Começamos dando a palavra ao poeta Fernando Pessoa na voz do heterónimo Ricardo dos Reis: «Pesa sobre os homens o decreto atroz do fim certeiro.

Mas eles riem. Felizes os néscios. Sus! Deixai brincar os moribundos!» Bem o sabemos: o tempo é portador da morte. O Homem e a morte cavalgam lado a lado. Mas ouvimos e lemos, frequentemente, que, hoje, o Homem reprime a morte. Reprime o que cavalga com ele, bem ao lado. Estamos a morrer no decurso de horas moribundas. Moribundos somos nós nos momentos breves destas horas moribundas.
É por aí que o coreano Byung-Chul Han (Seul, 1959) começa o livro “Rostos da Morte – Investigações filosóficas sobre a Morte”. A consciência plena de si, do Homem, implica a consciência da morte. E, quando a recalcamos e reprimimos, pensamos com uma consciência sem a medida adequada, truncada. Em suma, falsa. Por isso, diz-nos o filósofo coreano, assumir a morte na consciência implica «uma disposição pura para que seja a morte a dar-nos o pensar.»
O mês de Novembro começa com dois dias de profunda ressonância humana, existencial e espiritual: a festividade de Todos os Santos e a comemoração de Todos os Fiéis Defuntos. Estes são dias que a todos nós, humanos que somos, dizem respeito, por maior que seja a repressão que exerçamos sobre a morte.
Todos temos os nossos Defuntos e todos teremos os nossos Santos. E poderão até não caber nos limites da nossa linguagem e na finitude do nosso dizer matemático, nas possibilidades, bem limitadas, da contagem dos nossos antepassados. Que são às dezenas, às centenas, aos milhares, aos milhões. Como aos milhões são as lágrimas choradas e as orações rezadas nos adeuses da vida. Que serão, também, saudações de sublimes encontros com a Vida. Viver é ir morrendo, mas, sobretudo, viver é ir nascendo.
O raciocínio é bem simples. Traduzamo-lo com uma pergunta bem singela e que, talvez, todos já tenhamos formulado algum dia: para além dos 2 progenitores, os pais, quantos avós temos? Cada um de nós, entenda-se.
Num instante, poderemos dizer que cada um possui 16 trisavós, mas quem saberá dizer, no mesmo instante, quantos são os seus pentavós, os avós do 5.º grau? Direi eu que, neste 5.º patamar, ainda é bem fácil de efectuar a conta. E aí chego eu, como chegará qualquer pessoa. Cada um possui 64 avós do 5.º grau. Portanto 64 pentavós. Para trás ficam os 4 avós, os 8 bisavós, os 16 trisavós e os 32 tetravós. Se somarmos todos estes antepassados, chegamos a 124. É o número de avós que cada pessoa tem. E isto só até à 5.ª geração.
Como quem entra num jogo de simples passatempo, continuemos as nossas contas, buscando para cada geração a palavra correspondente, ainda que ela nos seja estranha e nada familiar. Bastará multiplicar por 2 em cada geração a que se retrocede e chegaremos a estes belíssimos números e inimagináveis palavras: 128 hexavós (avós do 6.º grau), 256 heptavós (avós do 7.º grau), 512 octoavós (avós do 8.º grau), 1.024 eneavós (avós do 9.º grau), 2.048 decavós (avós do 10.º grau), 4.096 undecavós (avós do 11.º grau), 8.192 dodecavós (avós do 12.º grau), 16.384 tridecavós (avós do 13.º grau), 32.768 tetradecavós (avós do 14.º grau), 65.536 pentadecavós (avós do 15.º grau), 131.072 hexadecavós (avós do 16.º grau), 262.144 heptadecavós (avós do 17.º grau), 524.288 octadecavós (avós do 18.º grau), 1.048.576 eneadecavós (avós do 19.º grau), 2.097.152 icosavós (avós do 20.º grau). Linda progressão geométrica dirão os matemáticos, elaborada com o número 2 como constante!
Partindo da hipótese, mera hipótese, de uma média de 4 gerações para cada século, chegamos a preencher, com estes números, 5 séculos: XX, XIX, XVIII, XVII e XVI. Somando os avós destes 20 graus de antepassados, cada um de nós possui, matematicamente falando, 4.194.300 de avós, contados até aos finais do século XV. Se recuássemos mais 10 graus encontraremos um lindo número de mais de 2 biliões de avós. São os triacontavós que nos lançam lá para o século XII ou finais do Século XI. É longa a nossa história, a nossa biografia, a nossa biologia, na vitalidade de uma linha que se perde na lonjura do tempo até chegar a este ponto temporal em que nos situamos. Linha vital de cada um de nós. Genealogia em que não pensamos quando nos sentimos vivos neste século XXI e levantamos a tal pergunta de insondável resposta: o que sou eu?
Ficaremos estonteados com este número de mais de 2 biliões de avós, no espaço temporal de uma dezena de séculos. Importa, no entanto, atenuar os números da secular genealogia humana. Na verdade, só no século XX é que a população mundial atingiu tal dimensão: 2 biliões de humanos. Estamos perante uma óbvia disparidade entre o número teórico, matemático, de antepassados e o número possível e real. Os especialistas chamam-lhe “implexo da ascendência”. O número de avós, reais, embora muitos, muitíssimos, de qualquer pessoa, será bem inferior àquele para que aponta o cálculo matemático.
Poderemos não ter dele imediata consciência, mas o sofisma encontra-se bem à vista. Bastará olhar para as famílias reais da Europa que, como é sabido, são todas aparentadas entre si. Entende-se facilmente que a inevitabilidade de casamentos entre pessoas aparentadas se impõe em meios pequenos, normalmente fechados, para além da tendência natural para casamentos entre pessoas de proximidade económica e social, geográfica, religiosa, profissional e cultural. Os genealogistas sabem bem que é comum encontrarem antepassados repetidos nas árvores genealógicas. Quer isto dizer que, embora por linhas diferentes, cada pessoa, cada um de nós, descende várias vezes dos mesmos antepassados. Por isso, talvez sejamos todos mais aparentados uns com os outros do que alguma vez pensámos.
Mas tal não impede que sejamos uma espécie de restos flutuantes na imensidão do tempo ou seres extraterrestres que um dia aterrámos à boleia dos nossos pais e avós. E muitos avós. Quem são eles? Já não um mero número de uma progressão geométrica, mas pessoas que viveram em épocas determinadas da História. Que vida levaram? Como se encontraram? Em que circunstâncias se olharam pela primeira vez? Recordá-los é um acto de amor. Viver é ir morrendo ou morrer é ir vivendo?
Eu pertenço – como cada um - a toda uma geração de um número infinito de elementos. Sou um ponto temporal da história da humanidade, da história da terra, da história do cosmos. Eu, todos nós.
Sou fruto de uma infinidade de encontros casuais ou providenciais nessa linha misteriosa do tempo da existência humana. Uma falha qualquer nessa linha, impediria o meu nascimento. Meu, e de cada um de nós.
Eu sou filho de um número infinito de actos de amor paterno. Esses actos de amor de meus antecedentes, vivos ou defuntos, entrelaçam-se todos em mim, na profundidade temporal do meu ser. Uma comunhão física e espiritual com a humanidade. É o mistério profundo da minha existência. Minha, e da existência de todos os humanos viventes… ou defuntos.
Bem posso, bem podemos, como o profeta Jeremias, estar atentos à voz do Altíssimo: «Antes mesmo de te formar no ventre materno, eu te escolhi; antes de saíres do seio materno, eu te consagrei e te nomeei profeta para as nações.» E responder, cantando, com o salmista: «Tu formaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe. Graças Te dou pela maneira extraordinária como fui criado! Pois tu és tremendo e maravilhoso!»
«Tremendo e maravilhoso» o Criador! É verdade que não queremos morrer e reprimimos a morte. Mas verdade é também que continuamos a inventar maneiras de nos matarmos. Desde os areópagos legislativos – a eutanásia anda de novo por aí - até à crueldade das guerras.
Festejando Todos os Santos e comemorando Todos os Fiéis Defuntos, próximos ou mais longínquos, grito o singelo verso do poeta Daniel Faria: «Sinto o fogo dos ressuscitados.»
Guarda, 24 de Outubro de 2022