Uma viagem hilariante

Gosto de viajar de comboio. Além de razões facilmente compreensíveis, sempre aproveito para ler algumas páginas de um livro. Não sei porquê, mas a leitura no comboio, junto a uma janela, dá-me um sabor especial. As letras do livro parecem ganhar um significado especial conjugadas com a paisagem que foge. A não ser que…A não ser que me calhe em sorte algum grupo barulhento que acha que toda uma carruagem está interessada nas suas conversas. Ou então a não ser que um qualquer viajante passe o tempo a falar ao telemóvel, bem alto, com as mais incríveis conversas e os mais incríveis assuntos que se possam imaginar. Não acontecerá só comigo. E os leitores já terão passado por situações destas. Mas também pode haver casos de conversas caricatas que se ouvem com curiosidade e bonomia.Foi há tempos, numa viajem para Lisboa. Na estação de Pampilhosa entraram dois cavalheiros que vieram ocupar os lugares mesmo atrás de mim. Falavam com voz moderada, mas não pude deixar de seguir a sua conversa, até porque, a certa altura, comecei a achar graça. Interrompi a leitura e fechei o meu livro. Aliás, era tempo de algum intervalo na leitura para descanso dos olhos.A certa altura, a conversa virou para a política. Comentários e opiniões banais sobre isto e aquilo. Até que um deles – não percebi em que contexto - se saiu com esta:- Os primeiros-ministros deveriam ter cognomes como outrora tinham os reis. Via-se que aqueles cavalheiros se lembravam bastante bem da História de Portugal pois foram enumerando dinastias e evocando reis com os seus cognomes. Foi nesta sequência que outro comentou:- Tinha graça dar cognomes aos primeiros-ministros! E que cognome daríamos a António Costa?Fiquei curioso. Fez-se algum tempo de silêncio. Julgava eu que a conversa ficaria por ali. Abri o meu livro e prontifiquei-me a retomar a leitura. Mas logo continuaram. Com maior interesse, aliás. Fechei novamente o livro. Não conseguia dar atenção à leitura.- O cognome de António Costa podia ser “Raposa” - aventou um para logo começar a dissertar defendendo a sua tese, cruzando elementos da psicologia raposeira com cenas da biografia política do Primeiro-Ministro.O diálogo ficou animado. Se um dizia que a raposa era caçadora aprimorada e oportunista e que apanhava vivas as presas, logo o outro acrescentava que fora isso que havia feito António Costa com António José Seguro. Quando este se encontrava bem vivo mas um «poucochinho» distraído, António Costa caiu sobre ele como faz a raposa às aves incautas de um qualquer poleiro. O mesmo fez depois – iam acrescentando - com a vitória «poucochinha» de Passos Coelho sobre a qual caiu António Costa com o seu resultado eleitoral ainda mais «poucochinho» mas que, de forma crepuscular e nocturna, como fazem também as raposas, logo engendrou uma estratégia de caça. E concluíam: assim vai António Costa armazenando as suas caçadas, tal como vão fazendo as raposas que armazenam no solo o excesso de alimento (fiquei eu também a saber) para posterior consumo oportuno. Um deles ainda disse:- Vendo bem as coisas, todos os políticos são “raposas”! Mas não deixo de reconhecer que António Costa é uma raposa de excelência! Um raposão! – acentuou.Mas não tardou que se lançassem outras hipóteses. Um sugeria:- O cognome de “Cuco” também não lhe ficaria nada mal! Até lhe ficaria melhor!Pareceu-me que os dois cavalheiros não seriam tão especialistas em psicologia cuculídea como na raposeira. Mas ainda assim, foram justificando a hipótese cognominal de António Costa. Se um dizia que o cuco é aguardado como sinal do fim da austeridade do Inverno e a chegada da Primavera, logo o outro acrescentava:- Seja, mas o cuco é sempre um mau presságio para muitas aves. O cuco é um parasita e utiliza os ninhos feitos com o labor de outras aves. São outras aves que lhe incubam os ovos e lhe alimentam as crias. Como aconteceu com António Costa. Tem posto os ovos no ninho feito por Passos Coelho que teve que preparar o ninho com a austeridade forçado pela desgovernação anterior de que António Costa também fez parte, embora o finório se tenha disfarçado para preparar a investida.O interlocutor mantinha-se, então, em silêncio. O primeiro continuou a defender a tese. E acrescentava: - Além disso, os cucos são manhosos como a raposa. O cuco fêmea sabe seleccionar bem o momento adequado e espera, matreiro, pela ausência dos donos, para rapidamente se acercar dos ninhos escolhidos e pôr lá o seus ovos. A conversa estava a ultrapassar os meus conhecimentos cuculídeos. E creio que o cuco também não seria muito da especialidade do outro cavalheiro, porque interrompeu o companheiro para perguntar:- Como assim? Então a fêmea não põe todos os ovos no mesmo ninho?- Qual quê? De maneira nenhuma, segundo consta no saber de raiz campestre. Os cucos espalham os seus ovos por diferentes ninhos para assegurarem maior probabilidade de sucesso. - Uma espécie de geringonça cuculídea! - logo concluiu o outro.- Nem mais, compreendeste lindamente! Não pode haver melhor imagem – assegurou o primeiro.Naquele momento, tive que suster, com dificuldade, uma sonora gargalhada. Também eles riam com vontade. Aguardava eu, com curiosidade, o desenvolvimento da metáfora, quando um concluiu:- O cuco é um cognome mais adequado, porque, além do mais e como se vê, o cuco é tão matreiro como a raposa.Fez-se depois algum silêncio. Parecia-me que haviam chegado a um acordo. O cognome adequado para António Costa seria “Cuco”. Mas um deles ainda acrescentou com bonomia: - O cognome de “Ilusionista” também poderia servir para António Costa.Mas imediatamente o outro retorquiu com vigor: - Não, de maneira nenhuma, nem pensar. Com um ilusionista somos enganados mas temos consciência disso, e até nos divertimos. Mas com António Costa somos todos enganados e, com os seus malabarismos governativos, são poucos os que têm consciência do engodo. Só alguns, conhecedores dos truques, vão aproveitando bem a situação. A maior parte, porém, vai cantando e rindo ao som da austeridade camuflada de nomes lindos. Esses, talvez sejamos nós também, vão empobrecendo alegre e tristemente. Ainda se fosse «Ilusão»!...Chegaram ao términus da viagem. E eu também. Saímos todos do comboio e encaminhámo-nos em direcções opostas. Tive pena. Estava a saborear a boleia da conversa. Fiquei sem saber quais seriam aqueles «nomes lindos». Nesse dia ficaram por ler algumas páginas do meu livro, mas tive um bom brinde no comboio! Bem hajam, companheiros de viagem. Bem merecem a minha gratidão.Vem aí o Carnaval. Não tenho dúvida: aqueles cavalheiros estariam muito bem numa comissão de festas carnavalescas. E, certamente, fariam boa figura na animação de um corso em qualquer ponto do país. Se alguém os encontrar por aí, diga-lhe que têm aqui um admirador.Guarda, 5 de Fevereiro de 2020.