Histórias que a Vida Conta

1 - Tendo presentes as necessidades e as expetativas, deve dizer-se com clareza que a vacinação dos portugueses continua a avançar em marcha de caracol. Um exemplo: até ao fim de março ainda em curso, devia haver dois milhões de vacinados com a inoculação das duas doses das vacinas que o exigem; mas, na realidade, vai haver quinhentos mil vacinados nessas circunstâncias. Ou seja, um quarto do previsto… As razões são várias:  falta de produção e distribuição das vacinas, problemas com as vacinas da AstraZeneca, dificuldades de planeamento, vicissitudes demonstrativas de improvisação e de incompetência – basta ter presente o episódio de hoje em Carnaxide, com centenas de idosos avisados para levarem a vacina à mesma hora, obrigados a aguardar a pé e ao sol durante largas horas –, alegada falta de locais e de pessoal de vacinação,  dispensa do recurso às farmácias, notícias desencontradas ou até contraditórias, ziguezagues permanentes na definição dos grupos prioritários para vacinação, propaganda, propaganda e mais propaganda … Por estas e outras razões, o certo é que o progresso é tímido, num momento em que não nos podemos dar ao luxo de perder mais tempo. Um simples dia de (mais) atraso implicará mais infetados, mais internados e mais mortos!Desde o primeiro dia que o plano de vacinação nacional (se de um plano se pode falar), ignorou ou secundarizou a vacinação da população mais idosa e vulnerável, não residente em lares. Com dificuldades várias e depois de vencidos diversos obstáculos, lá se decidiu incluir na primeira fase as pessoas com mais de oitenta anos. Nunca percebi a desconsideração das autoridades de saúde pelos idosos e deficientes residentes e confinados nos seus domicílios, sendo certo que são os mais vulneráveis e com maior probabilidade de não sobreviverem à doença se tiverem a pouca sorte de ser contagiados, não obstante a adoção de todos os cuidados por sua parte.E agora, com o início para breve da segunda fase (será de facto assim?) ninguém fala dos septuagenários e dos idosos que se seguem em idade. Não é exato dizer que “ninguém fala”. Na verdade, o Bastonário da Ordem dos Médicos, pessoa qualificada, competente e sensata, a quem ouço com particular atenção por me parecer ter quase sempre razão nas propostas que apresenta, tem dito que, até por razões de facilidade e clareza do processo, se deveria continuar a vacinação seguindo o critério da idade, por ordem decrescente da mesma. Mas as autoridades de saúde ou nada dizem ou continuam a preferir “meter na fila da vacinação” outras categorias que assim passam à frente dos mais velhos e deficientes. Vejo nisso razões oportunistas, ainda que seja fácil enroupar tais “infiltrações” com boas justificações de natureza social, cultural ou económica. Mas, em minha opinião, não há motivo para continuar a desfigurar o critério da idade. Basta pensar que o número de óbitos entre idosos/deficientes infetados é muito elevado. Que diferença existe, em termos de probabilidade de desenlace fatal, entre um idoso com 78 ou 79 anos, deficiente com elevado grau de incapacidade, com dificuldades respiratórias, hipertenso e obeso e um octogenário, incluído (e bem) na primeira fase de vacinação?É certo que o meu caso cabe justamente no grupo dos idosos com 79 anos, com deficiências e doenças que não vou enumerar por razões privacidade. Mas o facto de nada fazer para antecipar a minha chamada à vacina não me impede de manifestar a minha discordância e, até, a minha revolta contra critérios que não posso aceitar. Como se sabe, não é fácil subsumir as patologias de que se sofre - e que estão bem à vista, são factuais e têm suporte documental médico abundante -, na lista de doenças que permitem alargar a vacinação a quem tem mais de 50 anos. Mas o meu Centro de Saúde dispõe de todos os dados habilitantes em ficheiro. Por isso continuo a aguardar. Mas não me conformo com “ultrapassagens” por gente mais nova, saudável e bem relacionada, no pleno exercício das suas capacidades físicas e intelectuais.Ou seja, continuo a aguardar, mas estou indignado com tanta falta de respeito pelos mais velhos. Na verdade, se eu – ou outros como eu – vier(mos) a ser contagiado(s) pela Covid19, as perspetivas que me/nos esperam são muito sombrias. Parece-me por isso que a contínua ultrapassagem por pessoas mais jovens e saudáveis não se justifica, uma vez que o risco de sobrevivência, em quadros tão distintos é completamente diferente.2 - Neste ano anómalo, sem gente nos estádios, o meu Sporting Clube de Portugal (SCP) tem proporcionado aos seus adeptos indefetíveis, entre os quais me incluo desde os cinco anos de idade, muitas alegrias e esperanças. À 24ª jornada o SCP vai em primeiro lugar com 10 pontos de avanço sobre o segundo (o FC Porto), 13 sobre o terceiro (o SL e Benfica) e 14 sobre o quarto (o Sporting de Braga). Começo a ter esperanças na vitória final mas continuo a ter medo de o confessar. Bem faz o nosso sensacional treinador Rúben Amorim em recusar vaticínios triunfalistas. Na verdade, há 19 anos que não somos campeões! Com uma equipa jovem, com muitos jogadores da formação – o que só por si merece aplauso e apoio, numa Liga onde F.C.P. e S.L.B. jogam com raros jogadores portugueses -, o SCP constituiu um grupo coeso e ambicioso que, para grande amargura e desespero dos escribas e papagaios de serviço em jornais e canais televisivos, tem vindo a cimentar a sua posição e a consolidar expetativas junto da sua massa adepta. Uma coisa já conseguimos: retirar da cara e do verbo de jornalistas e comentadores o sarcasmo, a troça e a mordacidade, por vezes a grosseria pesada, quando se referiam ao nosso clube, às suas insuficiências e incapacidades. Figurinhas e figurões que, semana a semana, faziam pouco do SCP, esquecendo a sua história e o brilho de tantos campeões que ali se formaram, passaram a falar mais baixo e com mais respeito.Vão-se entretendo agora com questões laterais como a queixa da Associação dos Treinadores de Futebol contra Rúben Amorim ou o 5º cartão amarelo mostrado ao João Palhinha. Dá vontade de rir ouvi-los dissertar solenemente sobre questões jurídico-desportivas, com a mira apontada ao leão. Permitam-me uma singela pergunta: porquê esta obstinação contra o nosso jovem e brilhante treinador, comunicador sagaz, jovial e dotado de fina ironia e nem uma palavra crítica a esse modelo de truculência, mau perder e má educação que é Sérgio Conceição, que, quando a vida não lhe corre bem, transforma o seu discurso num lamaçal de fúrias, palavrões e faltas de civismo?Vamos ser campeões? Não sei, ainda falta muito campeonato e … “leão escaldado de água fria tem medo”. Mas vou começando a ter esperança. O SCP tem sido a razão das minhas poucas alegrias neste ano tão triste e diferente.Lisboa, 24 de março de 2021