Sabe-se que em tempo de guerra, a verdade não existe.

Paralelamente a uma guerra no terreno, existem ainda outras guerras que estão bem dissimuladas e cujas razões e objectivos só se conhecerão muitos anos depois. A guerra da informação é muito importante, mas importante é também a guerra do silêncio que coloca o inimigo num clima de ataque de nervos.
Nesta já designada guerra da Ucrânia, há estratégias que se vão desenhando que nem sequer estavam na agenda de uns nem de outros e, sub-repticiamente, há guerras que se estão a travar que nem sequer estavam previstas.
Normalmente, os meios de comunicação social não pretendem fazer análises deste conflito. Limitam-se a transmitir-nos os faits divers, para nos suscitar a compaixão ou a solidariedade. É evidente que esta guerra é uma verdadeira catástrofe nunca antes imaginada, mas há ainda outras que é possível que tenhamos de enfrentar.
Há uma que parece estar a desenhar-se que é a designada desdolarização da economia mundial e que alguns peritos apontam como sendo o actual jogo de Putin.
Evidentemente que as sanções para com o regime russo foram muito fortes, mas é possível que não se tenham medido todas as consequências.
Uma delas foi a proibição das transações em dólares do Banco Central Russo, o que quer dizer que os biliões de dólares que a Rússia detinha, de um momento para o outro, deixou de ter, deixou de os poder utilizar. Não servem para nada. O dólar que é, actualmente, a moeda do comércio internacional pela qual se compram as matérias primas, a Rússia não o pode utilizar. Alguns economistas já classificaram esta sanção de autêntico roubo. O mesmo é dizer que, se um particular tiver uma conta em dólares e, de um momento para o outro, os mesmos forem cativados, talvez tenhamos de designar este acto pelo mesmo nome, de roubo.
A Rússia, ao exigir aos países ocidentais a compra do gás, do petróleo e das restantes matérias primas em rublos, está a transformar a designada guerra da Ucrânia numa guerra de supremacia de moedas. E não duvido que não esteja a ser aconselhada pela China que, aparentemente, não quer intervir na guerra real, mas esta, a da supremacia das moedas interessa-lhe, verdadeiramente. A prova é que a Rússia está a vender matérias primas à China, pagas em Yuans. E se outras potências mundiais, como o Irão, o Iraque, a Índia, a Arábia Saudita se juntarem a esta maneira de agir, caminharemos para uma autêntica desdolarização da economia mundial. E, tal como em 1945, os acordos de Breton Woods criaram o chamado padrão-ouro, e, em 1971, o Presidente Nixon, suspendeu a conversão do dólar em ouro, é muito possível que nesta guerra da Ucrânia estejamos a assistir a um efeito colateral de consequências inimagináveis: as moedas dos designados países ocidentais — o dólar e o euro— poderão ser substituídas brevemente pelo Rublo e o Yuan, o que pode transformar substancialmente o mundo em que vivemos.