Escrevo no dia 1 de Junho, “Dia da Criança”. É por aí que começo. E por lá terminarei, pelas crianças.


Um dia, não muito longínquo, com a aproximação de novo ano escolar, a minha neta, de sete anos, veio pedir um livro que possuísse todas as palavras portuguesas. Precisava dele na escola. Inicialmente não entendemos e até achámos que estaria a brincar connosco. E nós ainda chegámos a corresponder à brincadeira. Mas logo nos ocorreu que desejaria um dicionário. Achámos graça. Ela não teria fixado tão bem a palavra “dicionário” como uma imaginária definição que terá ouvido na escola: um livro que contivesse todas as palavras portuguesas. Depois, de um modo mais sério, sempre lhe fomos dizendo que não existe nenhum livro que contenha todas as palavras portuguesas, por mais completo que ele seja.
E a conversa continuou, por algum tempo, ao modo de quem brinca com as palavras e diverte uma criança. E lá fomos comprar um dicionário escolar de Português.
A cena transportou-me para o dicionário e transformou-se em tema desta crónica. Não o dicionário físico, aquele que está ali, numa estante, à espera de alguém para lhe folhear as páginas no esforço de qualquer consulta. Mas o dicionário mental. Aquele que um escrevinhador – ou um qualquer falante - tem de consultar para a criação de qualquer crónica ou de qualquer discurso. E não é fácil a consulta. Bem mais difícil do que consultar o livro que ordena as palavras por ordem alfabética. Porque as palavras que se alinham na mente não obedecem a qualquer ordem alfabética. E ainda bem. Talvez nem possuam qualquer ordem. Ou, se a possuem, parecem transcender a ciência humana e fogem ao alinhamento das leis da pesquisa do ser humano.
São, portanto, um tanto desordenados os caminhos da escrita das palavras pensadas ou dos pensamentos que andam à procura das palavras. É verdade que, vezes sem conta, elas se escondem ou fogem como a lebre do caçador. Contudo, aí estão, as palavras, bem disponíveis para quem as quiser desenhar numa folha em branco, mas sempre a dançar umas com as outras, sem ordem alfabética, ao som de música subtil que convida o escritor, e o falante, a entrar na dança com elas. Bailam, bailam visíveis e com fulgor umas vezes, outras bailam invisíveis como crianças que jogam ao esconde-esconde.
É bem misteriosa a dança das letras, como é misterioso o dizer com elas. É bem problemática a escolha das palavras certas. E a escolha nunca será certa. Também aqui é tudo muito imperfeito. A perfeição não existe nos mundos dos humanos. Não sei se na música haverá acordes perfeitos. Mas darei razão a Eugénio de Andrade para quem «Cada palavra é como uma nota que procura outras para um acorde perfeito.» Belos poemas escreveu o poeta, mas será que cada uma das suas palavras encontrou outras para o acorde literário perfeito?
E nem sempre há palavras para as insignificantes expressões de quem escreve e de qualquer falante. É bem verdade o que os avós disseram à neta. Não há dicionário que possa conter todas as palavras. Até porque há palavras por dizer, embora elas se encontrem já virtualmente escritas no mundo indefinido das potencialidades de um alfabeto. E há realidades por nominar, porque elas são bem mais diversificadas do que as nossas línguas cuja riqueza nos enche de orgulho. Branco é branco. Sempre, dizemos. Mas sabemos que há várias tonalidades de branco e que os esquimós possuem dezenas de palavras para caracterizar a cor branca e suas tonalidades. Assim li ou ouvi, não sei onde. E alguém saberá dizer de que cor é o horizonte quando o Sol vai desaparecendo para finalmente se pôr e desaparecer de todo? Vermelho, amarelo, laranja, cinzento, branco? E alguém saberá dizer de que cor é a noite quando o Sol se mostra na penumbra dos raios de luz? Eu sei que muitos escritores de boa pena já nos descreveram muitos poentes. E muitos nascentes do Sol e da Lua. Porém, assim creio, sem nunca chegarem a encontrar palavras para todos os matizes daquele espaço de céu colorido e movimentado. Mas dizem os entendidos na matéria que há tribos, mais perspicazes que nós no saber de experiência feito, que possuem muitas palavras para identificar as muitas tonalidades de um pôr-do-Sol, todo feito da cor da beleza. Muito gostaria de aprender a ver com esta gente as tonalidades da vida que se esvai.
