Uma viagem ao Sri Lanka e uma homenagem a Pedro Tamen

Título estranho este, para alguns, talvez! Para outros, não assim tão estranho já que nos encontramos em tempo de férias! Mas a viagem de que aqui se escreve é uma viagem outra para além das férias. Embarcamos nos primeiros versos de Os Lusíadas de Luís de Camões, aqueles que toda a gente conhece e que muitos até poderão recitar de cor. Depois servirão eles também para embalar a nossa viagem. «As armas e os barões assinaladosQue, da Ocidental praia lusitana,Por mares nunca dantes navegadosPassaram ainda além da Taprobana.»Taprobana, que volta a aparecer no Canto X do poema, é aquela ilha em forma de pera ao sul da Índia por onde passaram os navegadores portugueses para irem mais além, para o Oriente Extremo. Vamos ficar por lá. Não para ali passarmos uns dias de férias, que os tempos não são propícios a tal. Nem para cantar, com Camões, «As armas e os barões assinalados» que também por lá terão deixado pedaços da nossa língua. Vamos ficar pela ilha para assinalar cá um encontro com a cultura de lá.Eram três irmãos que viviam na Taprobana. Irmãos e príncipes, daqueles que aparecem nos contos de fadas e que continuam a encantar as crianças. E não só. Também encantam quantos, não sendo crianças, sabem ler as mensagens escritas no nosso enraizado inconsciente colectivo, onde se alojam os grandes símbolos da humanidade do Homem. Ficaram estes príncipes imortalizados num conto por fazerem descobertas inesperadas em que parecem conjugar-se, em harmonia perfeita, o acaso, a observação e a sagacidade dos três heróis. Um conto de fadas, portanto. Foi a partir dele que o escritor inglês Horace Walpode (1717-1798) criou, em 1754, a termo “serendipity”. Este conto intitula-se “Os Três Príncipes de Serendip” e Serendip era o nome que os comerciantes árabes davam àquela ilha a que Camões, servindo-se do termo utilizado pelos cartógrafos gregos antigos, chama Taprobana. Os portugueses chamavam-lhe Ceilão e hoje é o Sri Lanka.Ficaram, pois, estes príncipes imortalizados neste conto infantil e imortalizados ficaram também porque ligados a uma palavra que muito se vulgarizou nas últimas décadas, particularmente no universo das descobertas científicas e invenções tecnológicas: “serendipity”. Este termo inglês está na origem da palavra portuguesa “serendipidade”. Ela não será muito comum para a generalidade das pessoas e, para algumas, poderá mesmo ser desconhecida. Para essas a serendipidade explode na alegria da descoberta. Ela é um anglicismo que em nada desmerece a nossa língua. É ela que, passando pela inglesa “serendipity”, nos conduz à Taprobana de Camões, ao Ceilão dos nossos antepassados e ao actual Sri Lanka. Uma viagem bem interessante, não? Aqui se cruza a História, a Geografia, a Literatura. Aqui se revive um encontro de culturas.Se a palavra poderá ser estranha, não será estranho a ninguém o que ela significa. Vai acontecendo com toda a gente. No trabalho profissional ou nas lides domésticas; na rua ou no recanto de um laboratório de ciência. E até num banho de imersão tomado numa usual tina ou corriqueira banheira. Não sei bem quando tal termo se atravessou no meu caminho pela primeira vez. Mas sei que a fui encontrando naquele ponto da existência humana em que a criatividade e a imaginação dão luz para a inovação, a descoberta e a invenção. Era uma vez um homem, insaciável e curioso, que se passeava pelas ciências: matemática, física e astronomia. Além de pai de vários inventos. Nascido na colónia grega de Siracusa, na Sicília, por volta de 287 a. C., o seu nome é Arquimedes e passa por ser um dos principais cientistas da Antiguidade Clássica. Cientista encartado, não lhe faltariam questões problemáticas para resolver. Mas havia um problema que o vinha atormentado especialmente. Seria de ouro a coroa do rei de Siracusa? Hierão