Opinião

No dia três do mês que decorre, um evento mobilizou a nossa vida social

Da Grécia e conexos – em súmula (I)

Viagens ao reino de Clio

O título é este mesmo: nada para o acordo ortográfico. É como quem diz: nada para o Sporting! Estamos entendidos, verdade?

Tal como antecipadamente lhe comunicara segue a carta aberta.

É - e continuará a ser - para a generalidade das pessoas uma palavra maldita. Sinónima de sofrimento, angústia e perda. Muitos dos leitores lembram-se bem do tempo em que a palavra até era evitada das colunas de obituários dos jornais, sendo substituída, como causa da morte, pelo eufemismo “doença prolongada”.
Os números são aterradores. De acordo com uma reportagem “Cancro – As novas armas”, assinada por Nelson Marques, na Revista do EXPRESSO, de 13 de Junho passado, “uma em cada duas pessoas vai ter cancro. Por ano a doença mata mais de 8 milhões em todo o mundo”. Catorze milhões de pessoas são diagnosticadas com cancro em cada ano que passa. Quase vinte e seis mil portugueses, cerca de um quarto da mortalidade no país, morreram de cancro em 2013.
É certo que os progressos verificados, nas últimas décadas, no combate à terrível doença têm sido consideráveis. Vão, felizmente, longe os tempos em que a cirurgia era praticamente a única panaceia para tentar impedir ou adiar o desenlace fatal. Mesmo assim, apesar da publicidade feita pelos profissionais de relações públicas das grandes empresas farmacêuticas, apesar dos avanços no tratamento de vários tipos de cancro, apesar da evolução dos fármacos, que se tornaram menos tóxicos e apresentam melhores resultados, apesar de tudo isso, “a capacidade de tratar tumores sólidos em estado avançado continua a ser insuficiente”. Como se pode ler no texto já citado, “não há semântica que resista à frieza da realidade”.
A aposta da investigação médica tem consistido em criar condições para que o cancro avançado possa ser tratado, cada vez mais, como uma doença crónica, assim procurando retardar a sua progressão e dar mais tempo e melhor qualidade de vida aos doentes. Deve, por isso, evitar-se, por respeito pelo sofrimento dos doentes, criar a falsa ilusão de uma cura que, tão cedo, não chegará.
Infelizmente, tenho convivido desde muito novo com o drama do cancro no seio da minha família. Meu pai morreu, com cinquenta e três anos incompletos, vitimado por um cancro no pulmão. Na origem da doença esteve o vício do tabaco. Embora na década de cinquenta do século passado ainda não houvesse a consciência plena da ilicitude da publicidade favorável ao consumo do tabaco, já era então conhecida a rematada falsidade de despudorados anúncios comerciais que iludiram tantos jovens da minha geração quanto ao consumo e ao vício do cigarro. Passo a referir alguns, entre muitos que tenho à minha frente.
Assim, em tradução do inglês: “acenda um cigarro *** (marca que omito intencionalmente), em vez de um tratamento à garganta”. Ou: “os médicos dizem que os cigarros (da marca ***) são menos irritantes - a protecção da sua garganta contra a irritação e a tosse”. Ou ainda, na publicidade de uma conhecida marca de tabaco nacional, que fumei durante muitos anos: “Para um trabalho de responsabilidade, cigarros ***(normal ou gigante), na base da sua decisão”. E, agravando a responsabilidade culposa da mensagem, vê-se a mão de um médico segurando um cigarro da marca publicitada, com o rosto invisível, mas perfeitamente identificado pela bata branca e pelo estetoscópio colocado na secretária, ao lado do maço de tabaco. Não podia escolher-se, na verdade, melhor exemplo de um “trabalho de responsabilidade”…! Apesar da viragem de cento e oitenta graus operada na publicidade ao tabaco e do conhecimento geral dos malefícios que o seu consumo ocasiona, continuam a ver-se, em grande número, jovens de ambos os sexos, dependentes do vício, parecendo inconscientes do mal que estão a fazer à sua saúde. Reconheço que o meu exemplo não me dá “moral” para criticar quem assim procede, uma vez que eu próprio, tendo assistido à doença do meu pai e testemunhado o sofrimento do final da sua vida, acabei por me tornar, anos depois, um fumador inveterado. Felizmente, a vontade de Deus e os progressos da medicina no decurso das últimas décadas, permitiram-me sobreviver à doença com o relativo vigor de um homem com setenta e três anos, embora marcado por limitações de que já falei em artigo recente.
Mas nem por isso deixarei de, pela palavra oral ou escrita, continuar a travar este bom combate contra o tabagismo, alertando para a importância de não sucumbir ao vício, de cujas nefastas consequências sou um símbolo vivo … e arrependido.
A grande aposta do recente congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, que, durante cinco dias, reúne em Chicago, trinta mil profissionais de saúde de todo o mundo, consistiu na imunoterapia que, para muitos, irá inaugurar uma nova era no tratamento do cancro, “um avanço tão revolucionário como foi a chegada da quimioterapia nos anos 40”. Mas, ao contrário da quimio, a imunoterapia usa as defesas do sistema imunitário para atacar as células tumorais. Como explica o autor citado, “na génese da terapia está o facto de o cancro – ao contrário de outras doenças – não ser um invasor”. Consiste em células do próprio organismo que cresceram anormalmente, pelo que o sistema imunitário, por não as reconhecer como externas, não as ataca. Comentando os resultados já obtidos, reveladores de um significativo aumento na sobrevivência dos pacientes, o director do Serviço de Oncologia do Hospital dos Lusíadas observa que a imunoterapia “será uma estratégia muito promissora”, na medida em que a sua lógica consiste em colocar as defesas do hospedeiro a lutar contra o cancro.
No entanto, as expectativas quanto ao êxito da imunoterapia têm dividido as comunidades científica e médica. Disso mesmo nos dá conta o autor da reportagem já referida. Como dizem os mais cautelosos, é preciso temperar o entusiasmo para que os pacientes recebam a mensagem correcta. É que, acrescenta, “a excitação em torno de novos medicamentos só favorece os accionistas das farmacêuticas”. Acresce que se trata de medicamentos que, além de não serem eficazes para todos os pacientes, são extremamente caros, constituindo a redução desses custos um desafio social e ético para o sistema nacional de saúde e para a indústria farmacêutica.
Como se sabe, sendo certo que um bom prognóstico no tratamento do cancro está muito dependente da detecção precoce, o futuro do combate à doença passa também pela evolução dos meios de diagnóstico. Refiram-se, a título de exemplo, as “biópsias líquidas”, uma forma não invasiva de analisar repetidamente um tumor, traçar o perfil genético deste, seleccionar os fármacos mais adequados para as mutações encontradas e avaliar sem perdas de tempo a eficácia do tratamento, adaptando-o em função da evolução do cancro.
Enquanto não for possível a utilização plena e correcta da imunoterapia do cancro com a ministração de vacinas terapêuticas personalizadas capazes de ajudarem a desencadear uma resposta imunológica específica em cada paciente, “vamos assistir cada vez mais à combinação de várias terapias, incluindo a imunoterapia, quimioterapia, radioterapia e cirurgia, para conseguir ganhos incrementais que ajudem a tornar o cancro uma doença potencialmente controlável, como já acontece com alguns tumores”. Quem o afirma é António Parreira, director do Centro Clínico Champalimaud, especialmente vocacionado e actualizado neste campo.

No nosso idioma ao afirmar, eu vejo-me grego,

Os militares de carreira juraram defender a Pátria.