Há uma macieira no jardim. Haverá, certamente, outras macieiras noutros jardins.

Também havia uma macieira no primeiro jardim da criação, como impropriamente se foi impondo numa tradição. Mas aqui, é a macieira do jardim da minha cidade. A Guarda é a minha cidade. É a Guarda que tem uma macieira no velhinho jardim central. Jardim José de Lemos é o seu nome. É no Jardim José de Lemos que existe uma macieira. Não uma macieira qualquer, mas uma macieira identificada e catalogada. Muitos andarão pelo jardim sem nunca terem descoberto ali, meio escondida entre outras árvores, uma “vulgar” macieira. Prova de que é necessário aprender a olhar.Casualmente, um dia, ao atravessar o jardim, descobri uma pequena placa no tronco daquela macieira. Diz assim: “Autóctone / 7 / MACIEIRA / Malus domestica / Borkh”. Eu já a havia descoberto há uns tempos, num ano em que ela se encontrava carregadinha de maçãs. Nesse dia, foram elas que despertaram a minha atenção. Mas, na altura, não me apercebi de qualquer placa identificadora. Descobri-a neste Verão, precisamente quando carregava poucas maçãs. Foi por isso que olhei mais para ela e mais atentamente a observei.Fiquei intrigado com a placa, de modo particular com aquele enigmático “7”. De princípio, imaginei que todas as plantas do jardim estariam identificadas e catalogadas. A macieira seria a árvore n.º 7. Dei, por isso, uma volta ao jardim a olhar para todos os troncos das árvores, rodeando-os para observar cada um de todos os ângulos. Cheguei a pensar que quem assim me visse até poderia julgar que não estaria de todo bem da cabeça. Mas não. Estava bem, assim o creio. Era antes um cidadão da terra a satisfazer uma curiosidade científica. Não encontrei, todavia, mais nenhuma árvore identificada no jardim a não ser aquela macieira. Precisamente a árvore que eu sabia identificar. Creio saber, embora não seja botânico. Era um exemplar “Bravo de Esmolfe”, a macieira que, desde 1994, possui Denominação de Origem Protegida (DOP) definida na legislação da União Europeia e que, desde há muito, vem dando fama à povoação de Esmolfe no Concelho de Penalva do Castelo.Como terá vindo ali parar a macieira? Quem a terá plantado? Quem lhe vem colhendo os frutos? Quem lhe terá comido as primeiras maçãs, e as outras, cada ano? Quem saboreou o mel que as abelhas fabricaram com o néctar das suas flores? Uma longa história andará associada a esta macieira, ali, macieira solitária entre outras árvores do jardim. Quantos noivos se fizeram fotografar enfeitados pelos seus ramos e abraçados à robustez do seu tronco? E quantos terão um dia aberto ali a Bíblia e lido empolgados o diálogo amoroso do “Cântico dos Cânticos”? Na poética deste poema bíblico há todo um mundo de metáforas elaborado também a partir de um extenso jardim. O “Cântico dos Cânticos” é um lugar encantado onde Ele e Ela, o homem e a mulher, se cruzam num tecido de sombras, aromas e frutos. Se aí encontramos plantas de menor porte como o nardo, o narciso, o açafrão, o aloé e a açucena, também lá encontramos outras de razoável porte como o cipreste, o cedro, a figueira, a romãzeira, o cinamomo, a palmeira, a nogueira, a mandrágora, a mirra e o zimbro. Também lá se encontra a macieira e o seu fruto, a maçã, em três dos capítulos.O “Cântico dos Cânticos” é um belíssimo poema bíblico que celebra o amor humano. Nele se fala de um par de noivos. É, fundamentalmente, um canto de amor e paixão, desse amor eterno que é “forte como a morte” e que é reflexo ou expressão, espiritual e alegórica, do amor apaixonado que Deus tem pela Humanidade. Se ele, o noivo, canta «Açucena entre espinhos / É minha amada entre as jovens» (II, 2), logo ela, a noiva, responde: «Macieira entre as árvores silvestres / É meu amado entre os jovens: /À sua sombra quisera sentar-me / E comer dos seus frutos saborosos.» (II, 3). Depois é ele, o noivo, a cantar o hálito da noiva comparando-o ao «aroma de maçãs» (VII, 8) para seguidamente cantar o seu eterno amor de eleição: «Sob a macieira te despertei / Aí onde tua mãe te deu à luz / Com dores de parto. (VIII, 5)Como é sabido, uma antiga tradição identifica a árvore paradisíaca do fruto proibido com a macieira. A etimologia latina – “malus” (mau/macieira) e “malum” (mal/maçã) - terá contribuído para a sua disseminação. Muitos artistas aproveitaram esta identificação. Aproveitaram-na e terão contribuído para a sua consolidação. Seja, como exemplo, o quadro “Adão e Eva” de Lucas Cranach (1472-1553) do renascimento alemão. A serpente, junto a Eva, encontra-se enrolada ao tronco da macieira de onde pendem três Maçãs. Eva, com a mão direita, entrega uma maçã a Adão enquanto esconde, com a mão esquerda, outra atrás de si. Adão tem os olhos dirigidos para o rosto de Eva e não para a maçã como que a dizer que é por estar seduzido por ela que ele aceita a maçã. Mas os artistas terão contribuído também para a difusão de uma nova visão da maçã. Se encontramos telas com a imagem de Eva e Adão a colher ou a comer uma maçã, presenteiam-nos outras pinturas com uma nova configuração deste fruto. A maçã possui um sentido relativamente ambíguo durante a Idade Média. Como, aliás, ainda hoje. Se ela é símbolo da sedução, da malícia e do pecado, ela expressa também a redenção. Frequentemente o Menino é representado com uma maçã na mão. Outras vezes a maçã é entregue ao Menino por anjos, por João Baptista, ainda menino, ou por um doador anónimo. Ou então, a maçã surge numa mesa, onde se encontra também um pedaço de pão, símbolo da Eucaristia. Nestas representações pictóricas, a maçã não expressa o pecado, a condenação ou o mal; ela possui um sentido positivo: o da redenção e salvação oferecida à Humanidade.Poder-se-ia invocar aqui o quadro “A Virgem e o Menino” do pintor antes referido. Mas olhemos agora, também como exemplo, para o quadro “Nossa Senhora e o Menino” de Carlo Crivelli (1430/5-1500). Aí, Maria e o Menino encontram-se engrinaldados num belíssimo arco tecido de ramos com maçãs; Nossa Senhora oferece uma maçã ao Menino, e outra maçã está colocada num pedestal. É a maçã da renovação humana. Há uma macieira no jardim da cidade. É também lá que se encontra – assim eu imagino - um presépio todo ele feito de Esperança. O Menino, acabado de nascer, ainda não possui a elasticidade de mãos para poder segurar uma maçã. Com os seus deditos, porém, aponta o azul do céu já povoado de nuvens brancas a servirem de asas aos anjos cantantes da festa do nascimento. É Inverno e nem a macieira tem maçãs. Mas os seus ramos já recebem a seiva divina para poderem florir e frutificar na Primavera de todos os tempos.Não, a macieira do jardim da minha cidade não é uma “vulgar” macieira. É uma macieira Outra. Santo Natal.Guarda, 8 de Dezembro de 2021