II, logo que assumira o trono, pretendeu presentear os deuses com uma coroa de ouro. Para tal, contratou um artista e colocou-lhe à disposição uma quantidade determinada daquele metal. Na data acordada, o ourives entrega ao rei a coroa. Aparentava ela uma execução perfeita. Mas um dia começam a correr rumores na cidade de que o artista havia subtraído parte do ouro e a teria substituído por prata. Depressa – os boatos voam como o vento – os rumores chegaram aos ouvidos do rei. Naturalmente indignado e ignorando como poderia ser descoberta a possível fraude sem danificar a coroa, Hierão socorre-se do cientista do reino e o problema do rei passou a ser o problema de Arquimedes. Estava em causa a vontade do rei que importaria não defraudar, mas estava em causa também a sua glória como cientista. Um dia – quantas vezes isso não teria já acontecido – observa que a água ia subindo até transbordar à medida que o seu corpo entrava na banheira. Foi então que se fez luz. Arquimedes descobrira o método para resolver o problema do rei. Diz-se que o entusiasmo foi tal que saiu da banheira e, esquecendo-se até de se vestir, voou pelas ruas a gritar “eureka”, a palavra grega que significa “achei”, “encontrei”. Realizado o teste com a coroa, confirmou-se a justeza dos rumores. Arquimedes descobre assim um princípio da Física que ficaria celebrizado com o seu nome: “Todo corpo mergulhado num fluido em repouso sofre, por parte do fluido, uma força vertical para cima, cuja intensidade é igual ao peso do fluido deslocado pelo corpo.” E “eureka” ficou na história. Esta palavra grega tornou-se um termo de uso universal.A historieta, lendária ou não, é frequentemente apresentada como exemplo célebre de serendipidade: acasos fortuitos que frutificam em descobertas e invenções de que a história da ciência está cheia. O dicionário Houais – outros dicionários do português existentes em casa não registam a palavra – define a serendipidade como «aptidão, faculdade ou dom de atrair o acontecimento de coisas felizes ou úteis, ou de descobri-las por acaso.» A definição proposta é obviamente problemática. Se é verdade que podemos um dia descobrir casualmente qualquer coisa que antes muito procurámos em vão, é também verdade que, mais do que um dom, a serendipidade é uma aptidão desenvolvida com trabalho e esforço. Thomas Edison diz que nenhuma das suas invenções fora feita por acaso e que elas são resultado de um por cento de inspiração e noventa e nove por cento de transpiração.Poderemos imaginar Arquimedes, vigiado por guardas e de coroa na mão, a examiná-la meticulosamente de todos os lados; a rascunhar cálculos matemáticos; a passear solitário e ensimesmado entregue aos seus pensamentos; a olhar para as estrelas e procurar uma qualquer inspiração nos astros; a adormecer e a acordar com a imagem da coroa na mente. Poderá até ter sonhado com ela e com o rei que aguardava impaciente a solução do problema. Tudo terá contribuído para se fazer luz na tranquilidade de um banho. Será bem verdade que só acha sem procurar aquele que muito procurou sem ter encontrado. Na ciência, na arte ou em qualquer ramo da actividade humana. E até – creio não ser abusivo dizê-lo - nas intuições dos grandes santos que souberam ler os «sinais dos tempos» impressos indelevelmente na sua vida. Aí, porém, será outro o termo mais adequado.Narra o poeta Pedro Tamen, recentemente falecido, que tivera um acidente quando escrevia um poema ao volante do automóvel, chocando com um eléctrico ao subir a Rua da Misericórdia, em Lisboa. Também a criatividade poética passará por momentos inesperados em que a serendipidade explode em frutos maduros. A serendipidade poética abriu-se ali como uma flor a ser sentida e acolhida pela caneta do poeta. Como acolhidas foram as descobertas inesperadas dos três príncipes de Serendip. Guarda, 18 de Agosto de 2021