Opinião

Algumas perguntas a Eduardo Lourenço (I)

É um gosto e uma honra estar aqui convosco e a falar para vós. Eu sei: é canónico dizê-lo – mas ainda é mais verdade senti-lo.

O nosso compatriota Doutor (por extenso, tal é o seu mérito), Doutor Luís Francisco Alvarenga Varela, que nos veio lá de “baixo” dos trópicos para nos lembrar que o ideal da multi-racialidade, multi-continentalidade e multi-culturalidade é de um excelso intangível, este nosso compatriota que veio de uma terra que produziu gente da mais inteligente de África, donde saíram quadros superiores e destacados trabalhadores para o espiritual, territorial, diplomático, económico e grandiosamente desmedido Portugal, dignou-se, com a discrição própria dos grandes, honrar-me com o convite para falar sobre saúde, na apresentação pública desta ONG sobre saúde no distrito da Guarda.

Antes de avançar é imperativo lembrar que foi precisamente na ilha de Santiago que foi edificada a mais antiga igreja portuguesa nos trópicos, um notável monumento que, sabemo-lo há pouco, arrebata, assim, a primazia atribuída à catedral de S. Salvador do Congo.

Disse-lhe imediatamente que sim, claro. Primeiro, porque o inestimável valor da amizade se honra; e, depois, porque a saúde é “matéria” que percute em cheio em mim. Baste dizer que a minha carta astral regista que me interesso por “saúde, crescimento e dieta”, tal como por “Historia, Filosofia e Arte”, precisamente a minha matriz. Mais. Já estive na “Shelton’s Health School”, em San Antonio, Texas, há cerca de 40 anos; e não perco literatura de qualidade sobre estes assuntos. Há que “fazer o bem sempre que houver oportunidade”, como me ensinaram; e o meu amigo, Doutor Luís Francisco Alvarenga Varela pode contar sempre com os meus modestos préstimos.
A primeira condição para se ter saúde é querê-la. Querer é poder – e, todavia, não basta meramente querê-la. Querer implica esforço, é sinónimo de humildade, de uma permanente atenção ao nosso ser mais íntimo, ao que nos diz tanto o corpo como o espírito (é sem sentido a prioridade a dar a qualquer destes dois componentes, corpo e espírito, alma se quiserdes). Querer é, também, ser-se optimista, saber, como disse Hesíodo, que “ante o mérito, puseram os deuses o suor”. Querer é estarmos dispostos à luta – às vezes nada fácil –, querer, enfim, é crer, acreditar, termos fé, sabermos que só as vitórias nos esperam. O meu Professor de Filosofia Antiga, ademais um insigne poeta, escreveu que “ de tudo o que acabamos nasce um deus”; e Jacques Monod registou que, em Biologia, “o acaso existe pelo acaso; e o necessário pelo necessário”.

Quanto às dificuldades, um amigo, que é das mais insignes personalidades mundiais na sua área, escreve que “as dificuldades são oportunidades”. Mais diz ele: “Os eventos traumáticos são sempre penosos, mas têm um lado positivo. Podem tornar-nos mais sensatos e dar-nos profundidade sobre o nosso próprio carácter e o dos outros”, o que é a radical rejeição do coitadismo, a eloquente afirmação do agonismo, o “nós cá estamos”, a certeza de que nada nos está destinado excepto a vitória.

O esforço implícito ao querer e ao crer (acreditar) faz surgir e/ou exponenciar em nós a curiosidade, a busca pelo saber, o esforço para estarmos à altura, a exponenciação da auto-estima, o optimismo como regra de vida, a incoercível e sublime auto-disciplina como critério vital, perene. A Saúde “não é a feijões”, não é nenhuma brincadeira.

A curiosidade começa por saber quem somos e donde vimos, por desvelar o próprio mistério que nós próprios somos, por ter como lema uma indefectível constância. A nossa unicidade não pode transaccionar-se, é com ela que temos que viver – e, para vencê-la, enfrentá-la. É um lugar-comum da sabedoria elementar que numa casa de muitos filhos eles são todos diferentes – até no físico – e toda a gente deve, igualmente, saber que a idade é apenas um número (mesmo que seja corrente remeter-se para a idade e que “as superficiais e estereotipadas imagens mediáticas nos pretendam dizer como nos havemos de sentir, a nós próprios”, nas palavras desse mesmo amigo). Mais. Para virmos à Vida não fomos ouvidos nem achados, como se diz em linguagem popular. Um bom antídoto contra a idade reduzida a um número é gozar a vida – tanto apolínea como dionisiacamente. Mas, como em tudo, “nada em excesso”, como diziam os gregos antigos (os actuais, pelos vistos, querem honra e proveito mas com pouco esforço...).
Guarda

*Conferência “Sobre a Saúde” proferida por Alves Ambrósio, na apresentação do Núcleo da Associação Saúde em Português, no dia 29 de Fevereiro.

