Opinião

Há casas comerciais por todo o lado a vender sapatilhas. Sapatilhas de todos os tipos e feitios. Toda a gente as compra e todo o mundo calça sapatilhas. Quem não sabe isso?
O mundo mudou, mesmo no mercado e no uso de sapatilhas. Há umas dezenas de anos as sapatilhas possuíam um uso restrito, mesmo entre os jovens. E não proliferaram no mercado. Hoje todo o mundo anda calçado de sapatilhas: jovens de todas as idades, senhoras ou cavalheiros, a condizer com a informalidade da roupa, ou, desafiando a tradição, a acompanhar fatos de alguma formalidade e até de cerimónia.
As sapatilhas invadiram todas as lojas de calçado e o seu mundo entrou em todos os mundos. E não há marca que se preze que não possua as suas sapatilhas, de marca. Umas serão mais marca que outras, mas sapatilhas de marca, sempre. Sempre elas terão uma marca, ainda que seja marca branca. Estas que já não serão tão sapatilhas como as verdadeiramente marcadas. Serão antes uma versão das antigas alpergatas adquiridas no contrabando com a vizinha Espanha. Alpergatas que, travestidas de modernidade, mudaram também de nome e viraram moda. Agora as alpergatas são paez, nome de marca argentina, mas que se tornou sinónimo de alpergatas. Parecem mesmo estar a concorrer com as sapatilhas estas alpergatas leves e frescas travestidas de marca paez.
As sapatilhas invadiram até o espaço dos sapatos clássicos. Nas montras e nos pés prontos a calçar. Até o nome se alterou. Agora as sapatilhas já não são sapatilhas, como outrora. Agora as sapatilhas são ténis e há quem ache uma ofensa chamar sapatilhas aos ténis com que anda calçado. Presumo que o nome tenha sido herdado do desporto homólogo, mas os ténis, que já não se chamam sapatilhas, multiplicam-se em variedades em paralelo com os usos, desportivos ou do vulgar mundo do andar, na moda ou sem pensar nela.
Confrontado com os dizeres que ia ouvindo, encomiando sempre as suas vantagens, um dia quis comprar uns ténis. Pretendendo um par simples, entrei, mesmo assim, numa grande loja, daquelas que enxameiam o mercado. Ignorante que era – e continuo a ser – vi-me perdido naquele mundo onde havia ténis para tudo. Perdido, é o termo, mesmo no momento em que um simpático funcionário se me dirigiu oferecendo ajuda.
Que espécie de ténis pretende? – Foi a singela pergunta que me deixou embaraçado para a qual não encontrei resposta imediata. Creio que se terá ficado a rir de mim, que nem sequer sabia o que pretendia.
Raro será o dia que por ali não passe. E sempre, desde há uns meses, os olhos incidiam sobre aquelas sapatilhas. Nem o vento, nem a chuva, nem o nevoeiro, nem o intenso calor demoviam aquele par de sapatilhas com que se abria a Rua Afonso de Albuquerque no cruzamento com a Rua Mestre de Avis, na Guarda. Parecia um milagre da natureza. Elas ali se encontravam impassíveis, em perfeito equilíbrio de circo, perante o intenso movimento automobilístico daquela artéria, uma das ruas mais movimentadas da cidade.
Dado que aquelas sapatilhas se intrometiam no meu olhar sempre que por ali passava, e passo ali quase diariamente, comecei a dar-lhe um nome. São as Sapatilhas de Afonso de Albuquerque. De que marca seriam elas? Não sei, mas é com elas que a rua ficou calçada.
Não imagino como é que aquele par de sapatilhas ali fora parar. Nem sei quem possa saber. É uma ignorância a atrapalhar os meus passos. Só sei que aquelas sapatilhas ali se encontraram exactamente no meio da via, dependuradas num cabo de telecomunicações que a atravessa de um lado ao outro lado. Como não conseguia desvendar este mistério à luz do vulgar mundo do mercado das sapatilhas, dei comigo a desvendá-lo à luz de outro mundo.
Aquelas sapatilhas estavam ali, dependuradas num cabo de telecomunicações, ali naquele cruzamento em que uma rua se desdobra em duas: a Rua Mestre de Avis que se prolonga em frente e a Rua Afonso de Albuquerque que ali se inicia para desembocar junto à Capela do Senhor do Bonfim. É ali que se encontravam dependuradas bem a meio da faixa de rodagem no início da Rua Afonso de Albuquerque. Atentos ao piso, elas poderiam passar despercebidas aos muitos condutores que por ali passam diariamente e saem da cidade vindos lá do alto, do Jardim José de Lemos, onde começa a Rua Mestre de Avis, mas não passavam sem o olhar atento dos peões em condições de olhar mais o alto onde se encontrava este decorativo adereço público.
