A minha pretensão ao abordar o assunto da ressurreição neste tempo pascal é tão somente a de um cristão que tenta compreender este tema, já que ele é difícil de entender e também de explicar.


Na minha ingenuidade, proponho-me abordá-lo fora da sua vertente teológica. É verdade que no centro da esperança cristã, existe a grande narrativa que se situa entre o desespero da Sexta-Feira Santa — a morte e a sepultura de Jesus, e a esperança do Domingo de Páscoa, que a fé católica anuncia como a sua ressurreição. É esta a ideia de salvação entre os cristãos. E para que haja salvação são necessárias duas coisas. Primeiro, um diagnóstico inicial onde se constata que a pessoa se encontra numa situação que não está bem, e depois é necessário ter a esperança de a poder ultrapassar.
O marxismo, por exemplo, é também uma teoria de salvação. Constata-se que há exploração do homem pelo homem e a solução é fazer a revolução para a mudar e assim poder salvar o homem.
No cristianismo, a salvação é um tema central. Em língua hebraica, “Jesus” significa “Deus salva”, e Cristo tem o nome de Salvador.
Existe um termo, digamos laico, para descrever o processo de ressurreição, que é a designada resiliência, actualmente bem na moda. (ver Boris Cyrulnik). Todavia, alguns teóricos da resiliência concentram-se numa forma de exaltação do sofrimento. Esclarece-se que, à partida, a resiliência é um termo da física, uma propriedade dos materiais, precisamente, a capacidade de retomarem a forma inicial, após um grande choque. A ideia de ressurreição é um pouco mais ambiciosa por nela se conseguir um melhor estado. Foi o que aconteceu a Jesus que acedeu a uma vida superior, mesmo se os estigmas das feridas ainda eram visíveis, como constatará o incrédulo São Tomé.
No conceito cristão de ressurreição, estamos confrontados com uma força que nos ultrapassa a qual é necessário invocar. Quando Jesus estava na cruz, diziam-lhe: “salva-te a ti próprio!”. Mas deixou-se morrer e não se ressuscitou a ele próprio, mas sim ressuscitado por Deus Pai.
Também quando estamos perante um grande sofrimento, a nossa sociedade propõe-nos dois modelos: o do desenvolvimento pessoal, o self-help, que é deveras desgastante porque é necessário ser sempre bom, sempre o primeiro, sempre eficiente, não pedir ajuda a ninguém. Pelo contrário, a sabedoria cristã dirá: salva-me, Senhor, ajuda-me, Senhor. É uma maneira de se reconhecer frágil, fraco e de fazer apelo a alguém, o que pouco se coaduna com os tempos que correm, tendo a esperança de que o Senhor virá em nosso auxílio e nos salve.
É verdade que muitos cristãos não acreditam na ressurreição. Parece um salto no vazio, mas, no decurso da nossa vida fizemos muitos: o dia do nosso casamento, desafios que fizemos a nós próprios, quando começámos, por exemplo, os estudos superiores ou universitários para exercer uma profissão de médico, advogado, etc.
Além disso, há toda uma didática baseada na natureza que nos pode ajudar a compreender estados difíceis de existirem. Por exemplo, o grão de trigo que o agricultor semeou, ao rebentar, dá um caule com uma forma inimaginável; a árvore que, no Inverno, parece morta, mas na Primavera volta de novo à vida, ressuscita. Se nunca tivéssemos visto estas transformações da natureza, alguma vez as poderíamos imaginar?