Começa um novo ano; que de novidade só a costumeira tragédia-comédia-farsa com que Portugal se nos apresenta desde quase sempre, embrenhado em crises de crises…

Nada melhor então do que nos darmos ao prazer da leitura e por essa via entregar-nos, não ao esquecimento, mas ao entendimento (se tal for possível!).
Ler é um acto profundamente nosso, profundamente solitário mas, e ao mesmo tempo, profundamente relacional e empático. Ler, leva-nos para dentro de nós e (paradoxalmente, ou não) orienta-nos para fora, para o mundo, para fora do mundo. Faz-nos imaginar. Mais. Faz-nos pensar. Melhor. Faz-nos imaginar o pensar. Faz-nos pensar o imaginar. Ler, dá-nos Vida e dá-nos a vida que sonhamos (ainda que por instantes). Empodera-nos e torna-nos mais Eu… no Outro; com o Outro.
Os livros sugeridos não são os preferidos, ou os mais preferidos. São aqueles que têm mais sentido, hoje. Nem sequer ficam divididos por qualquer categoria. Apresentam-se na ordem que advêm ao pensamento, no agora; poderiam ser infinitamente outros. A excepção, o primeiro aqui apresentado, porque o primeiro lido (pelo menos na memória, de um livro lido na totalidade) em Vila Mendo, na escola primária:
Romance da Raposa, de Aquilino Ribeiro- para miúdos e graúdos. Um Aquilino que escreve e nos reescreve com a sua dureza e crueza e pureza (pungente), como em Aldeia- Terra, Gente e Bichos. Primo Levi, com os seus três livros sobre a sua experiência e sobrevivência nos campos de concentração na segunda guerra: Se isto é um Homem; A Trégua; Os que Sucumbem e os que se Salvam; que nos mostram a inumanidade da humanidade e o Mal como acção e substância. Albert Camus (entre outros escritos) Conferências e Discursos com a sua preocupação para alcançar a felicidade (ou pelo menos o entendimento) … entre povos. Domínio- de Tom Holland e o modo como o Cristianismo moldou (e molda) o pensamento ocidental e da Humanidade, de um autor que não é propriamente crente. O Dever de Deslumbrar- Filipa Martins, uma biografia de uma poetisa de excelência, Natália Correia. A Entrevista- de António Vieira (ainda no princípio da leitura), uma auto-entrevista de um pensador com âmago. José Gil com o seu último livro, Morte e Democracia, não lido ainda, mas na senda de outros bons escritos deste filósofo, recomenda-se à priori. Manuel da Fonseca com o seu Cerromaior, de um realismo a toda a prova. A Segunda Guerra Mundial- de Antony Beevor, um historiador de Guerra notável. Na Banda Desenhada, Paco Roca com O Farol, O Jogo Lúgrube ou Trilhos do Acaso é uma opção recomendada. Os Astérix também. Miguel Esteves Cardoso com Amores e Saudades de um Português Arreliado, crónicas desarmantes que nos retratam enquanto povo (e pessoas). A Norte do Futuro- Homenagem poética a Paul Celan com organização e prefácio de Maria Teresa Dias Furtado, um autor desconcertante, tantas vezes imperscrutável, uma linguagem de uma radicalidade expressiva que o torna de difícil tradução. Trilogia- de Jon Fosse, leitura não-fácil mas depois de alguma estranheza, entranha-se. Qualquer livro de George Steiner, crítico literário, pensador de excelência, por exemplo A Poesia do Pensamento. Da Guarda, o incontornável Eduardo Lourenço, entre outros e o mais conhecido, talvez, Labirinto da Saudade e Nuno Montemor com Rapazes e Moças da Estrela, Maria Mim, ou A Maior Glória. Os autores recentes da nossa cidade ficarão para outra vez quando forem lidos os seus últimos trabalhos.
Os jornais, todos (embora uns mais que outros…). Os da Guarda: Jornal A Guarda e O Interior, está claro. O Público com o seu suplemento Ipsilon, o Jornal de Letras e a revista Ler, são boas opções.
Enfim, um conjunto de sugestões que poderão interessar. Ou não.
Leiam.