Visitar um preso é tornar-se presente a quem vive ferido na própria imagem e oprimido pela pena,

mas é também entrar no mais profundo da nossa humanidade, na sua debilidade e na elevação e grandeza da sua dignidade.
Hoje trago um convite para entrarmos num cárcere de Pavia. Não, não é a Pavia do nosso Alentejo, mas a Pavia dos anos crepusculares do império romano. Estamos em 524 d. C. e ali se encontra, acusado de traição e sem qualquer esperança de regressar ao poder e à antiga glória, um aristocrata da família dos Anícios. Órfão de pai ainda jovem, viria a ser adoptado por Símaco, nobre romano, com cuja filha, de nome Rusticiana, viria a casar. Chama-se Anício Torquato Severino Boécio, uma das figuras mais estimulantes na fase final da desagregação do império romano. Colocando sempre o seu esmerado saber ao serviço do bem comum, havia atingido um lugar de topo na corte do rei Teodorico.
Socorrendo-se da vasta cultura, fruto da esmerada educação que se lhe proporcionou nos tempos da juventude, escreve no cárcere uma obra cheia de encanto, literário e filosófico, que se dá pelo nome de “Consolação da Filosofia”. É um diálogo entre o autor e a Filosofia que, em forma de mulher, o vem consolar da situação de “nuvens sombrias” que sobre ele se vieram encastelar. Escrito em forma de prosímetro – alternância entre a prosa e a poesia - , a prosa serve para o processo argumentativo tão específico das teses filosóficas, sendo a parte poética cantada pela Filosofia para confirmar os resultados do diálogo filosófico da prosa.
A Filosofia surge, alegoricamente, em forma de mulher, cujos elementos descritivos evocam profundas ressonâncias significativas. Aí vai o seu retrato: “Enquanto eu reflectia silenciosamente sobre estas coisas para comigo e escrevia com um estilete o meu lacrimoso queixume, vi aparecer junto de mim, por sobre a minha cabeça, uma mulher de rosto venerando, olhos cintilantes e perspicazes mais do que a normal capacidade humana, de cor vívida e de um vigor inexaurível, embora fosse tão carregada de anos que de modo algum se pensaria que fosse da nossa geração, com uma estatura difícil de definir. Na verdade, ora se reduzia ao tamanho normal dos homens, ora parecia tocar o céu com o cimo da cabeça. E, quando erguia a cabeça mais alto, penetrava no próprio céu e escondia-se da vista dos homens que a contemplavam.”
Sem considerarmos o facto de a Filosofia ser personificada na figura de uma mulher, o que poderia prestar-se a interessantes considerações, até porque a reflexão filosófica até então, como até quase aos nossos tempos, era uma actividade exercida por homens, atentemos aos traços do quadro e continuemos a leitura atenta da descrição.
“As suas vestes eram tecidas com requintado lavor, com finíssimos fios e com um material indissolúvel, que, como depois percebi quando ela avançou, ela própria tecera por suas mãos. A beleza destas vestes tinha sido coberta por uma patine de vetustez negligenciada, como costuma acontecer com as imagens fumosas. Na sua fímbria inferior lia-se um Pi grego, na superior lia-se um Theta bordado, e entre as duas letras, à maneira de uma escada, viam-se marcados alguns degraus, para se subir por eles da letra inferior para a superior. Porém as mãos de homens violentos tinham rasgado esta mesma veste e arrebatado os pedaços que cada um conseguira arrancar. Na sua mão direita estavam os seus livros, na esquerda tinha um ceptro.”
A alegoria é perfeita e, se é verdade que o título expressa a consolação oferecida aos homens pela Filosofia, não deixará de ser verdade que a Filosofia é também aqui consolada, arrebatada que fora em “pedaços que cada um conseguira arrancar” e cuja veste “as mãos de homens violentos tinham rasgado”. Linguagem alegórica, certamente, para retratar a situação infeliz em que se encontrava a Filosofia naquele final de época. Talvez como esta nossa em que os escritos dos “filósofos da moda” mais parecem ser estudos de sociologia, de uma outra qualquer ciência social, ou, quando muito, “pedaços que cada um conseguiu arrancar” à veste de “finíssimos fios e com material indissolúvel”, permanecendo desta forma no “Pi” grego da escada da Sabedoria. Aí adormecemos, quantas vezes, navegando à superfície da vida e ofuscados pelo brilho efémero das coisas! Sofrendo de “letargia, doença comum dos espíritos enganados”, vamo-nos esquecendo daquilo que em verdade somos, enquanto humanos, sem visão nem força para escalar os outros degraus. Como já outros disseram, fomos perdendo em Sabedoria o que ganhámos em conhecimento e vamos perdendo em conhecimento o que andamos ganhando em torrentes de informação com que preenchemos os dias e entretemos a vida.
É a escada da Sabedoria que esta “Consolação da Filosofia” nos faz escalar em cinco preciosos livros. Enxugaremos com ela as lágrimas dos nossos olhos, se começarmos por superar a doença infantil por que passamos sempre em épocas de crise: ignoramo-nos na plenitude do nosso ser.
Como o autor, poderemos lançar os queixumes dos nossos dramas e tragédias que nos levam a perguntar com desespero: “Se Deus existe, de onde vem o mal?”. Mas, com esperança, não deixemos de formular também outra pergunta que tantas vezes esquecemos: “De onde vem o bem, se Deus não existe?” É que, mais do que de mal, estamos rodeados de Bem, mesmo no cárcere de uma qualquer Pavia. Subindo por ele, lentamente, poderemos descortinar o nosso Supremo Bem e lá chegaremos ao degrau superior do “Theta” grego em que a nossa liberdade se encontra com a Providência divina.
Anício Torquato Severino Boécio é só Boécio para os historiadores de Filosofia, mas é S. Severino para o calendário das festas cristãs. Hoje, dia 23 de Outubro, é a sua festa. Visitámo-lo no cárcere de Pavia e ele visitou-nos com a sua Sabedoria nas prisões em que tantas vezes nos encontramos, em cárceres a que nós próprios nos condenamos, escravos de tantos ídolos com que muito nos fantasiamos. A Misericórdia divina também se revela na Bondade dos Seus santos.
23 de Outubro de 2016