Enquanto escrevo, os meios de comunicação social, mormente os canais de televisão, vão-nos enchendo com números,

com percentagens, com deputados eleitos e outros por eleger, com gráficos e comentadores, com painéis de opinião e análise, com líderes políticos a serem aclamados por entusiásticos militantes, enquanto outros vão fugindo à palavra, à espera de melhores números ou tentando redigir um texto em que uma derrota visível se torne menos dramática, pela substância sublime da estatística, essa grandiosa «arte de mentir com rigor».
Eu por mim, fico a olhar para aquelas percentagens de abstenção, do elevadíssimo número de portugueses que passa ao lado das mesas eleitorais, talvez com indiferença, talvez com desconfiança, talvez sem esperança, talvez desesperados perante as agruras da vida e as incertezas do futuro. Tudo, talvez, porque a campanha eleitoral tenha sido pobre, pouco mobilizadora, se não desmobilizadora, pouco esclarecedora, pouco ou nada verdadeira.
Eu fico a olhar para aquela percentagem de abstenção, tento compreender os abstencionistas, e olho para trás, para os dias de campanha eleitoral, lembrando o título que Eça de Queirós deu a uma colectânea de textos, Uma campanha alegre. E fico a pensar como a campanha eleitoral foi alegre só à superfície, porque ela foi-se passando bem tristemente em profundidade e mais triste ainda na fuga sistemática aos grandes temas, cujo tratamento, discussão e debate, tem vindo a ser sistemicamente adiado. E cá vamos vivendo, cantando e rindo, como se não houvesse amanhã, onde os nossos filhos e netos talvez tenham muito a chorar enquanto apontam o dedo à nossa irresponsabilidade.
Ouço aqui e ali, a jornalistas e comentadores de serviço, que a elevada abstenção não foi por falta de oferta. De facto o boletim de voto ofereceu ao eleitor uma série de nomes e símbolos, terminados no quadradinho para a formalidade da cruzinha. Formalmente a oferta foi muita, de facto. Mas, realmente, onde esteve a informação clara sobre aquelas ofertas? Que possibilidades tiveram de se apresentarem ao comum cidadão?
Mas o problema não esteve só aí. Também os conteúdos veiculados sistematicamente pelos partidos com assento na Assembleia da República ficaram muito aquém daquilo que seria de exigir numa democracia adulta. Tudo se jogou na superfície das coisas, na rama da vida, no presentismo hedonista que esquece o futuro. Onde esteve o debate esclarecido sobre temas onde se joga o futuro do país, da Europa e da humanidade? Por isso se me levantam as perguntas em catapulta. Aí ficam algumas, na esperança de que alguma possa cair em bom pano com que se tece o futuro.
Onde ficou a estratégia para aproximar os políticos dos cidadãos e os cidadãos da vida política do país?
Onde ficaram os caminhos para melhorar o sistema político e o sistema eleitoral?
Onde ficou a conjugação do desenvolvimento económico com a sustentabilidade do planeta?
Onde está um esclarecimento sério sobre uma ecologia integral e sustentabilidade do planeta, que vá para além de algum fundamentalismo sobre a vida animal que parece ter em Portugal, mais direitos do que a vida humana?
Onde estão as medidas, sempre anunciadas mas sempre fugidias, para o combate à corrupção?
Por onde andaram os debates sobre os grandes temas internacionais em geral, e da Europa em particular, a começar pelas consequências para os portugueses de um brexit sem acordo?
Onde está uma análise cuidada e tão necessária da situação em que se encontra a língua portuguesa em razão do AO90 (Acordo ortográfico e 1990), tão atabalhoado na feitura como apressado na sua pretensa aplicação ou imposição?
Onde estão as medidas para superar a partidocracia que nos atrofia e que tanto limita a vivência democrática e a participação dos cidadãos?
Onde ficaram os planos de combate ao despovoamento e desertificação do interior, para além de promessas genéricas, pontuais ou de ocasião?
Onde está o debate e discussão esclarecida sobre as consequências a médio e longo prazo do domínio estrangeiro sobre os sectores estratégicos?
Onde ficou uma discussão e esclarecimento claro sobre a dívida pública?
Onde ficou um debate, discussão e esclarecimento sobre a situação e futuro do sistema de segurança social?
Por isso a minha convicção: esta campanha eleitoral, como muitas outras, foi uma ocasião perdida. Bem sei que as campanhas eleitorais como têm sido realizadas, em que, no meio de tanto alarido, as discussões ficam reduzidas a um combate de pugilistas, como se o opositor fosse um inimigo a abater, não se presta para a discussão dos grandes temas, mas isso só prova que os partidos e responsáveis políticos têm de pensar noutro modelo de campanha.
O mesmo se diga da comunicação social, particularmente dos canais televisivos. Se querem corresponder, como julgo, à responsabilidade social que possuem, têm de assumir campanhas que vão além da luta pelas audiências, privilegiando o sistema socialmente estabelecido. Os seus critérios de campanha não têm sido, como, segundo creio, deveriam ser, os problemas, as clivagens sociais, os novos fenómenos emergentes, mas têm vindo a privilegiar critérios pretensamente objectivos no domínio eleitoral, como maiorias absolutas, alianças entre partidos presentes da Assembleia e o sempre batido e estafado marca-passo de direita e esquerda.
Ouvi um político dizer (e cito de cor): com tanta oferta, se tanta gente não votou foi porque não quis. Poderá ser verdade, mas o querer humano, como a liberdade, é sempre um querer condicionado. Por isso a pergunta: e por que razão o eleitor não quis e se absteve? As razões poderão ser muitas, mas, em última instância, numa democracia partidária a responsabilidade será dos partidos. Pelo ideal ou falta de ideal com que se apresentam, pelo exemplo democrático que vão dando ao cidadão, pela justeza das suas acções, pela coerência de vida e de política.
Está a terminar a noite eleitoral, no momento em que se deitam os foguetes. Uns são de estrondo e outros serão de lágrimas. Num caso como noutro, perante tão elevada abstenção, há uma pergunta à procura de resposta: como podemos melhorar a democracia, antes que os seus inimigos internos a empobreçam mais ou dêem cabo dela?
Guarda, 6 de Outubro de 2019