1 – Desta feita não vou falar de guerra.

Isto porque o acontecimento político internacional da semana passada consistiu na eleição do Presidente do Brasil, o que a nós, portugueses, não pode deixar de nos interessar e afetar.

Tratou-se de uma segunda volta muito disputada, num ambiente ultra-agressivo de violência verbal e física. Os debates entre Lula e Bolsonaro caracterizaram-se por insultos, troca de acusações e, sobretudo, uma aflitiva indigência de argumentos consistentes quer nos debates, quer nos comícios. Muita gritaria, muitos insultos e falta total de uma discussão serena e construtiva. Foi triste assistir ao desenrolar da campanha. De um lado, um enorme entusiasmo popular expondo uma divisão do país em duas fações extremadas; do outro, dois candidatos de baixo perfil intelectual e cultural, apenas empenhados em amesquinhar o adversário, com insultos soezes que, de tão repetidos, já nem pareciam fazer qualquer mossa ao destinatário. De “mentiroso compulsivo” e “criador de fake news” a “presidiário”, “ladrão e corrupto”, cresceram as injúrias ao longo de um mês de campanha para a segunda volta, depois de meses a fio de lavagem de roupa suja que, pelo que se viu e ouviu, continuou (muito) suja!
As pessoas que admiram o Brasil e estimam os brasileiros perguntavam-se perplexas, como era possível ter-se chegado ao ponto a que se chegou: a escolha entre dois candidatos com uma falta de qualidade e de bagagem tão evidentes. Como é que um país com tanta gente superior no mundo da literatura e das artes, com oradores e pensadores distintos e respeitados, iria ter de escolher o seu Presidente da República na base do “mal menor”? É certo que a ideologia e a praxis eram, para cada um dos eleitores, por demais evidentes e fincavam-se em campos exatamente opostos – diria ferozmente antagónicos – e estavam definidos à partida pelo que não havia lugar a dúvidas ou hesitações. Era ou “cara” ou “coroa”, mas em qualquer caso, sempre uma “escolha do Diabo”… E, valha-me Deus!, francamente!, no Brasil há muita gente muito, mas mesmo muito melhor, mesmo nesses campos extremados. A eleição ficou, a meu ver, a dever-se mais ao repúdio do que à adesão. Os fatores negativos pesaram mais do que os positivos. O voto por um era um voto contra o outro. E o resultado foi um quase empate: menos de 51% para o vencedor; mais de 49% para o vencido.
A Lula da Silva esperam-no, nos próximos quatro anos, trabalhos ciclópicos. Como já se escreveu são, pelo menos, 12 trabalhos de Hércules: “reunir um país dividido, gerir a rejeição, reformular o Orçamento, lidar com um rombo nas contas, escolher um Ministro da Economia consensual, negociar com um Congresso à direita, saciar os parlamentares clientelistas, acomodar todos os novos aliados do Executivo, enfrentar a militarização do Planalto, mudar radicalmente a política em áreas como ambiente, educação, cultura ou direitos humanos e reformar as relações internacionais” – cfr. “Diário de Notícias”, de 1 de novembro. E mais uma, inadiável e imediata: assegurar uma transição civilizada e eficaz entre governos. Os primeiros indicadores são preocupantes. Bolsonaro, no seu estilo troglodita, não felicitou o rival vencedor até hoje, dia em que escrevo, tendo, numa declaração minúscula e algo hermética, mostrado que iria dar concretização à passagem de poderes e aconselhado, mais tarde e muito timidamente, os seus apoiantes que cortaram autoestradas e bloquearam o trânsito em inúmeros Estados a exercerem o seu direito de manifestação dentro dos limites da Constituição e da Lei, sem violação, v.g., do direito de “ir e vir” aos seus concidadãos.
A vitória de Lula tem um significado que se estende a toda a América latina, acentuando a sua viragem à esquerda. Para além do Brasil, da Argentina, do Chile e da Colômbia, na América do Sul, o grupo progressista inclui também o México, de Alberto Obrador, na América do Norte. O PT de Lula derrotou um símbolo da direita ultraconservadora nos costumes e neoliberal na economia protagonizada por um Jair Bolsonaro, que, paradoxalmente, não saiu mais fraco das eleições com os seus mais de cinquenta e oito milhões de votos.
2 – Aproveitei o último fim de semana e o Dia de Todos os Santos para ir, com as minhas Mulher e Filha, à Guarda e à aldeia. Revi alguns lugares que me dizem muito e de que já tinha saudades. Quanto mais avanço na idade, mais concluo que a Guarda é a minha terra, onde me sinto mesmo bem. Aquele ar fresco, a própria chuva de um Outono húmido, são, para mim, revigorantes. Fazem-me sentir mais leve e esquecer que a minha mobilidade já deixa muito a desejar. Peso a mais, passo inseguro, maior nível de cansaço, tudo me recorda os oitenta anos que já conto. Mas, na Guarda, por vezes, sinto-me o jovem que lá fui. Subo a “31 de Janeiro”, ladeando o “meu quintal”, atravesso a “Judiaria”, cruzo a “Praça Velha”, olho com tristeza para alguns edifícios de granito bastante degradados, entre os quais o da antiga Câmara Municipal, entro na Sé, subo até ao liceu (mais edifícios em granito a precisarem de restauro!), desço a Rua do “Encontro”, olho o Paço Episcopal, atravesso o Largo de São Pedro, ou, voltando atrás, a Rua da Torre, admiro a “Torre dos Ferreiros”, revejo a grande espingarda de madeira que encima a porta e preenche uma boa parte da fachada da espingardaria e que, em miúdo, desatava a minha imaginação juvenil, e, qual Sandokan em potência, sonhava enfrentar os piratas nos mares da China. Ao fundo, viro à direita, entro na Rua Tenente Valadim e vou descansar no Hotel “Santos”, onde, em boa hora, reservámos quartos para estas noites. Magnífico local, sossegado e limpo, com um restauro admirável das suas pedras de granito, efetuado com bom gosto e engenho, obra do Arquiteto António Carvalho. Dá gosto admirar os recantos e o aproveitamento daqueles espaços, as salas de estar, o convívio de materiais antigos e modernos, incrustados entre as pedras, os quartos bem aproveitados, toda a pujança e beleza das muralhas e do granito incorporado na construção. Não quero outro local na Guarda para passar alguns dias. Faz-me vir à memória o meu Tio, Dr. Antero Marques, a Tia Maria José e o Alberto Marques, que já partiram e nos deixaram muitas saudades e recordações, e que viveram na Rua Tenente Valadim. Faz-me recordar também a Senhora Dona Bertinha, que foi uma grande Amiga da minha Tia-Avó, Mariana Sacadura, e antiga proprietária da casa fronteira ao Hotel “Santos”. E, embora o tempo fosse breve, fiquei grato pelo atendimento e simpatia com que nos acolheram no Hotel o Senhor Alberto Gonçalves, o filho Carlos, e, á distância, a D. Clara, que fizera as marcações e que concluí ser a “alma” do Hotel. Percebi que têm bons projetos futuros para a sua atividade na hotelaria e, a julgar pelo que já realizaram, acredito que se traduzirão numa real valorização urbanística para aquela zona da cidade.
Um sorriso na minha cidade, a desvendar-se cada vez mais fascinante, de formosa e de faceira.
Lisboa, 3 de novembro de 2022