Somos todos devedores das palavras. Das palavras em que nascemos, crescemos e nos encontramos agora, neste momento. Será, por isso, que elas são tão metaforizadas.
Não será necessário navegarmos muito no mundo das letras para sentirmos bem como as palavras entram novas no corriqueiro dizer e como vão desaparecendo, velhinhas, do uso corrente. E não sei se a novidade das palavras utilizadas corresponde a novas situações do humano viver, como não sei se o desaparecimento é o resultado de ter desaparecido o seu conteúdo significado ou se tudo se reduz a modismos linguísticos impostos por ideologismos de trazer por casa, ancorados na bengala, sempre pronta, dos meios de comunicação social.
Quem não se lembra de que um dia acordámos ao som de uma «disrupção» que nos deixou muito «disruptivos» com tudo? E quem não sabe que agora andamos embalados pela música da «resiliência» tocada pelos instrumentos das sereias de Bruxelas? E quem nunca se sentiu «focado» ou não tomou consciência de que, presentemente, é tudo uma questão de «foco», mesmo, ou sobretudo, onde falta a luz? E quem não encontrou por aí, a torto e direito, a palavra «narrativa», com o seu poder mágico de recurso para analistas e comentadores de todos os campos da vida? E quem ainda nunca ficou surpreendido com a “postura” com que às vezes nos vemos confrontados? E, já agora, lembremos ainda o “incontornável” “ADN” disto e daqueloutro. Até parece existir uma espécie de osmose social pela qual esta neofilia linguística se espalha a velocidade de relâmpago. E se mantém, como a água nas charcas dos campos.
Com tantas palavras a dançar na moda dos dizeres no presente viver, quase dá vontade de parafrasear o escritor António Mega Ferreira (1949-2022) e dar à estampa um “Roteiro Afectivo das Palavras Descobertas”. Quase, assim importa dizer, porque depressa tal vontade se esvairá, como se vão esvaindo todas as modas.
Um dia virá a amnésia dos falantes e os termos da moda de hoje passarão também à mesma velocidade para outros roteiros. Hoje, agora, quando andam por aí tantos novos censores “activistas” a policiar palavras, bem poderemos interrogar-nos que vida terá amanhã o dicionário de hoje. Melhor dito, talvez: que dicionário terá o amanhã da vida?
Em “Espanto e Encantamento – Memórias de um Vigilante de Museu” Pablo d’Ors faz notar que as palavras não soam da mesma maneira pronunciadas a sós ou diante de um interlocutor. Nunca tinha eu pensado em tal. Ditas diante de um interlocutor - prestem atenção os políticos - as palavras «perdem-se na comunicação e desaparecem» ao chegarem ao destinatário, se é que chegam. Pronunciadas a sós, as palavras «ficam muito tempo no ar sem se desvanecerem», remetem e apontam só para elas e ganham, assim, o seu «sentido autêntico» e a sua «verdadeira sonoridade». É como quem dá prioridade ao dizer do coração antes de atravessarem o ar e caírem em ouvidos alheios.
Saboreei, e continuo a saborear, este dizer de Pablo d’Ors. Recolhido, e de olhos fechados, fiz a experiência para sentir o prazer de ouvir, só eu, aquelas palavras por mim escolhidas e ditas – não direi quais foram - e aprender a amá-las de viva voz como quem dá um beijo à pessoa amada ou abraça, com esperança, uma criança no seu dia. A ressonância poética e espiritual, e até religiosa, que a palavra, assim dita, provoca em quem a diz, transcende o dicionário. O de papel ou o de qualquer engenho tecnológico.
Será que o Verbo de Deus me fala com melhor brilho quando eu, sozinho e de olhos fechados a ver o escuro, invoco o seu nome no silêncio de uma noite escura? Este Sol, se assim me abrasa, e abraça, não está no dicionário… não. É outro o seu mundo. Creio que as crianças compreendem bem este abraço.
Guarda,1 de Junho de 2023