Voltar a Vale de Espinho em pleno mês de Junho, na altura da trezena das festas de S. António,

voltar precisamente no mês em que o tinha deixado, há cinquenta anos, numa madrugada de juventude e de sonho, voltar acompanhado da minha filha mais nova que olha para esta aldeia, ainda virgem, com olhos de espanto e de recolhimento por ser a aldeia do pai,  voltar a Vale de Espinho fora da grande concentração, dos meses de julho e agosta, repleta então dos seus conterrâneos residentes nas grandes cidades, dentro e fora do pais, é ir ao encontre da tradição, da serenidade, da natureza selvagem, do saudável reconforto daqueles que ainda lá vivem e sobretudo do imprescindível amor dos que nos são mais queridos. Quando penetrámos na aldeia já quase toda a gente dormia. Ouvia-se aqui e ali uma ou outra televisão e os mais aficionados viam até ao último desfile as marchas de Santo António, em Lisboa. Cansada da viagem, dizia-me ela: “estou desejoso de ver esta aldeia à luz do dia”. 0 encontro entre a juventude e a idade adulta, a modernidade e a tradição, foi exemplar. Não era necessário dizer muitas palavras para haver compreensão nos rostos e nos olhares. Havia intuição nas atitudes e nos gestos e sintonia no acolhimento familiar. A minha filha estava encantada. Em menos de cinco hora tinha mudado completamente de ambiente. O frenesim da cidade tinha caído. Agora era o sossego da noite e o repouso reconfortante, ao perceber a paz que sentia fluir da tranquilidade do pai que aqui tinha nascido e crescido. Embora nascida longe da aldeia, parece que sempre a teria guardado na sua memória. Agora reconhece-a e é a sonhar nesta aldeia que vai dormir a primeira noite. Também eu dormi como um justo. Tanto as paredes das casas como as pedras da calçada estavam a reconhecer-me e não estranhavam também a presença da minha filha. Parece até que lhe davam as boas-vindas ao passear-nos nas ruas e quelhes da aldeia. Já à tardinha, estava eu no comércio da minha irmã, e no meio de uma conversa familiar e rotineira chegou-me aos ouvidos o murmúrio tranquilo que provinha da reza da trezena de Santo António, que me fez passar a um outro registo mental. A minha irmã, intuitiva como sempre, fez-me notar: “ainda ontem chegaste e a trezena faz-te lembrar as tradições de outros tempos!”, coma se eu tivesse sido transportado para o mundo maravilhoso das lembranças da minha infância. A emoção foi mais sentida quando parece ter ouvido a ladainha de Nossa Senhora, ainda cantada em latim: Santa Maria, Santa Dei Genitrix, Santa Virgo Virginum, ora pro nobis, pro nobis dei. Uma força irresistível puxou-me para dentro da capela para ouvir ao vivo aquele canto religioso, ainda não esquecido, após tantos anos, que os jovens mordomos de S. João e os adultos cantavam a pulmões cheios para entusiasmar o povo que se preparava a passas largos para a grande festa. Ali fiquei ao lado da minha filha e já não conseguia encarrilhar com as invocações da ladainha. Em sonho, tinha-me colocado ao lado da minha irmã mais velha. Deixei-me então penetrar pela suavidade e serenidade daquele canto que me encantava, tentando reconstituir materialmente a capela de S. António na sua versão de há cinquenta anos. 0 teto de madeira, pintado de azul celeste, em forma semicircular, o arco agora de pedra, mas então estucado, a imitar o mármore cor-de-rosa, o altar de S. João ainda colado· à parede, o Santo António ao lado, e tudo num ambiente caloroso, à luz de velas a cintilar nos rostos dos homens e das mulheres que abarrotavam a capela. A minha filha, que estava ao meu lado, notou que eu tossi, me assoei e limpei duas lágrimas com o polegar e o indicador da mão esquerda. Era difícil esconder por mais tempo a emoção que se tinha apoderado de mim. Transportado para uma realidade de há tantos anos, a trezena tinha passado depressa. A capela pareceu-me ter ficado cheia e deu-me a impressão de ouvir o nosso saudoso Pe. Carlos a fazer o seu habitual sermão de Santo António, não de Pádua, mas de Lisboa. Ao mesmo tempo que me parecia que o ia ouvindo, imaginava-me a caminhar para Assis, cidade de Itália que eu tinha visitado com as minhas filhas, havia alguns anos, para ver a terra do grande companheiro de Santo António que foi S. Francisco de Assis, e onde também a emoção me tinha invadido. A mensagem de simplicidade e de pureza evangélica daqueles dois santos franciscanos levara ao mundo de então uma necessária lufada de ar fresco que ainda perdura, passados que foram vários séculos.