Hoje resolvi escrever sobre o dia vinte e sete de Maio.

Não sobre o de este ano que coincide com a data do jornal “A Guarda” com o número cinco mil setecentos e oitenta e seis, nos seus cento e dezassete anos de vida.Antes de mais vou ao meu caso pessoal: foi neste dia vinte e sete no ano de mil novecentos e sessenta, por sinal a uma sexta-feira e dia de mercado de queijo em Celorico da Beira, onde passei a mocidade e onde regressei depois da vida activa. Ao tempo contava nove anos de idade e por volta das quinze horas e trinta minutos fui atropelado por uma camioneta que por acaso transportava suínos. Numa curva pouco acentuada, não sei se por cansaço ou distracção, o motorista deixou ir o veículo para a berma, apanhou-me e projectou-me uns metros, vindo a cair com a cabeça no lancil do passeio. Tive uma fractura de crânio, que como se diz agora fiquei mais para lá do para cá.Sei que fui recolhido por um carro de aluguer com a praça ali na vila e bem perto e juntamente com os meus pais lá fomos a caminho da cidade da Guarda, pois como os serviços de assistência aos sinistrados estava a anos de luz do que é hoje, olhando à gravidade da situação e á distância era a única forma de tentar a salvação.Cheguei ao Hospital da Guarda, pelo que sei, um pouco depois das dezassete horas. Entrei no bloco operatório e fiquei entregue aos conhecimentos cirúrgicos do Dr. Silvano Marques, que ao tempo era o mais famoso clínico da cidade. Sei que operação não demorou muito tempo, recolhi à enfermaria ficando ao cuidado de um senhor enfermeiro, de quem nunca mais ouvi falar, mas que sei que tinha de nome Aparício. A ambos presto a minha gratidão.Do dia que aqui falei penso que apenas há duas pessoas no mundo dos vivos que o possam referenciar: eu, evidentemente e a minha santa mãe, que sentiu mais dores do que eu nas longas horas que lutei pela vida. Ainda está muito boa de memória, mas as dificuldades na mobilidade obrigam a que esteja numa casa de repouso com os seus noventa e dois anos.Também converso com frequência com o companheiro de escola que vinha comigo. Chama-se Abílio dos Santos. Nada apanhou pois vinha mais da parte mais afastada da faixa de rodagem.  Sei que tem tudo presente, mas claro que a data perdeu-se-lhe, penso eu!Mas para o dia vinte sete de Maio outro valor mais alto se levanta! É o Dia Nacional do Bombeiro Português, data em que se reconhece a coragem dos soldados da paz e pelo bem que prestam usam o mais distinto dos lemas “VIDA POR VIDA”.A sua acção não tem limites. Eles estão onde a desgraça aparece, tanto em naufrágios, acidentes rodoviários e ferroviários, em vários acidentes de trabalho, nos incêndios urbanos, ou os fogos florestais, que nos primeiros vinte anos deste século varreram além da urbanização, edificações de vária ordem, ligadas à vida agrícola, a residências, bem com ao sectores industrial e do turismo. Recordo aqui os dois maiores, que pelo menos são do meu conhecimento, com são os casos de Pedrógão Grande e de Oliveira do Hospital. Como é do conhecimento geral, as chamas lavraram pelos concelhos circundantes e muitas pessoas que circulavam de automóvel ficaram carbonizadas nos veículos em que seguiam.Frisei aqui um pouco daqueles que na saída hipotecam o regresso. Saem e não sabem se voltam, mas a espírito da função a isso obriga.Também tenho que dizer aquilo que sinto. Nunca dei conta que alguém das altas esferas tenha ficado em qualquer das operações de socorro. O seu tempo fica guardado para as comunicações televisivas, onde ostentam o seu peito muito bem composto.Mas é para o pessoal menor deste “Exército do Bem” que eu presto a minha homenagem, vergando-me sobre a memória dos que caíra em cumprimento do dever.Por aqui fico. Um abraço para todos.