Viviam-se tempos outros em que o progresso da medicina e a mobilidade possível eram bem limitadas e a esperança de vida muito limitada também.


Eram tempos outros aqueles em que o tempo parecia travar as novidades do mundo e em que as vidas humanas continuavam na mesmidade de fundo, a coberto de sucessivos nascimentos e mortes.
Tempos outros em que só me foi possível conhecer a avó paterna falecida no final da minha juventude de que conservo uma carinhosa lembrança. Da outra avó e dos meus avôs, que não conheci, fica a imagem construída infantilmente a partir das palavras sentidas de meus pais ouvidas com a atenção curiosa de uma criança. Ou de conterrâneos que haviam com eles convivido. E a imagem assim perdura avivando-se sobremaneira nalguns dias de particular significado familiar ou social. É o caso do Dia dos Avós e dos Idosos,
Desde alguns anos, no dia 26 de Julho, comemorava-se nalguns países como Portugal, Brasil e Espanha, o Dia dos Avós, por ser nesse dia a festa litúrgica de São Joaquim e Santa Ana, os avós de Jesus, pais de Maria Virgem, Mãe de Deus. Com pouca visibilidade, mesmo entre nós, o dia vinha ficando bastante esquecido. Em 2021, o Papa Francisco deu-lhe maior amplitude. Instituindo o Dia dos Avós e dos Idosos, a ser celebrado no domingo mais próximo do dia litúrgico da festa de São Joaquim e Santa Ana, o Papa Francisco deu uma amplitude mundial e uma dimensão intergeracional mais explícita à celebração ao estender também aos Idosos o Dia dos Avós.
No corrente ano o domingo mais próximo do dia litúrgico dos avós de Jesus é a 23 de Julho. Nesse domingo celebramos o III Dia Mundial dos Avós e dos Idosos para o qual o Papa Francisco publicou uma mensagem datada de 31 de Maio, Festa da Visitação da Virgem Santa Maria, sob a frase bíblica como tema “De geração em geração, a sua misericórdia” (Lc 1, 50) que bem expressa a ligação que o Santo Padre pretende estabelecer com a Jornada Mundial da Juventude de Lisboa cujo tema é “Maria levantou-se e partiu apressadamente” (Lc 1, 39).
Não sei bem quando, mas, sem dúvida, foi ainda em criança que ouvi falar pela primeira vez dos pais de Maria, Nossa Senhora, e dos avós de Menino Jesus, daquele menino que, na época natalícia, aparecia numa gruta – a lapinha, como carinhosamente se dizia -, centro de uma grande construção, toda de musgo, na Capela de São Miguel da minha aldeia. Era o presépio verde de esperança feito todo de musgo colhido com esmero nos penedos sombrios do campo invernal que contrastava com os ramos dos carvalhos e castanheiros que tinham perdido a folhagem e que aguardavam a vida da nova Primavera. E lá estavam os pais do Menino, Maria e José. Joaquim e Ana não estavam, como ausentes se encontravam – e destes nem se falava – os pais de José. Esta criança, que eu era, imaginava que os seus avós já teriam falecido, como eram falecidos também os meus avós, excepção feita à minha avó paterna que morava ao lado, bem ao lado, daquela Capela de São Miguel Arcanjo, cuja imagem lá se encontrava, no interior, no altar-mor, de espada na mão direita e balança na esquerda a guardar a terra e as suas gentes.
Também não me lembro quando, nem em que circunstâncias, me foi possível realizar uma leitura integral dos quatro evangelhos canónicos. Mas sei que já era crescidinho quando tomei consciência de que neles não se falava de São Joaquim e de Santa Ana. Curiosamente esta ausência não me causou qualquer problema, habituado, como estava, a ver na lapinha do presépio exclusivamente as três figuras da Sagrada Família acompanhada do burrinho e da vaquinha, como carinhosamente eram referidos aqueles dois animais. Nem hoje estranho tal ausência, mas, como creio, por razões de amadurecimento da fé.
Não é, pois, em razão do que podemos encontrar nos quatro evangelhos canónicos que falamos de São Joaquim e Santa Ana como pais de Maria e avós de Jesus, porque não há neles qualquer referência, e muito menos informações certas, a estas duas importantes figuras da História da Salvação e que são geralmente apresentados como modelos de santidade vivida com particular intensidade já na idade avançada.
