A evolução dos instrumentos musicais está em permanente mutação sendo a experimentação, tradição e progresso fortes elementos transformadores.


A aquisição do novo órgão de tubos a colocar na catedral da cidade deu o mote para os artigos de opinião que convosco partilho. Como tal, é prioritário que a reflexão de hoje seja sobre o órgão de tubos, sua origem e evolução.
Desde a mais antiga das culturas espalhadas pelo mundo, a música e a religião estiveram sempre intimamente ligadas, sendo praticadas como um ato de meditação, contemplação ou oração.
Na história da música ocidental, os mosteiros e conventos foram locais de vanguarda da erudição e do pensamento musical. No século VI, foram os primeiros organizadores de uma “escola” de aprendizagem e de formação musical e, mais tarde, no século XII, surgiram os primeiros centros de erudição em instituições que conhecemos atualmente como universidades.
Na era cristã, inicialmente a música vocal, por estar associada à ação divina, era o único instrumento permitido na música sacra, enquanto os instrumentos musicais estavam ao serviço das interpretações profanas – profano não significa anti-igreja, mas sim uma demarcação do âmbito sacro ou litúrgico. Por conseguinte, o órgão como instrumento aliado ao culto só bem mais tarde será introduzido em ambiente religioso.
O órgão de tubos teve como seu precursor o hydraulis, instrumento criado na Grécia Antiga, no século III AC. Com o seu teclado, tinha a capacidade de produzir um som de forte intensidade, e era vulgarmente usado em cerimónias de rua. Comparativamente com os instrumentos existentes na época, pela sua dimensão, projeção sonora e mecanismo, este instrumento foi desde a sua origem admirado e apelativo, sendo usado para entreter, mas igualmente para deslumbrar e atrair ouvintes.
No século IV o órgão de foles, já um protótipo do órgão de tubos, fazia parte do ambiente de corte do império bizantino e romano. E, no século VIII, o imperador romano do oriente ofereceu um grandioso órgão com tubos de chumbo a Pepino Breve, pai de Carlos Magno, o futuro imperador dos romanos, num gesto semelhante à bem posterior e também deslumbrante oferta de um elefante feita por D. Manuel I ao Papa Leão X.
Mas só no século XIV o órgão se aproximará da imagem que hoje nos é familiar. Até esta época estes instrumentos, apesar da sua dimensão e peso, eram móveis. Já nos séculos XIV/XV, com o pensamento musical renovado e procura de uma exaltação espiritual e exuberância maior, começa a fixar-se estes instrumentos nas igrejas beneficiando-as com a grandiosidade dos seus efeitos e dimensões musicais. A Alemanha e a França tornam-se os territórios onde há um maior domínio musical deste instrumento, não sendo de estranhar que seja nesta época e espaço territoriais que vamos encontrar os primeiros instrumentistas com a função de organistas oficiais de igreja. Recordem-se nomes como Conrad Paumann ou Arnold Schlick, alemães, que marcaram a história da música interpretativa como organistas. É a partir daqui que o órgão como instrumento harmónico, ou seja, com a possibilidade de tocar vários sons em simultâneo – contrariando o instrumento melódico que, apenas produz um som de cada vez –, vem a tornar-se um dos instrumentos musicais de teclas impulsionador da evolução da escrita composicional que, pela primeira vez, nos separa do oriente. Com o conceito de uma composição harmónica, o ocidente marca a sua posição na inovação musical, passando de uma composição na horizontal onde o compositor tinha o cuidado de uma escrita melódica de linha única e independente para a composição na vertical onde a escrita é feita numa perspectiva global de sintonia harmónica, onde as combinações sonoras, consonantes ou dissonantes, têm todas um papel na homogeneidade sonora.
A crescente composição de obras para órgão aliadas ao progresso na construção de órgão de tubos no Barroco, fazem da música deste género o expoente máximo da criação musical neste período histórico. Organeiros alemães como Arp Schnitger ou Gottfried Silbermann, deixaram os seus nomes no mural da história, onde, com certeza, presentemente o espanhol Fréderic Desmottes, também deixará a sua marca com a construção do novo órgão de tubos na Sé da Guarda.