Circunstâncias favoráveis levaram-me a poder viajar por algum tempo com familiares que estão a percorrer o continente americano, de Alaska a Ushuaia. Já tive o privilégio de viajar com eles, por mais duas vezes, pelos grandes parques naturais da América do Norte.


Deixaram as suas exigentes profissões, alugaram a sua moradia recentemente construída, compraram uma autocaravana, instalaram o essencial e o confortável, compraram mapas, guias e livros sobre os países por onde passarão em livrarias especializadas e lançaram-se na aventura que prepararam e sonharam há tantos anos.
Pretenderam fazer a viagem com os filhos em idade escolar. São pais, mas pretendem ser também professores e os filhos virão apresentar-se aos exames e encontrar os seus amiguinhos em tempo oportuno. Habituar-se-ão a uma vida nómada. Será difícil enviar-lhes um postal ilustrado no aniversário de algum deles, nem para a posta restante, pois não sabem em que lugar estarão no dia seguinte, já que nem todos os familiares usam meios eletrónicos para comunicar, estando ainda agarrados ao papel, ao prazer de escolher a melhor imagem, a beleza, a qualidade, a espessura, o cheiro a papel.
Têm uma relação com a mãe natura como com um personagem importante ou como uma entidade sagrada. Consultam os melhores guias e encontram-se nos lugares mais icónicos de cada país. Não perdem o belo pôr do sol no lago Titicaca, percorrem a pé, a subir, a descer e a contemplar as belezas de todos os meandros que restam do monumento arqueológico do Machu Pichu.
Vão à procura deles próprios, cavam nas profundezas do imaginário, procuram o insólito, o invisível, o mistério, o sagrado que habita em cada um de nós.
Procuram o contacto de semelhantes aventureiros que como eles procuram a beleza do mundo. Nem são necessárias apresentações, estão irmanados no mesmo ideal. Trocam endereços de sítios a visitar, de pessoas que ainda poderão encontrar. Consideram-se uma comunidade de viajantes. Mesmo se não se conhecem, podem pedir conselhos de itinerários, de lugares a visitar, de restaurantes onde poderão encontrar o típico, o verdadeiro.
Pretendem viver uma vida intensa com os filhos e testar a vivência do amor que juraram prometer-se um ao outro, nas mais variadas circunstâncias e bem longe do ramerrame e do cocooning em que a vida os tinha instalado.
Mesmo se os pais levam a sério a escolaridade que devem ensinar aos filhos através de cursos à distância, os programas têm as mesmas exigências que nas escolas onde estão inscritos, e apresentam-se presencialmente aos exames quando as exigências os obrigam. Completam a escolaridade com as intensas observações e inter-relações da própria viagem. Tornam-se necessariamente curiosos como os seus pais, interessam-se pelos animais selvagens ou domésticos e descobrem localmente os seus habitats. Visitam lugares de que os companheiros de escola talvez já tenham abordado, de uma maneira distante e livresca, no currículo escolar.
É certo que lhes faltará o convívio, a camaradagem, a vivência escolar com os seus colegas de classe, mas estou convencido de que adquiriram mais conhecimentos e mais maturidade.
É verdade que, como se costuma dizer, as viagens formam a juventude. Eu diria, formam o ser humano e a personalidade. Estou também convencido que viajar desta maneira forjam-se cidadãos de um mundo mais respeitador dos outros e da mãe natura.