Se vai!... Vai um cafezinho?

Se vai!... Num livrinho publicado em 2004 (1.ª edição portuguesa em 2005) com o título “A Ideia de Europa”, o ensaísta e filósofo George Steiner, falecido no dia 3 do passado mês de Fevereiro, escreve logo no início do texto: «A Europa é feita de cafetarias, de cafés.» Estranho dizer! Mas logo a seguir traça as coordenadas que circunscrevem o espaço europeu dos cafés, de Oeste a Leste e de Norte a Sul, esses cafés que vão da cafetaria preferida de Fernando Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa e dos cafés de Copenhaga aos balcões de Palermo. E conclui: «Desenha-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da “ideia de Europa”.»O texto de George Steiner dá o título ao pequeno volume de pouco mais de 50 páginas que também integra um de Rob Riemen, director fundador do Nexus Institute (centro internacional sediado na Holanda dedicado à reflexão e debate cultural e filosófico), onde Steiner, conferencista convidado, apresentou este texto. Li os dois textos há uns bons anos e voltei a lê-los agora por três razões: primeiro, pelo recente falecimento de Steiner; depois, pela situação em que se encontra a Europa que não consegue vislumbrar um caminho de unidade na solidariedade para lidar com a pandemia que a assola; terceiro, pela necessidade de nos recolhermos em casa, nós europeus, cujo «mapa das cafetarias» constitui um dos «marcadores essenciais da “ideia de Europa”». A Europa parece encontrar-se suspensa pela pandemia do vírus, pela falta de solidariedade entre as nações que a integram e também pelo estado de emergência que manda fechar as cafetarias e ordena que os europeus se mantenham em casa. «Ir para casa» e «ficar em casa», eis o lema destes tempos pandémicos.«Ir para casa» e «ficar em casa» são expressões que dão que pensar. Se «ficar» indica permanência, um estar, «ir» é um verbo de movimento, indica dinamismo. Juntando-as, temos um movimento ao serviço de um fim: «ir para casa» é para «ficar em casa», permanecer em casa, não sair. Não se trata de um simples «ir a casa» que pressupõe o movimento de «ir» e de «regressar» ou voltar a «sair». Em estado de emergência «sair» é um verbo condicionalmente conjugado. Se não for para trabalhar e prestar um serviço necessário à comunidade, sair será excepção, será ir para rapidamente se regressar a casa e aí ficar. «Ficar em casa» constituiu-se como a normalidade de uma espécie de estado de vida. E quem for encontrado na rua fora da lei poderá ouvir aqueles verbos conjugados no imperativo. “Vá para casa” e “fique em casa” é a intimação da autoridade que zela por nós nas ruas e caminhos das nossas tradicionais andanças.Há «diferenças ontológicas», escreve Steiner, entre o pub inglês e o bar irlandês ou americano e o café europeu. O café europeu, escreve, «é um local de entrevistas e conspirações, de debates intelectuais e mexericos»; é o local onde o poeta se inspira e o metafísico reflecte «debruçado sobre o bloco de apontamentos»; «Aberto a todos, é todavia um clube, uma franco-maçonaria de reconhecimento político ou artístico-literário e presença programática»; é um local onde, a troco de uma chávena de café ou de uma qualquer bebida se pode «trabalhar, sonhar, jogar xadrez ou simplesmente permanecer aquecido durante todo o dia.» E, como que a concluir, acrescenta: «Enquanto existirem cafetarias, a “ideia de Europa” terá conteúdo.»Como podemos «ir para casa» e «ficar em casa», nós europeus, se «A Europa é feita de cafetarias, de cafés» onde medra a vida social, política, literária, artística, filosófica? Como podemos nós viver sem ir ao habitual café a horas do costume para ler um jornal, conversar com os amigos, inteirarmo-nos dos eventos da terra e comentá-los, mexericando ou não, com bonomia, cinismo ou humor? Como poderemos passar sem remodelar governos, europeus, nacionais ou locais. sem as tertúlias costumeiras enquanto se toma um café ou outra qualquer bebida, quente ou fresca, em conformidade com o tempo ou o apetite de ocasião? Onde é que um bom português europeu, pode conversar, sonhar, jogar, ou simplesmente permanecer aquecido durante o tempo que bem entender?É verdade que as tecnologias modernas permitem outros meios de comunicação, mas isso é outra coisa. A máquina electrónica, se possibilita ver e ouvir o outro, retira o sabor da presença, da proximidade física, e chega a ser um obstáculo para a convivência grupal, a satisfação imediata de uma resposta amiga, a prática da dialéctica que se expande ao gosto e ao sabor do pensar espontâneo dos membros de um grupo mais ou menos alargado num espaço social onde se entra e sai à vontade, se está ou se trabalha, se conversa ou se medita, se lê ou se escreve.O famigerado coronavírus aparece como tempestade em mar revolto a obrigar-nos a uma reorientação do olhar, seja na nossa própria casa, seja no pequeno Portugal ou na casa comum da velha Europa, se não no Mundo. «Ir para casa» e «ficar em casa» bem podem ser vistos como metáforas da necessidade de nos recentrarmos, no nosso espaço caseiro, mas também no espaço europeu, essa casa comum que parece ameaçar desmoronamento quando seria de esperar uma visão mais profunda e rica pela qual, transpondo o “deve” e o “haver” do campo económico-financeiro alicerçado num juridismo de muros, pudesse reencontrar o real humanismo de visão, raiz de um humanismo de acção, pátria da solidariedade entre os estados.Steiner termina assim o texto: «É entre os filhos frequentemente cansados, divididos e confundidos de Atenas e Jerusalém que poderíamos regressar à convicção de que “a vida não reflectida” não é efectivamente digna de ser vivida.» Razão e Fé, diríamos nós, «as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade» conforme as palavras de João Paulo II na complexa Encíclica “Fides et Ratio”.Na homilia do dia 27 de Março havida na Praça de S. Pedro vazia, mas cheia da Humanidade, o Papa Francisco teve estas palavras: «A tempestade [Covid 19] põe a descoberto todos os propósitos de “empacotar” e esquecer o que alimentou a alma dos nossos povos; todas as tentativas de anestesiar com hábitos aparentemente “salvadores”, incapazes de fazer apelo às nossas raízes.» E, mais adiante, acrescenta: «Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente.»Confinados às paredes da casa, enquanto tantos se encontram «fora de casa» porque não têm casa ou para que nós possamos «ficar em casa», bem poderemos redescobrir as nossas raízes, «aquilo que alimentou a alma dos nossos povos». Será, talvez, como realizar uma visita memorial a Atenas e a Jerusalém para um novo encontro entre a Razão e a Fé, as duas asas do espírito humano, tantas vezes pairando na história em equilíbrios instáveis se não mesmo em inquietantes desequilíbrios. Depois… - bem, não sabemos quando – depois, recentrados em Atenas e Jerusalém, talvez possamos regressar aos “cafés” e “cafetarias” e aí cantar em Paz a Beleza da Vida. Vai um cafezinho? Se vai!... Mas nunca esquecendo que estamos todos no mesmo barco, como, de Roma, nos lembra Francisco.Guarda, 16 de Abril  de 2020