“Se os homens tivessem no silêncio a mesma capacidade que têm no falar, o mundo seria muito mais feliz.”
(Baruch Espinoza)

Se estivermos atentos, constatamos que na sociedade portuguesa actual – quer no espaço público, quer no espaço privado – está em crescendo um fenómeno a que se dá muita ênfase, que tem a ver com a produção de ruído ou, por outras palavras, com a poluição sonora.
Parece que de um modo geral, a “afirmação de existência” e a “afirmação do nosso eu perante os outros” está intimamente ligada aos ruídos que produzimos, independentemente do incómodo que isso possa causar aos cidadãos que estão por perto e nada têm a ver com a situação.
Vejamos então alguns exemplos: no espaço público, a produção de ruído é gerada de diversas formas, mas os sons mais incomodativos são os produzidos em locais fechados (restaurantes, cervejarias, cafés, salas de espectáculos) onde parece ser de “bom-tom” preencher o “vazio” com televisões e relatos de futebol em altos berros, com o manuseamento dos copos e chávenas, produzindo um ruído estridente, que faz com que os nossos ouvidos não consigam entender o que quer que seja que o nosso parceiro nos queira transmitir!
Também nas noites quentes de Verão, há muitas pessoas que nas suas casas ouvem música altíssima - certamente para mostrar que estão a ter um momento feliz nas suas vidas e que desejam partilhar o prazer de escutar a banda ou seu cantor preferido com a vizinhança.
Alguns automobilistas ouvem o som tão alto, tão alto, que se estivermos por perto teremos que tapar os tímpanos se não quisermos ficar com problemas de surdez para o resto das nossas vidas. Isto, para não falar dos múltiplos Festivais que proliferam por todo o País, onde os decibéis estão sempre no máximo - quem vive por perto não conseguirá pregar olho, até que de madrugada o som, finalmente, se extinga.
Alguns jovens comunicam uns com os outros (sobretudo no interior das discotecas) gritando muito, pois o som está tão elevado, que o seu (deles) aparelho auditivo – segundo estudos cientificamente comprovados – ficará para sempre afectado, caso fiquem expostos a esses “sound bites” demasiado tempo.
A apologia e o culto do ruído está de tal modo instalado na nossa sociedade, que nas feiras ouvimos os carrinhos de choque e as vozes dos anunciantes a léguas de distância, pois a produção do ruído está associada ao conceito de diversão. É frequente vermos nos espaços públicos programas de entretenimento promovidos pelas canais de televisão e autarquias, onde o ruído produzido pelos altifalantes é proporcional à excitação que se pretende produzir junto das populações que assistem a esses eventos, seja em campanhas políticas, seja em campanhas promocionais de um qualquer supermercado.
Será que em Portugal nos tempos que vivemos, ficar alegre tem que estar forçosamente associado ao elevado número de decibéis?
Caros leitores: com esta reflexão pretendo enfatizar que o ruído parece estar na moda e se transformou num pesadelo para os cidadãos que apreciam o silêncio e a tranquilidade e não têm hipótese de lhe fugir.
Bem pelo contrário o culto do silêncio pode ser vivenciado de formas distintas, consoante as circunstâncias e os objectivos de quem o pratica. Se queremos simplesmente ficar em silêncio, concentrar-nos para uma leitura mais atenta ou escutar os sons da Natureza, teremos que o fazer em locais onde não se oiçam constantemente as buzinadelas dos automóveis, a chiadeira de um motociclo em fim de carreira, ou o avião que aterra sobre as nossas pobres cabeças.
Ou seja, vivemos numa sociedade onde o ruído está sobre valorizado e o silêncio é considerado quase um sacrilégio, onde o falar muito alto veio substituir a voz doce, melodiosa, onde o gritar e o produzir ruídos de vária ordem passou a ser parte integrante das nossas vidas e a aceitação do ruído passou a ser uma imposição e consequentemente, um dado adquirido.
Será que o culto do silêncio, a capacidade de recolhimento e concentração de cada um de nós em nós próprios e na observação atenta dos outros e do mundo, estará fora de moda?
É esta reflexão que vos proponho nesta “rentreé” – se ainda formos a tempo de melhorar a nossa forma de interagir com o ambiente – seja ele rural ou citadino, certamente todos ficaremos a ganhar e teremos melhor qualidade de vida, se baixarmos um pouco o som do nosso rádio, da nossa televisão e da instalação sonora das festas de verão!