As rotundas já vêm de muito longe. As ciclovias também já foram aparecendo há muito. Os passadiços vão tendo alguns anos.

Os baloiços são moda mais recente. Seja como for, rotundas, ciclovias, passadiços e baloiços fazem hoje parte da paisagem de Portugal. E até parece que a sequência temporal, por que vão aparecendo, está a apontar para uma alteração na nossa vida social.Primeiro foram as rotundas. É claro que sempre foi havendo, aqui ou ali, uma ou outra rotunda. Mas agora, cidade ou vila que se preze tem de ser enfeitada com rotundas. Se não for numa moderna circular do aglomerado, encontrar-se-á num cruzamento de entrada do povoado a saudar quem chega. Ajardinadas ou transformadas em fontanários, muitas exibem esculturas de todo o tipo. Nem sempre primando pelo fulgor estético, evocando ou não a história, as tradições ou personalidades das localidades, as esculturas ali se encontram plantadas bem no centro da redondez de um espaço, como que a acolherem quem as visita. A moda já se vem impondo há décadas. Foram desenhadas para disciplinar a circulação automóvel, mas ainda não se impôs da mesma maneira a muitos automobilistas o cumprimento das normas de trânsito estabelecidas quando se entra ou sai desses espaços redondos de circulação automóvel.E as ciclovias? Foram aparecendo de mansinho, aqui e ali, quase despercebidas. Depois elas foram invadindo as cidades. Comecei a vê-las em Lisboa, talvez há uma dezena de anos. E na capital, como é sabido, foram objecto de contenda na campanha do último acto eleitoral. Mas elas andam por aí noutras cidades e vilas e, mesmo, na ligação entre povoações vizinhas. Não será necessário invocar só os problemas ecológicos. Podem ser também problemas financeiros. Com os preços que os combustíveis estão a atingir, a bicicleta tem futuro. Venham as ciclovias e os parques para estacionar bicicletas e trotinetes. E fiquem mais vazias as rotundas do país.A moda dos passadiços veio para ficar. É verdade que desde há muitos anos as povoações balneares da nossa costa foram enriquecidas com passadiços de entrada e saída das praias, ou, sobretudo, dispostos ao longo da costa a desafiarem o corpo para exercício físico ou a alma para a contemplação da beleza das ondas a bater nas arribas. A novidade está nos passadiços de montanha a serpentearem por vales, declives e encostas que vão oferecendo a todos a beleza de recantos escondidos da natureza selvagem, onde os pássaros ainda podem viver a cantar e onde se pode ouvir, no silêncio, a música dos rios e regatos. Os mais conhecidos, falados, mostrados e visitados serão os Passadiços do Paiva, de 8 quilómetros, no concelho de Arouca e distrito de Aveiro. Instalados em 2015, estes terão sido os primeiros. Depois fizeram moda. Hoje, por esse Portugal fora, a proporcionarem exercício físico servido com a beleza e o encanto da natureza, eles aí estão e já fazem parte de roteiros turísticos.Não sei se será de todo verdade, mas os baloiços vão-se impondo também como moda, particularmente na região centro. São uma moda mais recente, com um ano de vida. Não me refiro, é claro, aos baloiços infantis instalados em parques e jardins para gáudio da nossa pequenada. Os baloiços a que me refiro, já se vê, são baloiços de outra estirpe. São baloiços também para adultos. Aqui e ali, por essas aldeias e vilas, vamos encontrando baloiços à espera de quem sabe apreciar o ar do campo, e balançar-se como o vento enquanto se delicia com a paisagem que se estende mais além no horizonte. São geralmente baloiços artesanais que superam em imaginação criadora os estereotipados e costumeiros baloiços infantis. Situados em locais estratégicos, panorâmicos e com vista para a serra, vale ou rio, construídos geralmente de troncos de madeira, estes baloiços evocam muitas vezes as tradições e cultura das localidades. É o caso do baloiço da Bendada artisticamente construído com notas musicais e o de Aldeia Velha em forma de forcão a evocar a tradição da capeia arraiana. Outros aproveitam o nome das localidades como é o caso do baloiço de Penalobo, que se apresenta com a forma da cabeça de um lobo, e o de Vilar Maior, com uma estrutura que configura as iniciais do nome da povoação. Quatro exemplos do Concelho do Sabugal. Quer-me parecer que os baloiços, desafiando a imaginação criadora, já se vão constituindo como motivo de atracção turística.Há dias passei pela Barragem do Caldeirão, bem perto da cidade da Guarda. Inseridos num território reconhecido pela UNESCO como Geopark Estrela, e com um trajecto desenvolvido ao longo do Rio Mondego e de dois afluentes, ali haverão de terminar, assim se diz e assim se escreveu e escreve, os Passadiços do Mondego com início na povoação de Videmonte. Olhei o vale, guardado pelo Mocho Real. Lá estavam os passadiços em construção. Era Domingo e não havia trabalhadores, mas lá se encontrava, ao fundo, alguma madeira junto à velha ponte da Ribeira do Caldeirão.Foi em Novembro de 2019. O lançamento da primeira pedra do projecto constituiu, nesse ano, o ponto alto das comemorações dos 820 anos da cidade da Guarda. Dizia-se que estaria concluído no prazo de ano e meio ou, no máximo, em dois anos. Chegou a anunciar-se que o projecto estaria terminado no passado mês de Agosto. A primeira pedra faz dois anos neste mês de Novembro e não sei se alguém poderá saber, com certeza, quando é que aquela estrutura se poderá dar por concluída, incluindo as necessárias estruturas de apoio, como acessos, parques de estacionamento e zonas de repouso e higiene. Fala-se no mês de Março. Alvíssaras, então, para o raiar da Primavera!Era uma vez, assim reza a lenda, um par de apaixonados. Ela chama-se Estrela. Ele era Diego. A lenda não o chega a dizer, mas, como é próprio destas lendas narrativas, creio que ela era uma princesa da linhagem de Viriato, e ele um príncipe descendente de Sertório. Um dia veio a guerra e o príncipe Diego, notável guerreiro como era, teve de deixar em lágrimas a sua amada Estrela. A guerra parecia não ter fim, a ausência do príncipe prolongava-se, e Estrela, lá do alto das montanhas, não parava de chamar “Mon Diego, Mon Diego”. Mas só os rochedos respondiam num eco prolongado: “Mon Diego, Mon Diego”. As lágrimas escorriam-lhe abundantemente pelas faces e, pela encosta abaixo, iam formando um rio a fecundar os campos das suas margens. Por isso foi dado ao rio o nome de Mondego e a serra passou a chamar-se Estrela.Naquele Domingo em que visitei a Barragem do Caldeirão, olhei o rio bem lá no vale e fui subindo com o olhar pelos passadiços em construção. Olhei depois para o alto, lá de onde o Mocho Real canta a Sabedoria e imaginei a princesa Estrela, sentada no baloiço da esperança, a gritar bem alto pelo seu amado: “Mon Diego, Mon Diego”. E as lágrimas pareciam não parar enquanto ela olhava para os passadiços em construção. O seu Diego ainda não podia passar! Guarda, 11 de Novembro de 2021