Na Bula de proclamação do Ano Jubilar da Misericórdia que está em curso, o Papa Francisco convida a que a Quaresma deste Ano “seja vivida mais intensamente como tempo forte para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus” (Misericordiae Vultus, 17). Para tal, o Papa propõe como grande exercício a escuta orante da Palavra de Deus, com sentido profético. A partir daí, a misericórdia acontecerá naturalmente na história humana, sobretudo, nas circunstâncias mais frágeis e mais dramáticas da vida. Neste processo, Jesus é o exemplo. Ele é o rosto da misericórdia divina encarnada. Ele é misericórdia. Mas o que significa isso realmente?

A misericórdia, neste Ano Jubilar que lhe é dedicado, tem sido alvo de atenção de inúmeras conferências, colóquios, livros, revistas, artigos, homilias, sermões, retiros, programas de rádio, televisão e redes sociais. Desde a sua descrição etimológica, passando pelas suas múltiplas ligações a situações e personagens até à sua leitura através das chamadas “obras de misericórdia”, ela tem sido, com certeza, das palavras mais repetidas neste Ano, afirmando-se, desde já, como uma das palavras candidatas a palavra do ano. No meio de tantas palavras sobre esta palavra, podemos correr o risco de ofuscar o seu verdadeiro significado que, mais do que ser discutido, há de ser vivido, mais do que ser dito há de ser feito, mais do que ser retórica há de ser práxis. Daí a oportunidade deste tempo de Quaresma para a tal escuta orante proposta pelo Papa, voltada para o essencial e traduzida em gestos concretos. Como nos diz o Papa Francisco na sua mensagem para esta Quaresma, “a misericórdia de Deus transforma o coração do homem e faz-lhe experimentar um amor fiel, tornando-o assim, por sua vez, capaz de misericórdia”. A esta transformação pessoal traduzida em transformação social, o Papa chama “milagre”, o milagre das obras de misericórdia corporais e espirituais, que nos recordam que “a nossa fé se traduz em atos concretos e quotidianos, destinados a ajudar o nosso próximo no corpo e no espírito e sobre os quais havemos de ser julgados”. E esse próximo onde Cristo se torna visível domo “corpo martirizado, chagado, flagelado, desnutrido, em fuga... a fim de ser reconhecido, tocado e assistido cuidadosamente por nós” (Misericordiae Vultus, 15), tem nome, existe, desafia, torna credível, evangeliza, converte, aproxima, dá sentido, enfim, é misericórdia. “Com efeito - remata o Papa, é precisamente tocando, no miserável, a carne de Jesus crucificado que o pecador pode receber, em dom, a consciência de ser ele próprio um pobre mendigo”.

As pessoas privadas de liberdade são “corpo martirizado, chagado, flagelado” do próprio Cristo, como Ele próprio disse (Mt 25, 31-46). Nesta Quaresma, de um modo especial, somos chamados, também aí, a escutá-lo ativamente, a reconhecê-lo, a tocá-lo e a assisti-lo cuidadosamente.

A obra de misericórdia “visitar os presos” é, assim, um convite para todos os que se dizem cristãos, seja através da participação nas atividades de visita aos estabelecimentos prisionais associados aos serviços de assistência espiritual e religiosa que existem em todas as prisões do país, seja colaborando na prevenção e na reinserção de pessoas privadas de liberdade.

Perante o conforto dos nossos espaços e discussões filosóficas e religiosas, na “periferia” de uma prisão continua a gritar o clamor de tantos irmãos nossos que apelam ao exercício do nosso património humano e religioso. Mais do que teorizações, o nosso Deus implica ações. Mais do que discursos sublimes sobre a misericórdia, o nosso Deus implica gestos de misericórdia.

Só através de gestos de misericórdia como estes em favor das pessoas privadas de liberdade se aproveitará a Quaresma como tempo favorável e só assim a Páscoa acontecerá, não apenas no calendário mas na vida de cada um, tanto dos visitados como dos visitantes.

Paulo, voluntário prisional

Um homem com uma biografia impressionante – e não menos impressionantes exemplaridade, dignidade – usando a nua e crua linguagem da verdade, Henrique Neto, em entrevista ao Weekend, suplemento do Jornal de Negócios (5-XI-2010), declarou que se utilizam”técnicas da maçonaria” para dominar a verdade.

Voltando a falar da Europa, que me desagrada quanto ao seu modo de agir perante circunstâncias análogas. Cedo se começou a perceber que a parte rica da Europa queria através do seu poderio monetário pôr os pobres mais pobres, os dos países periféricos, à meia-ração.

José Augusto Sacadura Garcia Marques
Juiz Conselheiro do STJ (Jubilado)

Li recentemente o último livro publicado do escritor espanhol Javier Cercas, “O Impostor”, editado em Portugal pela Assírio & Alvim (1ª edição, Outubro de 2015), autor há dias premiado no 17º Festival Corrente d’Escritas.

Viagens ao reino de Clio

O CISNE NEGRO

O que é espantoso – e não é, já agora – é que nenhum dos candidatos que se apresentou à liça para Presidente da república