A memória das palavras

“Flor discreta da literatura portuguesa” (Agustina)Passa este ano o centenário de nascimento de uma das mulheres cuja escrita mais se destacou na segunda metade do século XX: Maria Judite de Carvalho. A sua obra retrata a voz feminina que melhor denunciou a condição da mulher no seu tempo. A família onde nasceu não lhe proporcionou aconchego, uma vez que várias peripécias trágicas aconteceram ao longo de uma década – morte da mãe e de outros parentes – o que justificaria, na opinião de alguns críticos, o seu gosto pela tristeza e por uma relativa solidão.A sua obra mais conhecida e divulgada é “Tanta gente, Mariana” onde a protagonista descobre que vai morrer e faz uma reflexão sobre a condição humana e a solidão inevitável dos tempos da narrativa. Os contos funcionam como mostras da vida doméstica de muitas pessoas, a maior parte mulheres, que se fecham ao mundo e aos outros e morrem de amores, de coração partido, de culpa, de solidão. (Ana Bessa Carvalho). Não só nesta obra, mas em quase todos os seus textos, a autora faz uma reflexão sobre casos humanos de solidão predominantemente feminina e sobre o desajustamento com a própria vida. A sua escrita é essencialmente denunciadora dessas condições negativas em que vivem mergulhadas as suas personagens.Maria Judite de Carvalho nasceu em Lisboa em 1921, aí estudou e viveu até ao casamento com o também escritor Urbano Tavares Rodrigues. O marido também escritor foi um dos responsáveis pela sua produção literária já que ela era muito recatada e não gostava de exposição pública. Depois do casamento, viveram algum tempo em França e na Bélgica e, no regresso, escreveu para os jornais Diário de Lisboa, Diário Popular, Diário de Notícias e O Jornal. Foi secretária, redactora e chefe de redacção da revista Eva. Foi aliás nesta revista que publicou o seu primeiro conto, destacando-se a sua escrita também no âmbito das crónicas. Neste ano centenário, foram várias as iniciativas realizadas. Destaca-se o lançamento de uma colectânea de poesia em sua homenagem, intitulada “Água silêncio sede - Homenagem Poética a Maria Judite de Carvalho no centenário do seu nascimento”, com organização e selecção de textos de Lília Tavares e Carlos Campos. Inclui 123 autores, de Portugal, Galiza, Luxemburgo, Bélgica, Suíça, Macau e China, entre eles está a autora da Guarda, Maria Afonso. Lília Tavares “acentua que a par da timidez face ao estrelato, Maria Judite Carvalho tinha as características de uma observadora inata. Penso que nenhuma outra mulher tinha tido a coragem de interpelar a solidão e a amargura de uma forma tão intimista e recatada. Na sua escrita predominam os meandros da solitude e o lamento nunca passivo de uma visão do nada. (…) Não se identificou com nenhuma corrente literária, mas não se deixou silenciar, tendência de certo modo imposta pela sociedade da época.” (Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 1329, 8 a 21 de setembro) A sua escrita foi premiada várias vezes destacando-se o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, o Prémio da Crítica da Associação Portuguesa de Críticos Literários, o Prémio P.E.N. Clube Português de Novelística e o Prémio Vergílio Ferreira. Fica um pequeno excerto do poema de Maria Afonso inserto na colectânea referida acima de homenagem à autora.
Se eu pudesse mudar aos meus olhos doenteso estremecer de Setembroa vertigem do charco o decepar da vozesse muro cinzento
vazar a memória dos barcos diluir o mundo no azul Maria Afonso