Restrições e Ritualização Litúrgica

Depois de a Porto Editora ter identificado a palavra “Pandemia” como a Terceira Palavra do Ano em 2020, a palavra “restrição” ou “restrições” arrisca-se a figurar no pódio para o ano de 2021. As restrições resultantes da Pandemia Sars-Covid2 podem ser percebidas e racionalizadas como algo externo e exercido pelas autoridades públicas e (ou) autoassumidas em razão de um bem maior a alcançar. A esperança que nos move é que estas restrições sejam temporárias em função da capacidade da sociedade humana gerir ou debelar esta ameaça e tudo voltará a ser o que era, mas será mesmo assim? O conceito de restrição figura também no início da Homilia da Missa Crismal do Srº D. Manuel, Bispo da Guarda, nesta última Quinta Feira Santa, também ele consciente das limitações que as restrições exógenas e internas que se impõem, quer à celebração da Missa Crismal quer às celebrações litúrgicas nos seus ritos durante os próximos tempos. Ao longo dos dois milénios, as pandemias do passado deixaram, a seu modo, impressa a sua passagem nos ritos da igreja: comunhão sob a espécie do pão; rituais de purificação já tão profundamente enraizados tradição judaica; e as fumigações com o caso paradigmático de São Tiago de Compostela.Esta pandemia veio levantar algumas questões de saúde pública relativamente a alguns dos nossos ritos. A evidência disso mesmo foi o modo como a igreja suprimiu, adaptou e reajustou formas de estar e de agir, procurando assim adequar a sua acção ao pleno cumprimento do 5º mandamento do decálogo. Contudo, do que sabemos e o conhecimento que detemos desde Louis Pasteur, esta pandemia desafia a igreja a reajustes mais definitivos e incisivos que o conceito de restrição primariamente nos levaria a pensar, ou mesmo talvez outros modos se tornarão permanentes. A panóplia de vírus e bactérias transmissíveis pelo toque directo ou pelo toque indirecto através de objectos e com consequências mais ou menos benignas como um herpes labial mas outras mais debilitantes e com consequências imprevisíveis tais como como a Hepatite A, e deixo ao leitor a curiosidade da pesquisa, hão-de levar a igreja a fazer um necessário discernimento de modo optimizar os seus ritos e a ajustá-los aos seus próprios padrões morais.Por outro lado precisamos de saber o modo como os actuais ritos litúrgicos recentemente em uso pela Igreja estão de algum modo correlacionados não apenas com eventuais cadeias de transmissão de doença mas também com o fortalecimento da imunidade individual e a tão badalada imunidade grupo. São por isso necessários estudos de base médica e teológica que guiem a igreja no seu necessário discernimento de modo a poder optimizar os seus ritos. Comitentemente a Igreja manifesta sempre dificuldade em traduzir na prática o que já conhecemos ou nos é dado a conhecer e ajustá-lo, adaptá-lo ou redefini-lo em rito. A discussão encarniçada acerca do uso, ou não uso, de mascara pelo celebrante desde princípio até ao fim da celebração, é em si mesmo reveladora das dificuldades. Porque não foram dadas instruções que a distribuição da comunhão se fizesse sempre com a Reserva Eucarística e com tempo significativo entre a consagração e a distribuição da Comunhão? Ou ainda, consagração em píxide fechada ou aberta? e a que distância…? Questões como estas precisam de uma clara resposta, pois a controvérsia provavelmente não terminará com o debelar ou com a gestão da presente pandemia. Creio que a sanitização pré e pós comunhão veio para ficar. O povo de Deus está cada vez mais atento e mais desperto, ciente que outras ameaças continuam presentes e que esta pandemia só veio amplificar.Este discernimento há-de ser feito pela igreja e na igreja, ainda que se não preveja um diálogo fácil pois os processos de polarização são comuns nestes assuntos de ritos litúrgicos. A tentação da idolatrização do rito talvez nunca tenha sido tão intensa como hoje por diversos factores. Prefere-se a idolatrização do rito em detrimento da adoração do “Misterium”. Mas uma coisa me parece certa: Se o magistério da Igreja não for capaz de fazer este discernimento, os cristãos conhecedores o farão por si e pelo bem dos seus.