A palavra “ladrão” na nossa linguagem quotidiana é utilizada com vários significados. Chamamos ladrão ao árbitro que não apitou um penalti a nosso favor, referimo-nos como tal a quem nos faz pagar os impostos, ou mesmo àquele agente policial que nos acoimou, bem como ao que nos vendeu gato por lebre.


O caso que vos passo a descrever remonta a meados da década de quarenta do século passado, teve como cenário a quinta onde moro e fui criado, bem como outra propriedade rural, que fica quase contígua, apenas com um caminho rural a servir de separação. Em cena entram dois homens que não sendo familiares um do outro mais tarde vieram a ser ambos meus tios direitos, um irmão do meu pai e outro irmão da minha mãe. Eu ainda cá não estava, nem estava em viagem, e muito menos havia qualquer conversação para qualquer projeto, entre os meus progenitores.
Mas vamos ao mais importante e curioso desta situação. O irmão da minha mãe, ainda solteiro mas já com uma idade superior aos trinta anos, foi incumbido por seu pai, de zelar pelo tratamento de uma vinha e respetiva produção, ao tempo pertença do que veio a ser meu avô materno. Ao lado, portanto aonde eu hoje resido, morava um irmão do meu pai, pessoa muito conhecida, por saber muito bem chegar a brasa à sua sardinha. Dentro deste seu espírito e com a ganância de melhor preço, combinou com o seu vizinho e de quem era bem conhecido e se fazia amigo, para lhe vender um pipo de vinho, com uma capacidade de cem litros, que seria desviado da adega de que o mesmo era responsável. Acertado o negócio e como a distância era, e é, relativamente perto, uns quinhentos metros, à volta disso, o que vendeu fez o transporte do líquido por oito vezes e durante a noite, usando em cada viagem um cântaro.
Finalizada a entrega, uns dias depois o vendedor aparece junto da casa do comprador e onde deixou o vinho para receber. Depois de umas desculpas de mau pagador, ocorridas nos primeiros dias, o comprador teve o descaramento de afirmar a quem lhe pedia o dinheiro, de que não tinha nada a pagar, pois o vinho não era dele, pois tinha-o roubado ao pai. Ao sentir-se assim falseado o sujeito que procurava o dinheiro ficou fora de si e pretendeu mesmo ali fazer por mão própria o seu ajuste de contas. Como o medo guarda a vinha, ali também guardou o vinho, amedrontado com a fúria do irmão da minha mãe, o irmão do meu pai pagou de imediato. Aliás ainda havia mostrado má-fé, pois também se não prontificou a pagá-lo o legítimo dono.
Este negócio fraudulento das duas partes, um porque abusou da confiança, o outro porque tentou uma via menos limpa para poupar uns tostões, foi por aqui muito badalado na ocasião, mas opiniões em tudo convergiam, a razão estava dum lado, do que vendeu, pois esse apenas fez um ligeiro desvio do que lhe estava entregue, enquanto que o outro queria beber o que em nada lhe pertencia, e ainda queria o trabalho noturno levado a efeito pelo vendedor, gratuito.
Penso que só já restam duas pessoas vivas que tenham isso em memória, neste caso concreto, meu pai e minha mãe, que se vieram a casar uns anos mais tarde. Ambos criticam a habilidade do comprador. No entanto, eu que sei deste acontecimento há muitos anos, tive a oportunidade de ouvir o ator principal desta façanha, que me confirmou tudo na íntegra. Na qualidade de meu tio saiu-se-me com esta:
- Esse teu tio era um bom vigarista, mas quando viu o sacho no ar deu-se às boas!
Assim registo este caso, sempre conheci um ladrão com razão na sua ação, coisa que não será muito frequente, na pacatez do nosso povo.