«Viagem às Raízes»

Acontece frequentemente. Nas viagens que vamos fazendo, de turismo ou não, por esse Mundo a descobrir, entramos, aqui e ali, nos museus, sempre à descoberta, creio bem, da Humanidade que somos. E dizer “museus” é dizer uma Igreja, um Castelo, uma Praça, uma Rua, uma Fonte, um Palácio, um Jardim, umas Ruínas. Vamo-nos esquecendo, porém, do pequeno ou grande museu que temos bem à porta, mas cuja visita se vai adiando, mesmo que, às vezes, confrontados com exposições temporárias. Há dias voltei a entrar no Museu da Guarda. Passo diariamente em frente da sua porta. Mas confesso: procrastinando hoje, procrastinando amanhã, já passaram por ali exposições temporárias que não cheguei a visitar. Desta vez entrei, chamado por um painel exposto na parede esquerda do átrio de entrada. Tratava-se de um quadro de Sara Teixeira intitulado «Viagem às Raízes». Da «Arrifana», diz-se no canto inferior esquerdo. Mas a «Viagem» podia ser «às Raízes» das gentes de uma qualquer aldeia desta Beira outrora vivida.De um fundo amarelo dourado emergem diversas cenas da vida de outrora – as raízes de agora – em que, com singela harmonia, sobressai o branco e o preto e algum amarelo e castanho no desenho das figuras. Um belo painel a quente, não retratasse ele a vitalidade e o movimento de um povo que labuta, chora e reza, mas também canta e dança, mesmo que nessa vida se integre a própria morte. Uma espécie de retrato do Homem que fora expulso do Paraíso onde terão ficado as suas “Raízes”. Parei a olhá-lo demoradamente. De mais perto e de mais longe. Numa espécie de contemplação do memorial da Vida em que as Palavras e as Formas se casam numa harmonia perfeita. O tempo terá parado ali, fundindo passado e futuro nas «Raízes» de um instante eterno. Voltei a entrar naquele espaço mais uma e outra vez. Em vários dias. Sempre em «Viagem às Raízes» ou às voltas com as «Raízes», com as «nossas Raízes». De nós, portugueses. De nós, humanos. Onde se situa a “nossa” Arrifana?Andamos entretidos com a espuma dos dias, preenchidos com torrentes de informações que nos pintam as aparências das coisas e a decorrência dos factos. Vamo-nos assim esquecendo do significado que os acontecimentos podem engendrar para o sentido da vida, aquele que só o recolhimento e o silêncio do espírito podem desocultar. Aquele painel com a «Viagem às Raízes» de uma aldeia a poucos quilómetros da cidade da Guarda bem pode figurar outras viagens a outras «Raízes». É bem necessária, hoje como sempre, uma «Viagem às Raízes», apesar de andarem por aí, impando de força social, radicalismos de cá e de lá, que mutuamente se alimentam na praça das ideologias da superfície das coisas e da vida, gerando polaridades empobrecedoras se não mesmo potencialmente perigosas. Importa, pois, «ir às Raízes»; ser «radical», mas sem nos perdermos na labiríntica semântica das palavras. Vamos ao mais simples. A palavra «raiz» tem origem na palavra latina «radix» que significa “base” e “fundamento” e, compreensivelmente, ela aparece em muitos âmbitos do saber humano: da Anatomia à Gramática, da Matemática à Linguística, da Filosofia especulativa à Filosofia espontânea da acção diária. Mas creio bem que a “raiz” deste vasto campo linguístico estará sobretudo na Botânica de onde se expandiu, pela força da analogia, à generalidade dos campos da vida. Todos o sabemos. Na Botânica chamamos raiz de uma árvore à sua parte inferior que geralmente se encontra escondida na terra e cresce comummente na direcção oposta ao crescimento do caule, que a fixa ao solo de que retira a água e outras substâncias para se alimentar e frutificar. A vida da árvore depende, pois, da fixação e da absorção de nutrientes pelas raízes, sem esquecermos que algumas desempenham também funções de reserva.Já estamos a lembrar: a ”raiz” é fonte de vida, é uma palavra fundamental na vida humana. Ela é festa, é a beleza e alegria da fecundidade. A vida é “radical” ou devia sê-lo, porque se alimenta pela raiz. Há, no entanto, na linguagem humana uma permanente desqualificação das palavras. Impõe-se, por vezes, um esforço da sua revalorização. E um dos caminhos consiste em ir às fontes, em proceder a uma «Viagem às Raízes» das palavras. E aí está a palavra «raiz» que se constitui a raiz de muitas outras; «radical» e «radicalismo», por exemplo. Tomado à letra, um «radical» é aquele que vai às raízes. Resta saber a que raízes aí se vai para delas se alimentar ou para as destruir e arrancar. Servindo-nos da analogia com a planta, o «radical» verdadeiro será aquele que vai com sinceridade às raízes para delas extrair o essencial, delas se alimentar e nelas encontrar o “fundamento” e a “base” da vida. Será impropriamente chamado «radical» aquele que vai às raízes para as destruir esquecendo que matando as raízes se mata a árvore, tal como destruindo os alicerces se destrói o edifício. É a situação vivida pelos “radicalismos” que, no plano cognitivo se caracterizam por uma ideologia dogmática, intransigente e com uma visão dualista do mundo (esquerda/direita, bem/mal, preto/branco); no plano emotivo se evidenciam por um fluxo afectivo que, sem discernimento, se propaga acrítica e intensamente a membros de um grupo, e, no plano da acção, se alimentam de uma atitude contestatária, se não mesmo demolidora do presente. É por isso que um radicalismo é raiz de outros radicalismos de sinal contrário, como o mostram tantas situações do nosso contemporâneo.O seguidor do radicalismo não é propriamente um radical. É um radicalista. Um «radical» vai à raiz, realiza «Viagens às Raízes», não para as cortar, mas para as tratar, receber delas o húmus da vida e através elas crescer, florir e frutificar. Como uma árvore que recebe a seiva das raízes que a prendem à terra. As flores e os frutos completam as raízes tal como o presente completa o passado. A raiz assim é reserva de vida, tal como o passado é reserva do presente. Pobre de um povo que esquece o passado ou tristemente o pretende destruir. Passa a ser um povo sem raízes. Pode definhar, corre o risco de decadência e caminha para a morte. Onde se encontram as nossas raízes e como as tratamos, aí está a nossa vida ou a nossa decrepitude. Seja o indivíduo, seja uma pátria, seja um continente como a Europa, ou seja a Humanidade. Por isso me ocorrem as palavras de Miguel Torga (1907-1995): «É urgente acabar com a hipocrisia do mundo moderno e regressar à sinceridade grega: ser conviva dum banquete universal, e fazer por pensar bem durante ele.» Guarda, 30 de Setembro de 2020