A tradição cristã de que se alimenta o seu culto terá outras fontes. As notícias que nos chegam, e de que muito teremos ouvido falar, são extraídas de textos apócrifos: Protoevangelho de Tiago [Séc. II], Evangelho do Pseudo-Mateus [provavelmente do Séc. VII] e Natividade de Maria [presumivelmente do Séc. X]. Como o carácter tardio destes dois textos já o pode indiciar, eles serão elaborações posteriores do Protoevangelho de Tiago, sendo que o texto Natividade de Maria aparece quando o culto dos pais da Virgem Maria dava os primeiros passos no Ocidente. No Oriente cristão encontrem-se já elementos cultuais litúrgicos no Séc. VI de que é símbolo a igreja dedicada a Santa Ana construída em Constantinopla no tempo do imperador Justiniano.
Deixando a História, visitemos o Protoevangelho de Tiago. Ali Joaquim é apresentado como um homem rico e piedoso que habitava nas imediações de Jerusalém, sem filhos e sem a esperança de os vir a ter dada a avançada idade, dele e de Ana, sua esposa. Um dia, quando se encaminhava para o templo e aí apresentar as suas oferendas, saiu-lhe ao encontro o sacerdote Rúben a dizer-lhe que não lhe era lícito proceder à entrega das suas dádivas por não ter gerado prole, significando com tal uma espécie de maldição divina.
O piedoso ancião, triste, magoado e envergonhado com as palavras do sacerdote, examina atentamente a história das doze tribos de Israel para verificar a veracidade mensagem sacerdotal. Constatando que todos os homens justos tinham deixado descendência a Israel, mais se entristeceu. Sem coragem para regressar a casa ao encontro de Ana e lembrando-se do patriarca Abraão, retirou-se para o deserto e ali, jejuou e orou, suplicando a ajuda de Deus. Ao fim 40 dias e 40 noites um anjo disse-lhe para regressar porque o Senhor ouvira as suas preces.
Ana, lamentando a solidão, lamentava sobremaneira a sua esterilidade. E entregou-se, também à oração, solicitando o dom da maternidade, até que um dia um anjo lhe anunciou que o Senhor ouvira a sua oração e que Joaquim vinha a caminho com alegria da promessa angelical. E dá-se o reencontro dos esposos à porta de casa, onde Ana esperava ansiosamente Joaquim. A iconografia foi enriquecendo este reencontro com detalhes lendários e o beijo trocado entre os dois terá ocorrido diante da Porta Áurea de Jerusalém. Passados os nove meses, uma menina nasceu e foi-lhe dado o nome de Maria.
O Dia dos Avós e dos Idosos encontra-se rodeado de duas singelas narrativas. Uma de evangelhos canónicos e outra de evangelhos apócrifos. Numa, dois idosos reencontram-se felizes, depois de os anjos lhes anunciarem a possibilidade do nascimento de uma criança, mesmo na sua velhice. Noutra Isabel de gravidez na velhice é visitada por uma prima, a jovem Maria, que também espera o nascimento de um filho, como lhe anunciara o anjo. Entre elas, “De geração em geração, a sua misericórdia”, a misericórdia do Senhor.
Também São Joaquim e Santa Ana são meus avós, como de todos os fiéis cristãos. Sei-o desde que me reconheci integrado no mistério da filiação divina e irmão do Filho de Deus feito Homem. Os avós de Jesus são, por isso, também meus avós. São estes meus avós pela fé que acompanham, na eternidade, os meus avós falecidos, paternos e maternos, que não cheguei a conhecer. Como os avós de muitos dos meus leitores. É a dinâmica maravilhosa da plenitude da Comunhão dos Santos. Os anjos do Senhor andam por aí a anunciá-la, mesmo, ou sobretudo, quando uma comunidade, como a nossa, está a envelhecer e a natalidade se encontra na penumbra das preocupações sociais e políticas. Mas tal será um sinal dos tempos que importa discernir com esperança e caridade de que tem de se alimentar um diálogo intergeracional que não pode ficar esquecido, como tem vindo a vincar o Papa Francisco.
Guarda, 20 de Julho de 2023