Pontos de Vista


Como se sabe, o combate contra a disseminação do vírus da Covid 19 passa, acima de tudo, pela adoção de medidas individuais de higiene – lavagem das mãos, limpeza, desinfeção das superfícies, uso de máscara – e de distanciamento social.Medidas que, para poderem ser eficazes, exigem das entidades com poder público, uma intervenção adequada e atempada nos transportes públicos, na vigilância dos ajuntamentos e na criação de condições de despiste e seguimento de pessoas infetadas, através dos testes adequados e de um rastreamento continuado e sistemático.Não vou agora detalhar as medidas que genericamente acabo de sublinhar. É que a intenção deste artigo é outra: trata-se de suscitar a questão que se me está a colocar com crescente preocupação. Refiro-me àquilo a que poderemos chamar os “efeitos colaterais da pandemia”.Na verdade, as recomendações, perfeitamente lógicas e indispensáveis, das autoridades sanitárias parecem estar a gerar em certas famílias e em muitos cidadãos um síndroma a que poderemos chamar duma “obsessão de limpeza” e de um “confinamento continuado” entre as quatro paredes das suas casas de que não querem abdicar por razões de auto-proteção.Diz-me um pedo-psiquiatra amigo que o “síndrome da limpeza” é uma prática (que se pode converter em doença) que está a tomar conta de muitos pais e suscetível de criar traumas nos seus filhos. A proteção das crianças leva os adultos a recomendarem e exigirem comportamentos por parte delas, no sentido de não tocarem nem se deixarem tocar por familiares e amigos, não aceitando carícias ou abraços, nem sequer comida ou guloseimas. Chega até a acontecer que, caso ocorra qualquer contacto, por muito ligeiro que seja – um toque num braço, uma festinha na cabeça -, se passa de imediato a uma frenética operação de desinfeção…! A questão que se me coloca é a seguinte: será necessário e recomendável pôr em prática medidas tão restritivas que impeçam as crianças de se aproximarem e cumprimentarem - com as precauções devidas, obviamente - familiares ou íntimos?Por outro lado, a desconfiança em relação a tudo o que venha de fora (das quatro paredes entre as quais passam grande parte do seu tempo), mesmo que oferecido por familiares que cozinharam com carinho, desvelo e os maiores cuidados, um bolo ou um doce, além de ser uma fonte de marginalização desses familiares e de discriminação de uns em relação a outros, não será deseducativo e, no futuro, traumático para as crianças? Crianças criadas dentro de redomas, com exceção aberta a alguns em quem os pais mais confiam ou mais estimam, não se tornarão desconfiadas em relação aos outros e ao mundo em geral, não serão assim levadas a duvidar da bondade, da amizade ou das boas intenções de quem está do lado de fora (da redoma)?E que dizer daqueles que continuam confinados dentro de casa há vários meses, de famílias que deixaram de sair à rua, de frequentar restaurantes, de fazer compras pessoalmente, pedindo tudo pela internet a aguardando na proteção da casa a entrega dos produtos encomendados – tudo como se já não houvesse outro futuro à vista?Penso sinceramente que estamos a fabricar um mundo doente.Reconheço, naturalmente, que a análise deste problema é melindrosa.  Longe de mim pretender aconselhar o incumprimento das medidas de higiene pessoal e de distanciamento social que aliás pratico sem desfalecimento.Mas, como diziam os romanos, “est modus in rebus”, ou, por outras palavras, tudo deve ser feito com conta, peso e medida, de acordo com o bom senso, a qualidade mais importante de que se deve fazer uso, essa sim, nestes tempos inusitados e difíceis.Não se mate o mal com o remédio. Não se criem vítimas inocentes  instilando-se-lhes quem sabe se para todo o sempre os germes duma des-confiança permanente. E malsã! Lembro aqui um mail que recebi de um Amigo, em que lamentava as poucas oportunidades que, desde o início da pandemia, vinha tendo de estar com os netos e de os abraçar, porque , como lhe explicava um dos mais novinhos pelo WhatsApp para recusar aquela manifestação de afeto: “Vô, não lhe dou um abraço porque não o quero matar!”Um outro episódio que considero um efeito colateral nocivo resultante da pandemia prende-se com a reação intempestiva e desequilibrada das nossas autoridades político-diplomáticas contra as medidas limitativas colocadas por diversos Estados, maxime pelo Reino Unido (RU), ao turismo de nacionais seus em direção a terras portuguesas ou de portugueses para esses países. Ouviram-se disparates próprios dos teóricos de serviço da conspiração internacional ou de políticos complexados por uma mania da perseguição contra o nosso país. Chegou-se ao extremo de invocar o desrespeito da mais antiga aliança do mundo e a profetizar (desejar?) uma “vingança” ou retaliação (de quem e porquê?) contra os malvados que assim nos discriminaram(?!).Ora, a verdade é que a lista negra dos corredores turísticos nada teve de uma embirração dirigida contra nós. Tratou-se pura e simplesmente da aplicação dos critérios internacionais, em vigor no momento, acerca dos riscos que os diferentes países ofereciam em razão da evolução da percentagem dos contágios por 100.000 habitantes. E a verdade é que, nesse particular, Portugal, melhor a Região da “Grande Lisbo”, está muito mal colocado, desde há largas semanas.Trabalhámos mal e desorganizadamente; agora sofremos as consequências. De nada servem as lamúrias ou as retaliações prometidas pelas autoridades nacionais. De nada servem os queixumes de Suas Excelências o Presidente da República e o Primeiro-Ministro. Como de nada servirão - a não ser para fazer aflorar um sorriso trocista aos rostos dos seus congéneres europeus -, ameaças ou “farroncas” de Ministros como Augusto Santos Silva ou Pedro Nuno Santos (quem não se lembra deste último a aconselhar, há meses atrás, o não pagamento da nossa dívida. Se tal fizéssemos, “até os alemães ficariam com as pernas a tremer”, afirmou então este especialista em “fanfarronadas”).Sejamos mais discretos e mais competentes. Aproveitemos a crise que nos assolou e as oportunidades que sempre surgem em tempos destes. Esqueçamos por uma vez a receita costumeira de obrigar os contribuintes a pagar a fatura através do aumento dos impostos, adotemos uma estratégia que permita transformar as dificuldades em oportunidades. Leia-se construtivamente o documento elaborado por António Costa e Silva e adotem-se as melhores soluções com as boas ideias que nele se colham. É que os milhões da União Europeia não vão vir duas vezes!
Lisboa, 15 de julho de 2020