Não imaginando que a situação daquelas sapatilhas pudesse enquadrar-se numa bem orquestrada campanha publicitária a anunciar um novo modelo de uma marca de sapatilhas, imagino que elas ali se encontravam a denunciar, como os profetas, uma situação que importa remediar. Uma dupla denúncia, aliás: ligada uma às sapatilhas e outra mais ligada ao cabo que as suportava.
Embora a altura a que se encontravam não permitisse uma observação de pormenor, aquelas sapatilhas sempre me pareceram com ar de algum uso. Aquelas sapatilhas já teriam sido calçadas. Usadas por quem? Não sei. Por uma pessoa ainda jovem ou por alguém já de avançada idade? Um notável atleta ou um vulgar cidadão? Nada sei. Mas sei que estas sapatilhas fizeram parte da vida de alguém e percorreram os seus caminhos. Fosse eu um pintor e já teria pintado uma aguarela ou um óleo inspirado nas botas pintadas por Van Gogh e que originaram a célebre polémica entre o filósofo Heidegger (1889-1976) e o crítico de arte Meyer Schapiro (1904-1996).
Alguns automobilistas terão passado por ali diariamente e diariamente terão saltado no interior do automóvel projectados pelos contínuos saltos dos veículos, mesmo que, conhecendo de que massa é feita a rua, abrandassem, e quase parassem, para fugir aos solavancos induzidos pelo pavimento. Mais infeliz será aquele que, desconhecendo a situação e, na ausência de qualquer sinalização, é surpreendido com uma incontornável sequência de ondas da calçada, traiçoeiramente invisíveis. Verdadeiramente, a Rua Mestre de Avis necessita de uma intervenção de fundo, tal como a Rua Afonso de Albuquerque. Não querendo exagerar em tão pobre simbologia, poder-se-á dizer que elas precisam de ser calçadas com novas sapatilhas. Tal como aqueles cabos mal-amanhadas e deixados anagalhados ou ao pendurão que bem retratam o pobre brio profissional das empresas responsáveis.
Como, dialecticamente, denunciar é também anunciar, passarei a lembrar aquele par de sapatilhas como quem se encontra em espera na esperança de que se efective o que, denunciando, se anuncia.
As sapatilhas desapareceram no dia 18 de Julho. Nesse dia exactamente. Anotei na minha agenda. Um acontecimento destes, de tal simbologia, é para ser lembrado. No dia anterior, pela tardinha, ainda lá se encontravam. Quando dei pela sua ausência, imaginando que tivessem caído arrastadas pelo vento, procurei-as naquele espaço. No chão, nos passeios, nos muros e portões das moradias. Mas nada. Sapatilhas, qual quê?! Desapareceram como por encanto do cabo de telecomunicações em que se encontravam dependuradas. Como foram dali retiradas, não podemos saber. Para onde é que elas viajaram, não o sabemos. Mas sei que aquelas sapatilhas, dependuradas naqueles cabos mal-amanhados daquelas ruas, ficaram na minha memória, como na minha memória se encontram as botas pintadas por Van Gogh.
As botas do célebre pintor encontram-se no museu à disposição de quantos as pretenderem contemplar lembrando - ou não - a famosa polémica que atingiu a compreensão e a essência da arte. Aquelas sapatilhas desaparecidas no dia 18 de Julho não terão chegado a servir de modelo a um insigne pintor, mas, na minha memória, continuarão a simbolizar o modo como se pensa, se olha e se cuida uma cidade. Fossem quais fossem os seus donos, elas serão sempre para mim as sapatilhas de Afonso de Albuquerque que esperam poderem calcorrear melhores calçadas.
Guarda, 30 de Agosto de 2023

No frenesim da uma vida citadina, habituámo-nos a correr porque pensamos que não há tempo a perder e utilizamos os meios mais céleres para abraçar o mundo: o automóvel, o avião, o comboio rápido.

Estamos num tempo de apressamento. Sempre num afã por novidades (supostamente novas), por concretizações impossivelmente possíveis.

Quando há dias tentava plantar alguns pés de lantanas no jardinzinho da casa da Praia das Maçãs, dei-me conta de que a longa falta de exercício físico, aliada ao aumento de peso, me tornavam excessivo e quase insuportável esse esforço junto à sebe da vedação que dá para a estrada.

Com a cadência do calendário cá estamos nós prontos a fechar o mês de agosto.

“A alma tem de estar sobressaltada”
(Fausto Guedes Teixeira)

Julho foi o mês mais quente desde que há registos.

Todos os anos, no mês de agosto, as nossas aldeias enchem-se de gente. Durante os restantes meses do ano, elas ficam sem habitantes já que não foi possível encontrarem aqui o normal sustento para sobreviver.

A Diocese da Guarda, por estar localizada na fronteira com Espanha, é a natural porta de entrada para milhares de jovens estrangeiros que vão participar na Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa.