O dia maior do concelho de Celorico da Beira foi, até finais do século XX, o primeiro dia da segunda metade do mês de Setembro.

Como se trata de uma época de colheitas ali tudo se vendia. Por outro lado tinha que se preparar a quase tudo para a campanha do ano agrícola que se seguia ali tudo se comprava.No entanto temos que afirmar que estamos a falar da maior feira de gado ovino da região. Nesta categoria tudo ali se negociava, desde o gado parido para começar a nova época queijeira, como as que estavam em fim de vida, cujo destino era o abate para enriquecer a culinária por outras paragens. Os carneiros seguiam a mesma viagem a sua campanha que visava a cobrição, terminava ali. Devido a sua idade e trato, o valor dos mesmos era muito mais elevado do que o de outra qualquer rês abrangida pela idade, ou por defeito.Os principais vendedores eram os nossos queijeiros, que tinham necessidade de ir renovando os seus rebanhos, enquanto que os compradores, vinham de várias áreas geográficas, onde sobressaiam os do Porto, para a melhor fazenda, da Bairrada e do Ribatejo.Era um dia de fazer contas, pagavam-se as rendas rurais aos seus proprietários, bem como certas avenças anuais que havia com certos profissionais, como os barbeiros, sapateiros, ferradores e outros, que gostavam mais de receber de uma vez todo o trabalho do ano do que em fracções, pois sempre lhes dava mais vantagem para avaliarem o lucro anual.Para além do gado, de tudo ali havia, tanto para as várias tarefas da lavoura, como artigos de novidade em vestuário, onde predominavam os agasalhos, uma vez que o outono estava à porta e havia que prevenir os primeiros arrefecimentos do clima anual. Uma rua interessante e que já se não vê no exterior dos estabelecimentos, era a rua dos ourives, onde a juventude caía com os pais, para ali adquirirem um adorno em ouro, ou mesmo um relógio.As barracas de farturas, bem como as de matraquilhos também tinham os seus espaços onde as guloseimas e a diversão chamavam a sua clientela. Para os que mais queriam sentir a adrenalina lá estava a pista de carrinhos de choque, o carrocel e ainda o poço da morte, embora este em tempos mais recuados.Estavam também presentes as barracas de comes e bebes, onde não faltava a marrã e a sopa de grão que faziam parte da tradição.Existiam também actividades menos lícitas. Nos locais de maior afluência os carteiristas iam actuando, na periferia lá estavam os jogadores da vermelhinha e nos locais mais escondidos, a com a devida guarda avançada, as mulheres da vida também facturavam. Até aqui falei do profano, mas também havia o sagrado, pois a Santa Eufêmia, tinha uma vigília nocturna, bem como as celebrações católicas durante o dia, onde os seus devotos marcavam presença e pediam ou agradeciam a cura de males de pele.Era assim o dia maior do meu concelho, agora já não é assim, muito menos estes ano, onde as condições sanitárias não o movimento comercial. Outros eventos anuais ganharam mais pujança, em detrimento desta feira de ano. Posso falar das actividades da feira do queijo que com a cobertura televisiva que esta tecnologia permite, Celorico é mais divulgado por todo o Mundo e muitos dos seus rostos conhecidos são vistos em diversos quadrantes do planeta.Não posso dizer nem acho que esteja pior, a sociedade vai evoluindo e nessa sequência gostamos sempre de ver a modernidade, todavia é sempre bom recordar, pois a mesma água não passa duas vezes por baixo da mesma ponte e são eventos que por mais réplicas que façam nunca saem iguais.Aqui vos deixo o relato de um grande dia do meu concelho, que neste século tem vindo a decair e que por infelicidade nossa este ano nem sequer há! Esperemos por melhores dias…