Viagens ao reino de Clio


Em 1829, os liberais passavam por tempos difíceis, em face da ascendência dos absolutistas, na luta pelo trono de Portugal.
Na praça de Almeida, cheia de prisioneiros, estavam detidos muitos liberais da Guarda, para além de muita gente das comarcas de Trás-os-Montes e das Beiras. Da Guarda estavam presos os seguintes liberais: Joaquim Borrego, alfaiate; António da Rocha e seu filho, negociantes de sola; Pe. Miguel Grelo, capelão da Sé; Dr. Simão da Rocha Fortunato, advogado; Joaquim da Pina Chouriça, alfaiate; Dr. José Gomes d’Almeida Branquinho, advogado; José da Silva, contínuo da comarca; Jerónimo de Pina, sacristão da Sé; José dos Santos, alfaiate; José Ferreira, albardeiro; Pe. Joaquim Manuel da Fonseca Abreu Castelo Branco, cónego da Sé; José Alexandre de Aguiar, funileiro; Maria Cristina, fonteira; José das Póvoas, proprietário; Bárbara Bugalha, fonteira; Joaquim Emiliano Teixeira e Manuel Geraldes dos Santos, proprietários.
Em 1830, é publicada em Londres uma nova obra de Almeida Garrett, intitulada “Portugal na balança da Europa” que o autor considera ser obra de “longo trabalho que desde os fins de 1825 se começou a escrever.” Nela acrescenta que: “O fim que agora me proponho em publicar este quadro de factos e observações é pôr bem presente na memória dos Portugueses as causas e os efeitos de nossos erros e desgraças, para que no futuro se emendem uns e se evitem outras.
Nessa antiga balança, Portugal era considerado como um contrapeso necessário ao equilíbrio das três potências do Oeste da Europa, França, Inglaterra e Espanha. A mais interessada era a Inglaterra; e daí lhe tem sustentado e garantido sua independência. Se esta independência era real ou nominal, se as condições dela eram toleráveis, não é ainda para aqui examinar.
Basta-nos dizer por agora que, desequilibrada pela nova ordem das coisas dessa antiga balança, Portugal saiu de sua antiga posição no mundo político, há-de tomar outra e deve tomar a que mais lhe convier.”
Em 1831, o diplomata Rafael da Cruz Guerreiro, representante de D. Miguel na Rússia, alerta para os perigos que ocorreriam em Portugal, e mesmo em toda a Europa, se as tropas de D. Pedro conseguissem instaurar no nosso país um governo liberal: “Os partidários de D. Pedro (digamos a verdade, os da desordem) puderam obter por um empréstimo que acabam de concluir, os meios para mudar o estado de coisas atualmente estabelecido em Portugal e ajudar, assim, os revolucionários espanhóis a destituir a monarquia legítima em Espanha porque é esse o plano, é esse o futuro que o liberalismo francês prepara para a Península.
Os franceses revolucionários têm tanto interesse em mudar este reino e os principais do seu governo como a Europa monárquica tem em impedir tal resultado.
Para impedir este fim, para prevenir tão funestas eventualidades, dois meios se apresentam a pôr em prática sem perda de tempo: reconhecer o soberano atual de Portugal e impedir que a expedição da Terceira vá trazer perturbação e desordem.
Está reservado ao vosso augusto Senhor prestar à Europa este imenso serviço recomendado, e, enquanto é tempo, estas duas medidas ao Governo Britânico.”
Os partidários de D. Miguel tentavam assim obter o apoio da Europa monárquica para a causa absolutista.
A propósito da luta entre liberais e absolutistas, no dia 16 de março de 1831 é noticiado na Gazeta que: “Hoje sofreram a pena de garrote, em que foram sentenciados, sete réus do atentado horrível que esta capital testemunhou na madrugada de 8 de Fevereiro último. Fizeram-se as execuções no Cais do Sodré com aquele sossego que se observa em toda a parte onde é devidamente respeitada a ordem legal. Foi grande sobremaneira a concorrência dos espetadores e posto que sempre que em semelhantes atos a natureza excite a compaixão, neste caso falava mais alto a todos os corações a voz da justiça ofendida e ninguém desconhecia a urgente necessidade de ver punidos réus de tão enorme delito. Oxalá que este exemplo aproveite e que a filantropia liberal cesse de sacrificar mais vítimas ao inexorável rigor das leis.”
Segundo a sentença, os réus inspiraram o “veneno revolucionário” e o seu projeto era protegido e sustentado por grandes personagens da corte portuguesa.
Refira-se que o “atentado horrível” consistiu em lançar foguetes e dar “vivas” à rainha D. Maria II e à Carta Constitucional. Após as execuções, os cadáveres foram queimados e lançados ao mar para que deles não restasse qualquer memória.
Este era o ambiente que marcava os tempos que antecederam a guerra civil que se ia instalar, em breve, por todo o país.