Um dos achados arqueológicos que testemunha a história da música na vida humana é precisamente uma flauta de há 40 000 anos,

ou seja, da era pré-histórica. Uma questão pertinente, pois num período em que supostamente o homem deveria ter como prioridade zelar pela sua sobrevivência como a daqueles que o rodeavam, não deixa de ser questionável como é que ele dispensava tempo e cuidado a construir um instrumento musical. Não me refiro às primeiras manifestações rítmicas ou sonoras, mas sim a um instrumento musical em si.
Importante sublinhar que um aspeto a ter em conta perante tal realidade se prende seguramente com o efeito que as condições acústicas das próprias cavernas potenciariam.
Já em pleno século XIX, Charles Darwin, um dos grandes personagens da história social, além de escandalizar parte da humanidade com a sua teoria científica sobre a evolução humana, defendeu que o emergir da música em ambientes de grupo pode ser visto de forma análoga à prática das aves canoras nos seus rituais de chilreio – uma forma de expressão que provoca a aproximação dos seus semelhantes numa procura de proximidade, encantamento, emoções e sentimentos entre pares. Vemos, assim, como a condição musical e acústica pode interferir no desenvolvimento social e afetivo da evolução humana.
A arte musical, há semelhança de outras artes, é um veículo em constante movimento que estimula experiências estéticas e emocionais. Uma experiência que pode ser vivida apenas de forma passiva, quando, por exemplo, nos deleitamos com a escuta de uma obra ou de um espetáculo, em que o nosso foco se centra apenas na escuta, sem conseguir ir mais além, por falta de conhecimento. A vivência musical restringe-se a uma resposta a um estímulo e à expressão de (des)agrado. Não é pouco, mas se, pelo contrário, optarmos por uma experiência ativa em que o conhecimento construído pela curiosidade se alia ao prazer da escuta e desvenda mistérios, mensagens ou códigos que a obra artística compreende, o grau de encantamento alia-se ao aprofundamento dos sentidos.
Poder compreender o contexto histórico de uma peça musical, ter algum tipo de conhecimento sobre o compositor ou obra, saber a evolução de um instrumento leva-nos a uma escuta atenta e aberta, a uma estesia que o conhecimento densifica.
Nos últimos tempos, vários meios de comunicação local têm noticiado que a catedral da cidade aguarda por um novo órgão de tubos. Não sendo novidade o uso de instrumentos musicais naquele espaço – é do conhecimento geral a existência de um pequeno órgão e de outros agrupamentos instrumentais nas mais diversas celebrações, - a verdade é que a existência de um órgão de tubos, que faça justiça ao espaço em si, trazer-nos-á novas experiências. Poder assistir à execução de uma obra musical num espaço como a Sé da Guarda, onde as condições acústicas potenciam o deslumbre, será para todos um acontecimento ímpar.
O órgão de tubos é um instrumento musical que atravessou séculos de história e tem a particularidade de poder ser tocado apenas com os pés, na pedaleira se o intérprete assim entender.
Confesso que é com elevada curiosidade e expectativa que aguardo por um momento musical desta dimensão, com uma sonoridade renovada e afinada. Aliar o meu conhecimento musical à grandiosidade de uma experiência musical única que, com toda a certeza, será muito bela!