rebuçados. Os mais afoitos aproveitaram o momento para as cavaladas, saltando para as costas dos que se baixavam para apanhar as castanhas.
Para tornar o evento ainda mais apetitoso, a junta de Freguesia também ofereceu pão torrado, mergulhado no azeite de Aldeia Viçosa, as afamadas tibornas.
Luis Prata, Presidente da Junta de Freguesia de Aldeia Viçosa, disse que “a Freguesia pretende candidatar esta tradição com cerca de 500 anos a Património Imaterial”. Explicou que “já foram feitas algumas diligências para este desiderato que oferecerá, esperamos, um contributo fundamental ao grande projecto de todos nós que é a candidatura Guarda, Capital Europeia da Cultura”.
Vítor Amaral, Vereador da Cultura da Câmara da Guarda, disse ao Jornal A GUARDA que a autarquia vai fazer o mapa de todo o património imaterial da Guarda, das pessoas e dos seus saberes e “a tradição do Magusto da Velha estará incluída”.
“A Carta da Paisagem da Guarda, um dos projectos mais importantes de salvaguarda e afirmação identitária do património cultural, vai avançar no início de 2020 com a coordenação do antropólogo Paulo Lima, responsável pelas candidaturas do Fado e do Cante Alentejano, entre outras, a Património da Humanidade da UNESCO”, lembrou Vítor Amaral.
Ao longo de um ano e meio serão percorridas todas as freguesias do concelho da Guarda para fazer o levantamento de tradições e costumes. Da investigação resultará “uma ferramenta de orientação para o futuro”. Vítor Amaral adiantou que num primeiro momento será feita a produção de um inventário/catálogo dos bens culturais imateriais presentes no Município da Guarda, suportado por consulta de bibliografia, arquivo e trabalho de terreno.
Até Janeiro de 2021, o Municipio da Guarda pretende concluir o processo de instrução dos dossiês com os pedidos de inscrição do fabrico do cobertor de Papa (e património natural e cultural associado) no Inventário Nacional do Património Cultural e com o pedido à UNESCO na Lista do Património Cultural Imaterial com necessidade de salvaguarda urgente.
O Presidente da Câmara da Guarda destaca este trabalho que está a ser desenvolvido “com a colaboração de um especialista, o antropólogo Paulo Lima” e lembra que tradições como a do cobertor de Papa, da cestaria de Gonçalo, da cutelaria de Verdugal e do Magusto da Velha “são importantes para criar um eixo de desenvolvimento no concelho”. Carlos Chaves Monteiro disse ao Jornal A GUARDA que o projecto dos Passadiços do Mondego também pode impulsionar a “preservação de tradições e costumes” do vasto território do concelho da Guarda através da atracção de mais turistas. Referiu que “os Passadiços do Mondego, juntamente com as tradições e costumes, vão ajudar a potenciar o nosso território, as nossas gentes”.
Sobre o projecto dos Passadiços do Mondego, o autarca adiantou que actualmente estão a decorrer trabalhos de estaleiro mas “daqui a meio ano já teremos obra no local”.